Revisitar Nova York: A arquitetura de maior qualidade está mais presente na Nova York pós-11 de setembro

The day after

Dos best-sellers de autoajuda à música, o mantra “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” é receita infalível para superar crises ou tropeços. No âmbito arquitetônico, Manhattan adotou essa levada no pós-11 de setembro. Se a ilha não se transformou na meca dos arquitetos, é perceptível para um visitante sensível ao tema a significativa mudança: na última década, a arquitetura de maior qualidade está mais presente do que nunca. De um lado, estrelas forasteiras como Jean Nouvel, Renzo Piano e Rem Koolhaas viram seus primeiros projetos em Manhattan serem edificados. De outro, arquitetos locais – de Richard Meier e Diller/Scofidio a outros menos conhecidos – também foram contratados para encargos significativos. Dos grandes prédios corporativos a lojas e restaurantes nos bairros da moda, a arquitetura com grife e estilo está mais visível em Nova York.

Poucos são aqueles que conhecem Nova York e a desdenham. A cidade fascina gregos e troianos, do consumista mais boçal ao intelectual mais empedernido. Entre os arquitetos que passaram temporadas na Big Apple, Le Corbusier e Rem Koolhaas retornaram para seus lares com a cabeça diferente. O suíço tentou transformá-la em sua essência, criticando seu tipo de densidade. Como anedota, poderíamos lembrar que ele tentou ser perfilado pela revista The New Yorker – um dos símbolos da inteligência nova-iorquina. (1) Ignorado pela publicação, ao menos plantou no skyline um pouco do seu ideário, traduzido na sede da Organização das Nações Unidas. Koolhaas, por sua vez, tentou entendê-la e dedicou-lhe seu brilhante e juvenil estudo sobre a cidade delirante, mas, por enquanto, só conseguiu plantar a loja Prada (2003) no Soho.

Concordo com o arquiteto suíço Luigi Snozzi, que certa vez me disse que Manhattan é a prova de que um lugar pode ser sensacional sem o auxílio de obras arquitetônicas de grande qualidade: basta que ali tudo funcione razoavelmente bem e haja dinamismo cultural, social, étnico e comercial. Snozzi não é um apologista da inutilidade da arquitetura, nem desconhece a existência de exemplares nova-iorquinos interessantíssimos, como os edifícios Chrysler (1928/31) e Seagram (1954/58) e o Museu Guggenheim (1956/59). (2) O que ele quis dizer é que a arquitetura de vanguarda pouco faz parte do cotidiano da ilha e, em tese, não faz falta. Em sua história, grosso modo, Nova York deu preferência ao mercado, produzindo o suprassumo da arquitetura voltada para os negócios. Essa inclinação se refletia na quantidade pífia de obras interessantes construídas em Manhattan até antes do atentado.

 

Pré-11 de setembro

Na década anterior à derrubada das torres do WTC, a obra mais significativa criada na cidade foi a torre LVMH (1996/99), de Christian de Portzamparc. Aclamadíssimo pela crítica, o prédio de fato é interessante, sobretudo pela maneira como o francês lapidou os vidros, mas de escala acanhada em relação ao poder econômico da cidade. A edificação dividiu um raquítico reinado arquitetônico com o Lerner Hall (1994/99), desenhado por Bernard Tschumi e implantado no campus de Colúmbia. Outra novidade foi uma rara townhouse (1994/96) no rico Upper East Side, projeto de Tod Williams e Billie Tsien. No mais, era uma lojinha aqui e outra acolá, como a Comme des Garçons (1998/99), do Future Systems. (3) Muito pouco se levarmos em conta que Nova York abrigava um dos mais produtivos e criativos núcleos de arquitetura no planeta.

Além de boas universidades (como Colúmbia), com célebres professores (Kenneth Frampton, entre outros), Nova York abriga um centro de estudos do nível do Institute for Architectural and Urban Studies (Iaus), criado por Peter Eisenman e que foi porto seguro para Koolhaas em seu período de estudos na cidade. Se isso não bastasse, estão sediados ali dezenas de escritórios notáveis, como os de Steven Holl, Bernard Tschumi, Williams e Tsien – que, curiosamente, em geral eram (e ainda são) contratados para fazer projetos importantes em outras partes do planeta, mas não ali. Quem quiser visitar um grande espaço de Holl, por exemplo, precisa pegar um avião para Helsinque ou Pequim. Na cidade em que mora e trabalha, só há uma minúscula galeria de arte desenhada por ele.

Para Billie Tsien, (4) os projetistas que trabalham na cidade sofrem a angústia de não conseguir edificar nada de porte, restando-lhes criar lofts e lojas a vida inteira: por isso, ela diz, realizam trabalhos muito elaborados, lapidando a pequena escala de maneira peculiar. Trocando em miúdos, a cena arquitetônica préatentado, definitivamente, não refletia a produção intelectual nova-iorquina e não conseguia se impor ao mercado.

 

Pós-11 de setembro

Antevendo a boa fase, no final de 2001, logo que baixou a poeira dos destroços do WTC, foi inaugurado o extraordinário Folk Art Museum, de Williams e Tsien. Situado ao lado do Moma, o pequeno notável possui fachada enigmática e interior de requinte poucas vezes visto na cidade. A escultura do indígena sobre um cavalo que flutua no lobby remete ao museu de Castelvecchio, em Verona, trabalho de Carlo Scarpa. Se o museu do folclore abre a série de prédios interessantes logo após os atentados, algumas mudanças significativas em relação à valorização da arquitetura em Nova York ocorreram pouco antes do fatídico setembro, quando foram contratados os projetos de duas torres que marcaram seu skyline na primeira década do novo milênio, ambas localizadas no Midtown, nas proximidades da Times Square. Não podem ser vistas como consequência nem resposta ao terror, mas, assim como a obra de Williams e Tsien, preparam o terreno para a nova fase e são inauguradas muito depois do atentado. Por coincidência ou não, as duas são encomendas de empresas de mídia.

A discreta sede do jornal The New York Times foi uma das primeiras incursões de Renzo Piano no território dos arranha-céus.

O Hearst Magazine Building foi contratado no início de 2001 pelo gigante que controla desde revistas como a Cosmopolitan e a Esquire até canais como a ESPN. O prédio, finalizado em 2006, foi desenhado pelo inglês Norman Foster, que se aproveitou de uma construção baixa de 1928, criada por Joseph Urban. Com 180 metros de altura, a torre foi a primeira a arranhar o céu da Big Apple depois do atentado. Desde o pós-moderno AT&T (1984), de Philip Johnson, nenhum outro edifício era tão falado em Nova York. O crítico Paul Goldberger escreveu em The New Yorker que era o melhor arranha-céu da cidade desde 1967 e conectou-o com a torre de 600 metros proposta por Louis Khan. (5) Do outro lado do Atlântico, seu colega Deyan Sudjic concordou, e em sua coluna no inglês The Guardian afirmou que o lobby do Hearst chamava tanto a atenção quanto o interior do Guggenheim. (6)

A sede do jornal The New York Times é resultado de um concurso fechado entre estrelas da arquitetura, realizado no final de 2000. A disputa foi uma bola dividida: de um lado, Frank Gehry e Renzo Piano, que produzem mais obras institucionais e estão longe das disputas corporativas de arranha-céus; do outro, Cesar Pelli e o SOM (liderado pela equipe de David Childs), dois nomes prestigiados entre os escritórios voltados para o mercado. Se a diferença entre os dois corners reflete a insegurança do contratante, o resultado mostrou claramente a preferência por propostas mais ousadas. Aclamado vencedor, Gehry desistiu quando leu o contrato, que estabelecia que ele teria que estar em Nova York com uma frequência que o arquiteto não desejava. Com isso, o projeto foi para Piano, que, com a ajuda do escritório local FXFowle, viu seu discreto prédio de 52 andares ser concluído em 2006. Goldberger não gostou de Piano na versão cidade grande. “Para os arranha‑céus, afirmar-se de maneira silenciosa não é suficiente; erguidos acima do nível da rua, não têm a missão de manter o equilíbrio com os demais edifícios: devem simplesmente ser. De perto, a torre tem a mesma qualidade pristina e flexível dos trabalhos de Piano em menor escala, mas vista a alguns quarteirões de distância lembra metal corrugado e apresenta-se com uma suavidade fina e estranha”, ele escreveu na New Yorker. (7)

Refletido na fachada do IAC, de Frank Gehry, o residencial de Jean Nouvel é um dos prédios mais festejados em Nova York.

 

Cultura em alta

A renovação de linguagem experimentada pelas torres, de dez anos para cá, aparece nos encargos de instituições culturais. Na cidade dos célebres edifícios de Wright e de Marcel Breuer, autor do Whitney Museum (1966), pouco vibrante eram as obras novas. A mudança também começou com um projeto de Piano, em 2000. Seu segundo trabalho em Nova York tinha programa do qual o arquiteto era mais íntimo: a ampliação de uma biblioteca existente. Trata-se a Morgan Library (2003/06), para a qual Piano propôs um pátio que estabelece relação entre as antigas edificações e o volume novo. Projeto que, aliás, Goldberger aprovou. (7)

Mas o maior sucesso de público na safra nova de edifícios culturais é a ampliação do Museu de Arte Moderna, o Moma (2001/04). Desenhado pelo japonês Yoshio Taniguchi, o projeto adequou a instituição cultural mais aclamada da cidade ao imenso fluxo de visitantes (atualmente, Jean Nouvel busca aprovar a construção de uma torre para a instituição ao lado do museu). As filas no Moma podem ser intermináveis, mas a joia da coroa arquitetônica é o acanhado New Museum (2003/07), da dupla Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa (integrantes do escritório japonês Sanaa e ganhadores do Pritzker 2010). As caixas empilhadas, que representam as salas expositivas dos diversos andares desse museu vertical, trouxeram vida nova para a região, a leste do Soho.

Na mesma área foi construída a sem graça Blue Residencial Tower (2004/07), de Bernard Tschumi, um dos primeiros condomínios da cidade com grife arquitetônica nesse período. Do lado oposto ao condomínio em relação ao New Museum, outro prédio significativo foi inaugurado no ano passado. Trata-se do Cooper Union, o primeiro trabalho do Morphosis na cidade. A veterana crítica de arquitetura Ada Louise Huxtable escreveu, em sua coluna no Wall Street Journal, que “ele exprime perfeitamente a energia criativa de Nova York”. (8) A vizinhança já começou a mudar: nas proximidades da escola, ergue-se um hotel diferenciado, o Cooper Square (2009), do arquiteto mexicano Carlos Zapata.

 

O bairro da moda

Ainda no ano passado foi aberto o Alice Tully Hall, uma reforma de parte do Lincoln Center realizada por Diller Scofidio + Renfro (com FXFowle). Antes do atentado, quem quisesse conhecer o talento de Ricardo Scofidio e Elizabeth Diller só teria como opção o Brasserie (2000), um restaurante que ainda funciona no térreo do edifício Seagram. Agora, o trabalho deles pode ser visto também na High Line (2009), um dos mais significativos projetos da cidade. Trata-se da ocupação de uma linha férrea suspensa e desativada, transformada em uma espécie de calçadão elevado. A nota negativa é a falta de conexão com os edifícios, mas aos poucos isso certamente será realizado. O Standard Hotel (2008/09), por exemplo, criado pelo escritório Polshek Partnership, foi construído como uma ponte sobre a High Line.

A proposta, bancada por uma parceria entre a iniciativa privada e o poder público, é um exemplo ímpar que ajudou a promover a renovação do Meatpacking District, transformado em bairro da moda. Para reforçar essa mudança, lá está em construção o novo Whitney (2005), de Renzo Piano. O arquiteto foi convidado para fazer o projeto após tentar resolver a ampliação da antiga sede (na qual Koolhaas e Michael Graves já haviam fracassado), que não saiu do papel graças à resistência da rica vizinhança. O Whitney de Piano vai dividir espaço no Meatpacking com galerias, lojas, restaurantes, apartamentos e escritórios. Entre os restaurantes está o Morimoto (2006), o único projeto de Tadao Ando na cidade. Entre os estúdios de moda encontram-se a loja do brasileiro Carlos Miele (2003), desenhada pelo Asymptote; a Juan Valdez Flagship (2006), de Hariri & Hariri; e o ateliê de Diane von Furstenberg (2007), que ocupa a cobertura de um prédio ao lado da High Line e possui um estranho volume criado pelo escritório Work Architecture Company.

 

Apartamentos contemporâneos

Também pipocam no Meatpacking District prédios comerciais e residenciais. Entre os destinados às empresas, destaque para o IAC (2007), o primeiro Frank Gehry na cidade. Situado às margens do rio Hudson, tem atitude pouco amistosa com o pedestre (o volume é maciço e chega abruptamente à calçada), mas quando visto de longe se assemelha a velas de barcos, renovando o skyline daquela região. Aliás, quem iniciou o processo de renovação daquela paisagem foram os edifícios residenciais Perry West (2002), de Richard Meier, em seu primeiro encargo significativo em Nova York. Outro residencial interessante no distrito é o Port House (2003), desenhado pelos profissionais do SHoP Architects. (9)

O pequeno prédio no Soho, dos suíços Herzog & De Meuron, é um dos exemplos dos residenciais com grife arquitetônica.

Entre os mais festejados prédios da região está o 100 11th Avenue (2010), criado por Jean Nouvel. A cobertura de 16 milhões de dólares não encontrou comprador e agora está sendo anunciada para aluguel – por 50 mil dólares mensais (cerca de 90 mil reais). Localizado ao lado do edifício de Gehry e vizinho de outro de Shigeru Ban, em construção, é a segunda obra residencial de Nouvel em Nova York nesse período, depois do Mercer Residences (2007), no coração do Soho. Herzog & De Meuron também assinam um pequeno prédio de apartamentos no Soho, na Bond Street (2007), encomendado pelo empresário Ian Schrager, criador da célebre casa noturna Studio 54 e idealizador do conceito de hotel-butique.

Com os pequenos edifícios residenciais com grife arquitetônica fazendo sucesso, empreendedores encomendaram a Herzog & De Meuron e a Koolhaas duas enormes torres em 2008. A dos suíços fica em Tribeca e a do holandês está no Flatiron District. Elas ainda não saíram do chão, e talvez acabem engolidas pelo estouro da bolha imobiliária. Será o fim da boa fase da arquitetura na cidade? Creio que não. Como disse Nicolai Ouroussoff em artigo no New York Times, “a cidade finalmente emergiu de um período de luto”. (10) Se o processo de construção no Ground Zero ainda é lento, a resposta à perda de um ícone arquitetonicamente duvidoso veio na forma de dezenas de obras interessantes. Por essa nem Mohamed Atta – o terrorista arquiteto – poderia esperar.

 


Notas:
1 – Hoje, um perfil na revista conduz qualquer arquiteto ao estrelato; equivale quase a um Pritzker.
2 – Desenhados por William van Alen, Mies van der Rohe e Frank Lloyd Wright, respectivamente.
3 – Havia também outros prédios novos, menos expressivos, tais como The Austrian Cultural Fundation (1999), de Raimund Abraham, e a pequena galeria de arte (1998) de Smith Thompson, na West 23rd Street.
4 – Entrevista de Billie Tsien a PROJETO DESIGN, edição 261, novembro de 2001.
5 – Edição de 19 de dezembro de 2005.
6 – Edição de 8 de janeiro de 2006.
7 – Edição de 29 de maio de 2006.
8 – Edição de 2 de dezembro de 2009.
9 – Os projetistas do SHoP Architects também participam como empreendedores de outros pequenos edifícios de apartamentos na cidade.
10 – Trata-se do edifício IAC de Frank Gehry. Edição de 22 de março de 2007.

 

Texto de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 363 Maio de 2010