Bosque Vertical, Stefano Boeri Architetti © Dimitar Harizanov

UIA2021RIO: Os melhores momentos dos cinco dias de programação principal!

O ponto máximo do 27º Congresso Mundial de Arquitetos é marcado pela passagem de grandes nomes do setor. A seguir, os principais recortes do Palco Mundo UIA2021RIO!

Até amanhã, 22 de julho, os congressistas do 27º Congresso Mundial de Arquitetos (UIA2021RIO) assistem às palestras com vinte dos nomes mais importantes da arquitetura mundial e às mesas-redondas com mais de cem arquitetos premiados internacionalmente, além de apresentações de trabalhos, atividades culturais e premiações. Desde março, quase 90 mil pessoas, de mais de 180 países, vêm acompanhando os painéis preparatórios – recorde absoluto nos mais de 70 anos do evento realizado pela União Internacional de Arquitetos (UIA) a cada três anos. A extensa programação merece, portanto, destaque de seus melhores momentos.

 

18 de julho (domingo)

Desde o último domingo (18), a cerimônia virtual de abertura UIA2021RIO contou com falas de autoridades do Rio de Janeiro e de grandes representantes nacionais e internacionais de Arquitetura e Urbanismo, marcando o início da programação principal. O evento de boas-vindas, conduzido pelo eixo temático do Congresso, “Todos os Mundos. Um só mundo. Arquitetura 21”, suscitou a discussão com o desenvolvimento de cidades mais inclusivas e conscientes quanto ao meio ambiente, à diversidade e às necessidades de um mundo globalizado, sobretudo, no pós-pandemia.

Com apresentação de Igor de Vetyemy, Comissário Geral do UIA2021RIO e Co-Presidente do Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/RJ), participaram da cerimônia de abertura: o governador do Estado do Rio, Cláudio Castro; o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes; o presidente do Comitê Executivo do UIA2021RIO, Sérgio Magalhães; o presidente da UIA, Thomas Vonier; a presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Maria Elisa Baptista; a presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU), Nadia Somekh; a presidente da Federação Nacional de Arquitetos (FNA), Eleonora Mascia; e o representante do Comitê de Honra do UIA2021RIO, Oskar Metsavaht [confira mais em Revista PROJETO – UIA2021RIO: Abertura é marcada pela preocupação com o futuro das cidades].

Na sequência inaugurou-se o Palco Mundo, quadro onde se apresentam os principais arquitetos e urbanistas convidados. O primeiro quadro contou com explanações ilustres de Carla Juaçaba (Brasil), Eduardo Souto de Moura (Portugal), Nuno Sampaio (Portugal), Francis Kéré (Burkina Faso), Marina Tabassum (Bangladesh), Amira Osman (Sudão/África do Sul), Elisa Silva (Venezuela), Anna Heringer (Alemanha), Magda Mostafa (Egito), Marilys Nepomechie (EUA).

 

Francis Kéré: Arquitetura com sustentabilidade em prol de comunidades locais

Entre os palestrantes do primeiro dia da programação principal do UIA2021RIO estava um dos mais renomados arquitetos da atualidade: Diébédo Francis Kéré, de Burkina Faso. Em seus trabalhos, Kéré busca aliar inovação com transformação social, sustentabilidade e acessibilidade. Com projetos ao redor do globo, como nos Estados Unidos, China, Mali, Uganda e Iêmen, o arquiteto africano é movido sempre pelo objetivo de promover melhorias para comunidades locais, principalmente em seu país de origem. Em sua conferência, Kéré contou um pouco sobre a sua relação com a arquitetura e aconselhou jovens profissionais:

 

Comecei a atuar na arquitetura usando-a para contribuir no desenvolvimento da arquitetura no meu país natal. Para aqueles mais jovens, eu tenho algo a dizer a vocês: tudo é possível se você tiver oportunidade de ter acesso à educação, e se souber usar as suas competências. É uma questão de se atender às comunidades.

 

Francis Kéré contou que a escolha pela arquitetura nasceu da paixão por sua terra natal. Ao público do UIA2021RIO, ele falou sobre o trabalho na escola Gando Primary School, projeto que desenvolveu para a sua comunidade quando ainda era estudante. Também discorreu sobre a solução, já usada por ele, de projetos que envolvam recursos acessíveis e de baixo custo, como a argila e a madeira de eucalipto, possibilitando a construção de espaços confortáveis. O arquiteto apresentou seu processo de trabalho com maquetes, desenhos e até fotografias de construções de alguns de seus renomados projetos, como a Escola Lycée Schorge e o Burkina Institute of Technology, ambos em Burkina Faso.

 

Marina Tabassum: Um debate sobre arquitetura vernacular

Natural de Bangladesh, a arquiteta Marina Tabassum foi um dos grandes nomes da arquitetura mundial a palestrar no primeiro dia do UIA2021RIO. Reconhecida por trabalhar a arquitetura em consonância com o ambiente no qual a construção se situa, com atenção aos desafios impostos pelo meio e propostas para uma ‘ecologia de sustento’, Marina comentou três dos seus projetos ao longo da sua fala no congresso, incluindo o da Mesquita Bait-ur-Rouf, pelo qual ganhou o Prêmio Aga Khan em 2016.

O projeto da Mesquita Bait-ur-Rouf foi reconhecido por desafiar o padrão arquitetônico de mesquitas e ser um respiro no caos urbano da cidade de Dhaka, capital de Bangladesh. No entanto, o que mais chama a atenção é o uso da luz natural, que é a única forma de ornamento na construção:

 

As mesquitas atualmente vistas em Dhaka e em outros lugares de Bangladesh mostram um grande declínio na tradição arquitetônica, sem nenhuma qualidade de espaço e nenhum senso de espiritualidade. Senti atraída a Hagia Sofia ou à Mesquita de Córdova para obter inspiração por conta da qualidade da luz do dia, que evoca um senso de espiritualidade. O orçamento foi muito modesto. Por isso, o projeto permanece elemental e a luz age como único ornamento”, conta a arquiteta.

 

Mesquita Bait-ur-Rouf © Divulgação

 

Como resultado de uma pesquisa sobre as comunidades e vilarejos nômades que vivem no estuário do Rio Ganges e se mudam a cada estação por conta das enchentes, Tabassum também desenvolveu casas modulares com fácil montagem e desmontagem para atender às demandas da realidade do local. Os módulos eram inteiramente construídos com bambu, palha e conectores de metal.

 

Casas modulares © Divulgação

 

Outro projeto, desta vez nos Sundarbans, o maior mangue arbóreo do mundo, lar do tigre-de-bengala, foi a construção do Panigram Resort, totalmente integrado à natureza e comunidades locais. O projeto ganhou vida com base na organização dos elementos que compunham os vilarejos e com técnicas de construção milenares de uso de lama e adubo, aprendidas com os próprios aldeões:

 

Com conhecimento local e uma linguagem arquitetônica que não é um mistério, o projeto cresceu firme e forte. Referenciando por vilas locais, criamos pátios e cabanas que refletem a relação simbiótica entre a natureza e o homem. Ao mesmo tempo, ajudou a gerar uma economia local que beneficiou os vilarejos próximos”, finalizou.

 

Panigram Resort © Divulgação

 

19 de julho (segunda-feira) | MANHÃ

Na manhã da segunda-feira (19), segundo dia de programação principal do UIA2021RIO, três keynotes speakers palestraram no Palco Mundo: os chineses Cui Kai e Zhang Li, e a holandesa Francine Houben.

Cui Kai explicou o “racionalismo baseado na terra”, que guia o seu trabalho para valorizar a harmonia entre o ambiente construído e a paisagem natural. Já o arquiteto Zhang Li trouxe aos congressistas a importância da conexão dos corpos humanos com as cidades, para além de uma lógica focada apenas nas construções e nos objetos. Por fim, Francine Houben falou ao público do congresso sobre a sua experiência na construção e na renovação de importantes espaços públicos no mundo, sempre pensando na comunidade do entorno e nas pessoas que vão visitar os locais.

 

Cui Kai e a defesa dos elementos naturais

Cui Kai deu início aos debates do dia falando sobre a sua filosofia de trabalho, o “racionalismo baseado na terra”, que visa a completa harmonia entre o ambiente construído, os elementos naturais e a cultura de determinado território. O arquiteto, nascido em Pequim, é presidente honorário e arquiteto-chefe do Grupo de Arquitetura, Design e Pesquisa da China, e vencedor do Prêmio Liang Sicheng de Arquitetura, em 2007.

“O fundamento ideal do “racionalismo baseado na terra” deriva de um regionalismo crítico. Durante anos de prática de arquitetura, eu transformo esse ideal em uma série de estratégias e metodologias que promovem harmonia entre prédios e natureza, heranças históricas e sustentabilidade. Elas não podem ser guias apenas para o design arquitetônico, mas precisam ser transmitidas para estudantes, encorajando-os a ver a arquitetura como um tipo de valor social universal, em vez de um valor individual”, explicou.

 

 

Ao longo da palestra, Cui Kai apresentou algumas de suas principais obras ao redor da China, que enfatizam a proposta de diálogo dos projetos com as paisagens. Entre elas, destacam-se o Mogao Grottoes Digital Exhibition Center, que se integra ao cenário de deserto de um patrimônio mundial; o Rongcheng Youth Center, que foi pensado em harmonia com um terreno de frente para a praia, em pleno centro urbano; o CITIC Jinling Hotel, que se adequa às montanhas de Pequim; e o Pavilhão da China na Exposição Horticultural Internacional de Pequim, cujo formato do telhado lembra construções tradicionais chinesas.

 

Zhang Li: O corpo humano na arquitetura

Em seguida, foi a vez do chinês Zhang Li dar o seu depoimento, em que ressaltou a importância de se pensar construções arquitetônicas a partir das interações com o corpo humano, e não só pela monumentalidade e estética da construção em questão. Graduado na Universidade de Tsinghua, em Pequim, onde também lecionou, e editor-chefe da renomada revista chinesa World Architecture, Zhang é um dos estudiosos do conceito “ergonomics”, que investiga o uso dos espaços públicos tendo em vista as movimentações e relações humanas, de modo a melhor atender às necessidades daqueles que vão utilizar a estrutura proposta.

O arquiteto explicou que, por muito tempo, o design das cidades foi pensado a partir da demanda de se fazer objetos, e que, mais recentemente, as capitais chinesas passaram a refletir sobre o cotidiano da vida urbana e como os residentes dessas cidades se sentem:

 

Vamos torcer para que muito mais seja feito para reconectar nosso corpo aos espaços urbanos, principalmente em um tempo em que tudo parece estar se tornando cada vez mais virtual. As interações físicas entre corpo e artefatos urbanos devem se tornar muito mais valorizadas”, defendeu Zhang Li.

 

Ele apresentou e explicou cinco de seus projetos, todos na China, trabalhados a partir das cinco escalas que são base do estudo de “ergonomics”: Nordic Cluster Beijing 2022, Shougang Big Air, Aranya Youth Camp, Jianamani Visitor Centre, Waiteless Toilet (Net Garden) e Ski Jump Centre.

 

Ski Jumping Centre © Divulgação

 

Francine Houben defende multidisciplinaridade e processo

As atividades da manhã no Palco Mundo do UIA2021RIO terminaram com a conferência da arquiteta holandesa Francine Houben, fundadora e diretora criativa da Mecanoo Architecten, sediada em Delft, na Holanda. A obra de Houben é ampla e inclui projetos em vários lugares do mundo, como universidades, bibliotecas, teatros, museus e hotéis. Ela defendeu a multidisciplinaridade de sua equipe, “como uma orquestra sinfônica” que, quando está unida, faz música – no caso, arquitetura.

Ao longo de sua apresentação, Francine detalhou o processo de planejamento e conceito da renovação da área portuária de Rotterdam (Holanda), da Biblioteca Memorial Martin Luther King (originalmente projetada por Mies van der Rohe, em Washington D.C., nos EUA) e da construção do Centro Nacional Artístico de Kaohsiung (Taiwan). Em todos os projetos, a arquiteta ressaltou a preocupação em entender alguns pontos chave para guiar o processo: a transitoriedade dos locais, ou seja, o que eram antes e como foram utilizados ao longo da história; como integrar o espaço com a cidade e os moradores no entorno; e como a construção inspira as pessoas que vão frequentá-la.

 

O processo depende muito da escala, do histórico do lugar e do propósito do prédio. Temos que ter cuidado com as pessoas que moram lá. Realmente tentamos imaginar como diferentes gerações podem aprender e crescer na mesma área. E, levando em conta sempre a mudança climática, é uma questão muito premente e deve ser considerada seriamente na arquitetura e urbanismo”, destacou a arquiteta.

 

 

19 de julho (segunda-feira) | TARDE

O Palco Mundo do UIA2021RIO, o 27º Congresso Mundial de Arquitetos, recebeu, na tarde de segunda-feira (19), três premiadas arquitetas da sua lista de keynote speakers: Elizabeth de Portzamparc, brasileira radicada na França; a alemã Anna Heringer; e Tatiana Bilbao, do México.

Elizabeth de Portzamparc trouxe à discussão o conceito de “Arquitetura Nexus”, que defende a conexão entre diversos elementos na hora de se pensar e fazer arquitetura. Já Anna Heringer defendeu um método de trabalho focado na justiça social e na inclusão de comunidades em projetos que podem transformar suas vidas. Por fim, Tatiana Bilbao promoveu uma poética apresentação da casa como ato social, que abriga rituais para os quais a arquitetura deve sempre olhar.

 

Elizabeth de Portzamparc: Arquitetura de conexões

Elizabeth de Portzamparc introduziu os debates da segunda tarde de UIA2021RIO. Vencedora de prêmios como o Future Heritage Award (2016) e o Prêmio MIPIM de Design (2005), e dona de duas medalhas do Senado Francês pela carreira, a arquiteta e urbanista assina obras como o Musée de la Romanité de Nîmes (França), o Tramway de Bordeaux (França), o Hotel Les Arènes (Marrocos) e a Biblioteca do Campus Condorcet (França) – a maior biblioteca de Ciências Humanas da Europa.

Ao público do congresso, Elizabeth apresentou o conceito de “Arquitetura Nexus”, explicando que “nexus” é uma palavra latina que é sinônimo de conexão, embora, no Brasil, o termo “nexo” seja usado para definir algo que faz sentido e é lógico. Ela é defensora de uma arquitetura de conexões, que contempla a interligação de todas as dimensões da realidade, incluindo fatores sociais, econômicos, culturais, históricos, ecológicos e científicos. Durante sua fala, explicou que a cidade se baseia em sistemas interativos e que a tradição de uma visão urbana funcionalista afeta negativamente a vida cotidiana dos habitantes.

 

Biblioteca do Campus Condorcet © Portzamparc/Divulgação

 

Musée de la Romanité, Nîmes © Wade Zimmerman/Divulgação

 

“Eu gosto da riqueza da palavra nexo, dizendo que o significado das coisas vem das relações que elas estabelecem entre si, ou seja, a ideia só faz sentido se ela mantém relações com outros assuntos. Eu uso Nexus para definir minha visão de arquitetura: tudo o que ela é e tudo o que ela contém. A arquitetura é inseparável de uma visão de mundo, comprometida tanto com a transformação social quanto com sua preservação. Como na natureza, cada edifício pertence a um ambiente com o qual deve estar em harmonia. Ele se instala, modifica e evolui com o lugar, passando a pertencer ao ecossistema com o qual irá evoluir” discorreu Portzamparc.

 

Anna Heringer enfatiza a necessidade de justiça social

Motivada pela crença de que a arquitetura é uma ferramenta para melhorar vidas, a alemã Anna Heringer descreveu, no UIA2021RIO, sua forma de trabalhar como sendo pautada pela sustentabilidade, pela inclusão e pela justiça social. Ao longo da palestra, a arquiteta apresentou alguns de seus trabalhos: a escola que criou em Rudrapur (Índia); Anadaloy Bangladesh, centro para pessoas com deficiências e oficina têxtil; e o Albergue Bamboo, na China. Em todos, Heringer buscou utilizar materiais que fossem favoráveis à comunidade local e ao meio ambiente.

Para ela, a melhor estratégia para o desenvolvimento sustentável é buscar os recursos disponíveis na região, sem ficar dependente de fatores externos, valorizando materiais como terra, lama e bambu. Entre estes elementos, Heringer aponta a lama como campeã de uso, devido à possibilidade que ela apresenta de ser reciclada inúmeras vezes sem sofrer perda de qualidade; além disso, pode ser retornada ao solo e ter um jardim plantado por cima. A arquiteta também ressaltou a importância da energia humana, para que pessoas – crianças, adultos ou idosos – se envolvam na construção dos projetos, uma vez que o material usado não apresenta risco aos envolvidos.

Anna apontou, ainda, o problema de se utilizar apenas uma estratégia de construção, que se aplica a um terço da população mundial, enquanto a outra parte não consegue pagar pelo uso da tecnologia. Essa diferença de poder aquisitivo entre nações não deveria, portanto, levar algumas pessoas a se sentirem no direito de consumirem mais recursos. Ela destacou que não há carência de materiais, nem de informações, mas de relações realmente boas.

A arquiteta falou sobre a importância de um pensamento sistêmico, que considere tudo e todos os impactados pelo trabalho de um arquiteto desde o princípio:

 

Quando escolho um material, pergunto-me quem ficará com o lucro. E, no fim da minha carreira de arquiteta, quando eu estiver a somar todos os orçamentos de construção que passaram pela minha mão e pelos quais fui responsável, quero poder dizer a mim mesma que foi para os artesãos e para as pessoas, e não apenas para as grandes indústrias”, concluiu.

 

Tatiana Bilbao: O fascínio pelos rituais do espaço doméstico

Em uma poética apresentação intitulada “A casa como ato social”, a mexicana Tatiana Bilbao fechou as palestras de keynote speakers na tarde de 19 de julho. A arquiteta recordou-se da experiência de trabalhar na construção de um mosteiro, no leste da Alemanha, e de como o trabalho foi fundamental para fazê-la refletir sobre os sensos de comunidade, espiritualidade e ritual. Ela percebeu, então, como essas noções que perpassam o cotidiano de um ambiente religioso também estão intrínsecas ao espaço doméstico, sem nos darmos conta disso.

“Fui criada para entender hábitos humanos e construir espaços sem banir rituais. Uma das coisas mais importantes que eu compreendi é que ritual significa vida, e como é importante a relação entre o indivíduo e a sua comunidade. Os monges têm uma comunidade interna, na qual todos trabalham para manter o corpo e sustentar a espiritualidade. Essas relações são escaladas dentro do mosteiro. Nós ainda não entendemos isso na comunidade, mas estamos sempre em busca desse tipo de relação. Vivemos num mundo onde tudo é privado ou público, individual ou coletivo. Esquecemos a compreensão das relações que precisamos criar e manter para nos sustentar”, explanou.

A aqueles que assistiam à palestra, Tatiana levantou, então, o questionamento: “Onde a vida pode, de fato, existir nesses ambientes domésticos que criamos?”. Para ela, é papel do arquiteto ir atrás dessas conexões – não apenas físicas, mas também de uma pessoa ou família com a casa, porque isso acaba determinando toda a vida em sociedade. Desse modo, os habitantes precisam se envolver na reflexão sobre o espaço, trazendo à tona seus hábitos, sentimentos, emoções, atividades do dia a dia e estilo de vida. A mexicana crê que o que há de mais urgente na arquitetura é como ela pode se tornar uma plataforma que coloque a existência humana como centro de tudo, e não a produção.

Tatiana Bilbao assina obras como o Central Park Mazatlan (México), a Torre de Guatemala (Guatemala) e a Monarch Sustainable Neighbourhood Angangueo (México).

 

Central Park Mazatlan © Tatiana Bilbao Estudio

 

Guatemala Tower © Tatiana Bilbao Estudio

 

20 de julho (terça-feira) | MANHÃ

Na manhã de terça-feira (2o), terceiro dia da programação principal do UIA2021RIO (27º Congresso Mundial de Arquitetos), três palestras cativaram profissionais e estudantes ao redor do planeta: a dos vencedores do Prêmio Pritzker de 2017, Carme Pigem e Rafael Aranda, do escritório espanhol RCR Arquitectes; a do chinês Li Xiaodong; e a do arquiteto Bijoy Jain, líder do escritório indiano Studio Mumbai.

 

Carme Pigem e Rafael Aranda refletem sobre a relação entre espaços fechados e áreas externas

Vencedores do Prêmio Pritzker de Arquitetura em 2017, Carme Pigem e Rafael Aranda, do escritório espanhol RCR Arquitectes, abriram a manhã de debates no UIA2021RIO. Junto à Ramon Viltata, que não estava presente na conversa, os dois palestrantes assinam uma gama de obras na terra natal, a Catalunha, como o Teatro La Lira, a Pista de Atletismo Tossols-Basil e as Adegas Bell-Illoc.

Um dos principais pontos abordados por Carme e Rafael foi o fato de que a pandemia acabou confirmando o norte do trabalho do escritório desde o princípio: a necessidade de pensar cidades juntamente a suas paisagens naturais e meio ambiente, priorizando espaços ao ar livre acessíveis. Para eles, até mesmo ambientes fechados, como apartamentos, devem ter um meio de conciliação com a área externa, e é preciso usar a arquitetura para ultrapassar esses limites.

“O caminho a seguir é tentar botar as áreas externas dentro dos nossos espaços interiores. E, com isso, eu não digo que ‘vivo minha vida aqui dentro e vou lá fora para lazer ou para praticar esportes’. Deve mesmo haver um entrelaçamento interior-exterior em todos níveis, tanto no espaço onde você vive, quanto naqueles onde trabalha ou faz outros tipos de atividades. Essa questão que sempre nos interessou está claramente em discussão nos dias de hoje. Deve chegar o momento no qual nós não vamos falar sobre áreas internas ou externas; em vez disso, precisa ser natural como nos movemos entre os espaços”, contou Carme.

 

Adegas Bell-Illoc, RCR Architectes © Eugeni Pons

 

Estádio de atletismo Tussols-Basil, RCR Architectes © Divulgação

 

Em complemento, Rafael Aranda discorreu: “Normalmente, nós não gostamos de dizer que construímos prédios, mas que fazemos paisagens. Nós gostamos de pensar o prédio como uma paisagem. Acreditamos que essa é a essência. Se você entende arquitetura como paisagem, o mundo se abre a você, é uma perspectiva diferente.

Outro tópico abordado pelos espanhóis foi a sustentabilidade na arquitetura e como as contas devem ser feitas o tempo todo para definir equilíbrios: entre ambientes internos e externos, o uso de novos materiais e materiais reciclados, o aproveitamento de luz natural e de luz artificial, entre outros aspectos.

 

Uma arquitetura sustentável sozinha não é o suficiente, todos temos de fazer nossa parte. Por isso, quando o Rafael diz que nós gostamos de fazer prédios paisagens… para não destruir a beleza que nós temos. E a primeira coisa que precisamos fazer são intervenções respeitosas a ela, acreditando que isso faz parte de um mundo sustentável”, refletiu Carme Pigem.

 

Li Xiaodong e as tradições chinesas aplicadas à arquitetura

Em sua palestra, o prestigiado arquiteto chinês Li Xiaodong ressaltou a importância de uma arquitetura que não separe sujeito e objeto, humano e natureza. Pelo contrário, ele defende que, assim como o humano, a arquitetura deve ser parte do ambiente natural. Assim, busca utilizar em seus projetos materiais locais, como madeira e rochas, incorporando as características do ambiente nas edificações e sempre tendo em mente as características climáticas da região.

Ao longo de sua apresentação, ele apontou para a importância de espaços para a troca de conhecimento e de conexão, e mostrou alguns de seus projetos, incluindo escolas e bibliotecas tanto em áreas rurais das províncias chinesas, quanto em Tianjin, quarta maior cidade da China.

A cultura chinesa reflete nas obras de Li Xiaodong. Inclusive, um dos trabalhos que apresentou, projeto de uma escola em 2010, foi baseado na medicina ancestral de seu país: “Eu queria apresentar um programa de arquitetura para trabalhar com a comunidade em um processo de revitalização. A medicina chinesa acredita que o que acontece em parte do corpo é por conta de um problema no sistema todo; então, quando revitaliza o fluxo de energia no corpo, você consegue curar as doenças. Nesse caso, a cura é essa escola, com uma área de apresentação, biblioteca e ponte. Conexão é algo importante, essa ideia de estar unido”.

 

Escola em Tianjin © Divulgação

 

Ele explicou que, no passado, a China tentou se integrar ao processo de globalização e construir prédios como os de Nova York, mas que, com o passar do tempo, os chineses começaram a se familiarizar melhor com a arquitetura moderna. Sua busca no trabalho é pela originalidade, de modo que os edifícios projetados por ele possam refletir o contexto no qual estão inseridos, como a realidade e o estilo de vida daquele lugar.

 

Studio Mumbai: Construções através de civilizações

Vencedor da medalha Alvar Aalto 2020, prêmio para homenagear arquitetos e estúdios internacionais, o arquiteto indiano Bijoy Jain, que lidera o escritório Studio Mumbai, mostrou no UIA2021RIO o fascínio pelo método de execução de “fazer com as mãos”, utilizando materiais como madeira e rocha.

Durante a palestra, ele apresentou alguns de seus projetos, como o de um complexo para uma tecelã e o de um espaço aberto com um poço, uma árvore bem antiga e uma rocha, explicando que recriaram ali um método de construção rudimentar utilizando gravidade. Ele acredita que o uso de mecanismos como este permite a comunicação com uma geração que não conhecemos. Bijoy é movido pela ideia de que as coisas possam ser construídas para serem transferidas através das civilizações, e que um artefato possui algo embutido no fundo do DNA.

 

Mais importante do que a arquitetura é o modo como as pessoas se movem em um espaço, como vivem; é o processo de fazê-lo e como a pessoa se engaja com o processo. Isso é importante para nossa experiência no espaço produzido. Não quero dar o nome de arquitetura ou edifício. Para mim, a ideia de arquitetura tem mais a ver com fazer espaço e menos a ver com edifício, que é o aspecto físico”.

 

Assim, o arquiteto conta que prédios e casas não resumem seu ofício, são apenas os incidentes de um projeto. O responsável pelo Studio Mumbai falou ao público do congresso que a arquitetura é como o cultivo de uma área a ser plantada: seu foco está na relação não excludente entre homem-natureza, e na busca de como como incutir camadas no ambiente no qual seu projeto está inserido – ou seja, arquitetura como estudo da arqueologia, que se move ao longo da natureza e do tempo.

 

20 de julho (terça-feira) | TARDE

A tarde do último dia 20 recebeu as apresentações de dois arquitetos: o italiano Stefano Boeri, que projeta florestas verticais e aspira pela criação de corredores verdes que conectem diversos territórios; e a americana Jeanne Gang, primeira mulher a projetar dois dos prédios mais altos do mundo e grande defensora do contato com lideranças locais para melhorar os espaços dos grandes centros urbanos.

 

Stefano Boeri e o verde na arquitetura

O italiano Stefano Boeri dedica a profissão a projetar corredores verdes e jardins verticais, sob a crença de que o planejamento urbano deve estar sempre associado a preocupações com mudanças climáticas e com a preservação da biodiversidade. Para ele, um bom edifício – e o que deve ser o edifício do futuro – é aquele que serve como abrigo não só para humanos, mas também para espécies de plantas e animais. Em uma escala maior, o arquiteto defende a criação de florestas urbanas e verdadeiros corredores verdes, cuja vegetação seja capaz de interligar territórios.

Ao redor do mundo, Boeri assina projetos de florestas verticais, ou seja, prédios com superfícies tomadas por vegetação. Alguns deles são: o Bosque Vertical, em Milão (Itália), com duas torres cobertas com mais de 21 mil espécies de plantas; a Floresta Vertical de Nanjing (China); e a Torre de Cedro (Suíça).

O palestrante explicou ao público que não se trata de mera questão de paisagismo, mas de embutir a natureza selvagem nos projetos, encontrando um novo ponto de vista para que a arquitetura se torne uma “arquitetura da biodiversidade”. Ele deu o exemplo do Bosque de Milão: são duas torres cobertas com mais de 21 mil espécies de plantas e mais de 20 espécies de pássaros que vivem nas fachadas; de acordo com estudos que vêm sendo realizados, notou-se que, durante o verão, os moradores do prédio não precisam sequer utilizar ar condicionado.

 

Bosque Vertical, Stefano Boeri Architetti © Dimitar Harizanov

 

Bosque Vertical, Stefano Boeri Architetti © Dimitar Harizanov

 

Eu acredito que essa ‘obsessão verde’, como eu chamo, é algo que pode interferir no modo como estamos interessados em criar edificações, construções a serem habitadas por pessoas e por pássaros. Queremos desenhar verdadeiras florestas urbanas, planos para cidades mais conectadas e presentes. Assim, podemos criar habitações onde as superfícies que não são aproveitadas se reduzam a um mínimo. É uma obsessão criar um corredor de biodiversidade ainda maior no planeta, que possa unificar territórios, oásis naturais e florestas. As cidades verdes são os pontos de conexão na geração desse corredor”, disse Boeri.

 

Jeanne Gang: O poder dos arranha-céus e do envolvimento com a comunidade

Jeanne Gang foi a primeira mulher a projetar um dos prédios mais altos do mundo, o Aqua (Chicago, EUA), com 82 andares; depois, bateu o próprio recorde, com o projeto do St. Regis, também em Chicago, de 101 andares. Durante a palestra no UIA2021RIO, a americana afirmou que toda a sua jornada é voltada para o trabalho com comunidades. Fundadora do Studio Gang há mais de 20 anos, ela aponta que o foco do seu escritório são os grandes centros urbanos, e como a arquitetura e o design urbano podem se unir para criar uma conexão mais forte no quesito diversidade, melhorando os espaços para todos.

“Durante a pandemia, tivemos o exemplo de como o espaço pode desestimular as interações sociais. Isso foi muito triste, pois o que precisamos como pessoas são justamente as interações sociais. Com isso, nossos espaços públicos se tornaram ainda mais importantes, pois são flexíveis e conseguem acomodar pessoas com o distanciamento físico nessas áreas. Os espaços públicos na pandemia também foram usados para manifestações políticas, o que é muito importante para a democracia. Acredito que seja fundamental expandir a noção do que é espaço público até mesmo para lugares semi-públicos”, defendeu Jeanne.

 

Projeto para a Universidade no Illinois, da arquiteta Jeanne Gang © Divulgação

 

Planejamento do Tom Lee Park, da arquiteta Jeanne Gang © Divulgação

 

Ao longo de sua fala, Gang mostrou projetos que realizou nos Estados Unidos. São eles: o Chinese American Service League, na comunidade de Chinatown, em Chicago; o SOS International Community Center, também em Chicago; e dois projetos em Memphis, nos quais, ao lado de sua equipe, trabalhou em espaços públicos com o engajamento da comunidade para desenvolvê-los. O trabalho em Cobblestone Landing, Memphis, mostrou-se um desafio, pois era um lugar no qual pessoas escravizadas trabalhavam na indústria de algodão no país.

Assim, no processo, a arquiteta pontuou o quão importante foi estar em contato com pessoas de grupos variados da região, consultando artistas, filantropos, moradores e ativistas como Elmore Nickelberry, que marchou com Dr. Martin Luther King. Com isso, ela destacou relevância de ouvir as impressões das lideranças locais na hora de trabalhar em um espaço público, para reconhecer o que é, de fato, necessário naquele local.

 

21 de julho (quarta-feira) | MANHÃ

Na manhã de quarta-feira (21), quarto dia da programação principal do UIA2021RIO (27º Congresso Mundial de Arquitetos), três arquitetos de diferentes países da Ásia dividiram um pouco de seus processos criativos e práticos com o público: Rui Leão, presidente do Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP), que vive em Macau (China); do Japão, Kengo Kuma, vencedor do Global Award for Sustainable Architecture; e, da Indonésia, Andra Matin, líder do escritório de arquitetura Andra Matin.

 

Rui Leão e a integração de espaços urbanos

A primeira conferência foi de Rui Leão, que compartilhou alguns dos seus trabalhos com espaços urbanos e revitalizações em Macau, na China. Para falar sobre a arquitetura como forma de criar espaços públicos que mantenham interface com a infraestrutura da cidade, o arquiteto apresentou o processo da Praça Nam Van, em Macau. O desafio era criar uma praça pública em um espaço no qual ela não cabia, por ser projetada para estar em uma rotunda. A solução foi, então, puxar as estradas para fora, aumentando a área da praça e criando soluções para o trânsito e para o convívio do cidadão no novo ambiente:

 

Foi um desafio e tanto projetar uma praça no meio da encruzilhada de estradas principais. O projeto mostra como acrescentamos o cívico a essa nova área da cidade, integrando a Torre de Macau no tecido urbano e criando um sentido nacional de espaço. Se olharmos para a maneira como a cidade é compacta e limitada em termos de espaços públicos, nossa contribuição se deu em como conseguimos encontrar e fornecer um alto grau de liberdade, com tantas novas áreas livres”.

 

Kengo Kuma e os possíveis novos rumos da arquitetura do século 21

A conferência do arquiteto japonês Kengo Kuma, uma das mais esperadas do congresso, começou com uma exaltação a Oscar Niemeyer e sua forma de integrar espaços externos e internos, e criar “entre-espaços”. O arquiteto compartilhou um pouco sobre seus processos em diversos projetos, inclusive o de sua obra mais recente e de mais destaque: o Estádio Nacional do Japão, que receberá competições das Olimpíadas de Tóquio.

Segundo Kuma, o estádio foi feito com uma porcentagem considerável de madeira, apesar de instalações esportivas geralmente demandarem o uso de muito concreto. O arquiteto japonês explicou que lhe pareceu óbvio projetar a arena de forma que o vento pudesse circular livremente, de modo a diminuir a necessidade de instalação de ar condicionado:

“A arquitetura do século XXI é como uma caixa feita de concreto e acaba muito dependente do ar condicionado. Mas, no trabalho de Niemeyer, ele não pensou em ar condicionado. Pensou em fazer o vento soprar e criar uma sombra; assim, em dias muito quentes, as pessoas podem aproveitar a sombra. Essa forma de pensar também está na arquitetura japonesa. É importante pensar fora da cultura do ar condicionado e acho que, agora, depois do coronavírus, o mundo irá para uma direção diferente. As pessoas estão começando a perceber que não querem trabalhar em uma caixa com ar condicionado, mas, sim, em um espaço agradável, um entre-espaço. Fiz um estádio nacional adequado a essa nova era.

 

Andra Matin: Arquitetura vernacular e herança cultural

A herança cultural heterogênea e diversificada das ilhas Indonésias é a base do trabalho de Andra Matin. O arquiteto busca, em todos os seus projetos, aproveitar materiais locais, reduzir custos e resíduos, além de ter sempre uma abordagem contemporânea para os valores tradicionais da arquitetura local.

Em sua conferência, Matin compartilhou comentários sobre alguns de seus trabalhos na Indonésia: projetos residenciais, inclusive o da própria casa; o Aeroporto Banyuwangi, com seus telhados e terraços verdes que vão contra o padrão de aeroportos internacionais; o Potato Head Beach Club’s, com toda a fachada em janelas venezianas que foram descartadas pela população e reaproveitadas pela equipe; e o Omah Jati, feito inteiramente de madeira no meio de uma floresta de árvores ‘Teak’, mas sem usar a madeira dessa espécie, para sinalizar a importância da preservação das reservas.

 

Da arquitetura vernacular, posso aprender sobre os espaços de convivência, a lógica da construção, a tecnologia e os materiais, a cultura familiar, como conviver com a natureza e como encontrar conforto. Como indonésio, nunca achei que tivesse que escolher apenas um aspecto dessa diversidade arquitetônica para incorporar à minha prática. Sou inspirado pela grandeza de tudo que encontro, e combino esses fragmentos em meus projetos”.

 

Omah Jati, andramartin © Divulgação

 

Potato Head Beach Club, andramatin © Divulgação

 

21 de julho (quarta-feira) | TARDE

No quarto dia da programação principal do UIA2021RIO, os dois últimos palestrantes da lista de keynote speakers falaram ao público internacional do evento: o brasileiro Angelo Bucci, fundador do escritório de arquitetura SPBR Arquitetos, e Solano Benítez, do Paraguai, sócio-fundador do Gabinete de Arquitectura.

 

Angelo Bucci: Arquitetura de autoria

O arquiteto brasileiro Angelo Bucci é um nome de destaque na arquitetura contemporânea paulista, com projetos marcados pela exploração de ideais inovadores. Bucci diz acreditar na ideia de autoria a partir do entendimento de uma arquitetura feita por pessoas, aproximando o trabalho a uma proposta de unidade.

Ele apresentou três de seus projetos, com escalas totalmente diferentes: um círculo perfeito de aço, cuja fina espessura representa a camada da vida humana na Terra; o projeto da Casa de Fim de Semana, na área central de São Paulo; e uma exposição no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, com o objetivo de redesenhar o museu como se fosse uma moldura do Parque Ibirapuera (dentro do qual o MAM se encontra), sendo acessível de dentro e de fora do parque, e interagindo diretamente com a cidade e seus habitantes.

 

Casa de fim de semana, de Angelo Bucci, SP © Nelson Kon

 

Acho que a batalha do projeto, no caso, poderia ser travada sempre dentro de cada arquiteto atuante, entre o que recebemos e o que vamos deixar no plano cultural, a herança e o legado”, afirmou Bucci.

 

Solano Benítez: Construções mais acessíveis

O segundo palestrante da tarde foi Solano Benítez, um dos nomes mais renomados na arquitetura latino-americana contemporânea, premiado internacionalmente com o BSI Swiss Architectural Award e o AIA Honorary Fellowship. O arquiteto é referência em termos de técnica, por utilizar materiais regionais e simples na idealização de construções mais econômicas e ecológicas.

Ao apresentar dois projetos diferentes, com espaço de 30 anos entre os dois – o seu primeiro escritório e uma casa encomendada –, Benítez mostrou que é possível reduzir a quantidade de gastos e de consumo em uma obra. Ele destacou como é primordial a incorporação de diferentes materiais em construções, de modo a reaproveitar o que foi descartado de outras edificações, como vigas metálicas, barro e tijolos antigos.

Benítez defendeu que a redução do consumo em uma obra e a utilização do que seria considerado lixo de modo eficiente gera uma oportunidade de moradias mais acessíveis financeiramente. Sobre a casa apresentada durante a palestra, o arquiteto contou que gastou menos da metade do que as pessoas normalmente pagam em dólares por metro quadrado, o que resulta em um novo e mais esperançoso horizonte para moradias acessíveis. Ele ressaltou que sua fama veio, justamente, por fazer aquilo que não se sabe, ou seja, por produzir conhecimento e inovar. Para o paraguaio, precisamos ter mais cuidado com a nossa existência e das outras pessoas:

 

Em um mundo no qual, apesar dos nossos melhores esforços, 60% da população vive em situação de pobreza, é necessário repensar as condições em que vivemos na Terra e como lidamos uns com os outros. Torna-se imperativo nos aventurarmos no que não sabemos fazer, para que, por meio disso, venham oportunidades de fazer desse mundo um lugar de paz”, pontuou Benítez.

 

Solano Benítez © Divulgação/Cortesia UIA2021RIO

 

22 de julho (quinta-feira) | ENCERRAMENTO

A Carta do Rio, que apresenta proposições para o desenvolvimento urbano de cidades ao redor do mundo nos próximos anos, foi apresentada na manhã da quinta-feira (22), durante o encerramento do 27º Congresso Mundial de Arquitetos (UIA2021RIO). O documento histórico, com um caráter de manifesto referendado por profissionais de arquitetura e urbanismo de todo o mundo, defende um novo modelo de cidade no mundo pós-pandêmico, mais atento às mudanças climáticas, aos bons espaços, à saúde pública, à dignidade da moradia e à redução das desigualdades. O Comitê Executivo do UIA2021RIO anunciou que a Carta do Rio será entregue aos prefeitos de todas as capitais do Brasil, marcando a consolidação das propostas debatidas ao longo do evento, que foi sediado pela primeira vez no país.

Criada a partir das diretrizes expressas pela ONU, pela ONU-Habitat e pela UNESCO nos Objetivos do Milênio e na Nova Agenda Urbana, a Carta do Rio traz proposições que consideram a pandemia de COVID-19 como um momento decisivo para a promoção de políticas públicas inclusivas. A aposta das instituições envolvidas com o UIA2021RIO é que o manifesto tenha a mesma força da “Carta de Atenas”, publicada após o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna de 1933, que influenciou no desenvolvimento das cidades europeias após a pandemia da gripe espanhola e no pós-guerra, e até mesmo na criação do Plano Diretor de Brasília, por Lúcio Costa.

As principais entidades de arquitetura, urbanismo, patrimônio, pesquisa e saúde pública do Brasil colaboraram para a estruturação da Carta do Rio.

 

A Carta do Rio não é só uma declaração de princípios, como costumam ser as cartas resultantes de congressos ao redor do mundo. Ela avança para ser, de fato, propositiva. Essas propostas significam o desejo e a esperança dos que participaram do UIA2021RIO para a construção de um mundo melhor. Para o Brasil, queremos deixar a nossa contribuição com a entrega da carta para os prefeitos de cidades brasileiras, que podem se basear no documento para defender um planejamento urbano que considere sempre a diversidade e o bem-estar dos habitantes como foco principal”, ressalta o Presidente do Comitê Executivo do UIA2021RIO, Sérgio Magalhães.

 

Entre os principais tópicos propositivos da Carta do Rio, estão:

  • Reconhecimento das diversas formas de produção das cidades, incluindo favelas e periferias;
  • Práticas que integrem renda, gênero e sexualidade, raça, culturas tradicionais e imigrantes à cidade;
  • Políticas de desenvolvimento urbano sustentáveis, que abriguem as diferenças;
  • Cidades com governança participativa, criativa e compartilhada;
  • Obras públicas licitadas a partir de projetos completos;
  • Moradias dignas, saudáveis e com localização adequada, através de políticas que possibilitem financiamentos justos;
  • Serviços de infraestrutura, saneamento, transporte e segurança universalizados;
  • Promoção da “cidade inteligente”, que alie instrumentos urbanos à tecnologia e à universalização dos serviços públicos de modo equitativo e inclusivo;
  • Uso inteligente e diverso dos vazios urbanos da cidade consolidada;
  • Mobilidade urbana que considera recursos ambientais e atende às necessidades de populações nos deslocamentos cotidianos;

 

Num âmbito internacional, além de ter sido lida para um público de congressistas espalhados por 180 países, a carta será novamente divulgada na Assembleia Geral da União Internacional de Arquitetos (UIA), com lideranças de vários países. Isso reforça a mobilização para a construção de “um mundo justo, solidário, generoso, de natureza pujante e de cidades acolhedoras”, conforme defende o próprio documento.

 

A carta elaborada coletivamente entre as entidades brasileiras será entregue à UIA em um momento muito especial e crucial, no qual sabemos que cidades do mundo inteiro precisam se reinventar. Acreditamos que a Carta do Rio terá um impacto real para todos aqueles que vivem nas cidades e precisam de políticas públicas cada vez mais inclusivas, que melhorem as condições de vida das populações e considerem todas as relações com o planeta e a natureza. Esse documento celebra o congresso mais representativo de todos os tempos na UIA, que, conforme o tema diz, foi capaz de unir todos os mundos em um só mundo”, diz Igor de Vetyemy, Comissário Geral do UIA2021RIO e Co-Presidente do IAB/RJ.

 

Além dos arquitetos, as seguintes entidades participaram da consolidação da Carta do Rio: o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB); o Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/RJ); o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR); o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ); a Federação Nacional dos Arquitetos (FNA); a Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo (ABEA); a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA); a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP); a Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (FeNEA); o Colégio de Entidades de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CEAU/RJ); a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (ANPARQ); a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR); o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS Brasil); o Docomomo Brasil; a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e a Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (ABDEH).

 

A nova presidência da UIA 2021-2023

Por fim, o arquiteto mexicano José-Luis Cortés foi nomeado Presidente da União Internacional dos Arquitetos para o período de 2021-2023, sucedendo o americano Thomas Volnier, que ocupava o posto. José-Luis Cortés é graduado pelo Instituto de Tecnologia de Monterrey, México, e possui estudos em Planejamento Urbano realizados em Copenhague, Dinamarca, e pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Entre 2017 e 2018,  o arquiteto foi presidente da Federação dos Colégios de Arquitetos da República Mexicana (FCARM), e atualmente é membro do Conselho da UIA para a Região III.

 

José-Luis Cortés é Presidente da UIA 2021-2023 © Divulgação/Via UIA