Foto: Eduardo Eckenfels

Mostra na Casa do Baile, de Niemeyer, exibe o rico trabalho de Marcel Gautherot

Intitulada “Marcel Gautherot - Registros modernos da invenção da Pampulha: depois e além”, a exposição permanece no local até 1º de agosto de 2021 e elucida a imensa contribuição do fotógrafo franco-brasileiro a partir de sua abordagem múltipla sobre arquitetura e outras tantas expressões culturais

Importante fotógrafo da expressão brasileira desde a década de 1940, Gautherot (1910-1996) inclui em seu vasto currículo o registro da concepção arquitetônica – isto é, não retrata unicamente a obra pronta, mas explora “construção e vida, eventos e edifícios, processo e resultado”, como dizem Marconi Drummond e Carlos Teixeira, ambos curadores da mostra “Marcel Gautherot – Registros modernos da invenção da Pampulha: depois e além”. Em exibição até 1º de agosto de 2021, na Casa do Baile (obra de Oscar Niemeyer, 1943), em Belo Horizonte, Teixeira ainda conta com a colaboração de Frederico Almeida, dois arquitetos do mineiro Vazio S/A, para a assinatura do projeto expográfico da série.

 

Chegado no país em 1939, o fotógrafo parisiense se estabelece no Rio de Janeiro já em 1940, quando se aproxima de arquitetos, artistas e intelectuais modernistas, dando início a sua carreira de cobertura ampla sobre folclore, povo e arquitetura nacionais. Atribui-se, portanto, tal gosto por manifestações populares, a capacidade de mesclar múltiplas expressões – atributo que o levou a fotografar importantes edifícios do século XX em diferentes etapas de construção e ocupação. “Sua sensibilidade de arquiteto o levou a registrar as principais construções nacionais do século passado, enquanto sua sensibilidade de antropólogo engendrou seu projeto de fotografar o folclore de Norte a Sul”, conforme apontam Drummond e Teixeira no descritivo da mostra.

As contribuições de Gautherot são infindáveis, seja pela diversidade temática, ou regionalidade, ou ainda envolvimento com as mais diversas correntes de incentivo artístico brasileiro – o que lhe rendeu ser chamado, pelo influente poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), como “um dos mais notáveis documentadores da vida nacional”. Digno de nota, o fotógrafo colaborou com o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) de Rodrigo Melo Franco de Andrade, com Edison Carneiro na Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, com o paisagista Roberto Burle Marx, com os arquitetos Oscar Niemeyer, Afonso Eduardo Reidy e Lúcio Costa, e mais.

Na tentativa de elucidar admirável projeto pessoal, “só recentemente seu trabalho tem recebido a atenção que merece, o que foi iniciado com a compra do acervo completo do fotógrafo pelo Instituto Moreira Salles em 1999”, como apontam Drummond e Teixeira, e, neste sentido, a mostra em questão compila quatro ensaios sobre Pampulha, Brasília e Sacolândia, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, e Palafitas da região Norte.

Com este recorte curatorial, pretendemos mostrar o trabalho de um intérprete da arquitetura moderna que também era atento à arquitetura popular, de um autor que soube elogiar os palácios públicos sem se esquecer dos pedreiros e dos ribeirinhos. Artista atento tanto às tradições populares quanto às promessas de uma modernidade impulsionadora, para ele o Brasil nunca foi um só. Pois a modernidade conservadora do país é mesmo feita de duas camadas – o arcaico e o novo – sempre sobrepostas e nunca separadas”, explicam Marconi Drummond e Carlos Teixeira.

Pode-se dizer que o projeto expográfico de Teixeira e Frederico Almeida responde à forma arquitetônica da Casa do Baile. Assim como Oscar Niemeyer configura planta circular ao salão, a dupla posiciona painéis (ora côncavos, ora convexos) na intenção de dispor ambientes em diálogo com curvaturas preexistentes e acrescentar movimento à mostra – o visitante é conduzido, portanto, pelos caminhos que se abrem, ou afunilam, até esgotarem-se as quatro temáticas estruturantes da mostra.

 

 

A correlação entre curvaturas também acontece entre os próprios painéis, com faces convexas lisas voltadas para o arco onde estão os créditos da exposição, ponto de partida da visita, e côncavas com obras particularmente expostas sobre uma estrutura revelada.

Pampulha

Composição do painel expográfico Pampulha | Desenho: Cortesia VAZIO S/A

 

Gautherot esteve em Belo Horizonte para fotografar a Pampulha de Niemeyer e Burle Marx nos anos de 1943, 1947, 1961 e 1966. São imagens clássicas, com enquadramentos estudados, belos contrastes de luz e sombra e ângulos que realçam as curvas da Casa do Baile, da Igreja de São Francisco de Assis, do Cassino, do Iate Golfe Clube, do Pampulha Iate Clube, da Praça Alberto Dalva Simão e da Casa Kubitschek. A presença destes edifícios na paisagem da lagoa também é uma constante, várias das fotos ilustrando a relação simbiótica entre arquitetura, arte e paisagismo que marcou o modernismo brasileiro.

 

Brasília e Sacolândia

Composição do painel expográfico Brasília e Sacolândia | Desenho: Cortesia VAZIO S/A

 

As imagens mais conhecidas do fotógrafo são as de Brasília em obras, especialmente as fotos das ferragens da cúpula do congresso nacional. Publicadas em dezenas de revistas internacionais, essas composições geométricas feitas de triângulos, arcos e diagonais então anunciaram ao mundo as promessas de um país em construção. O contraste entre a afirmação de Brasília e o improviso de Sacolândia – um bairro feito com sacos de cimento para abrigar os candangos recém-chegados – reflete uma contradição da construção da capital pouco divulgada pela imprensa da época.

 

Congonhas

Composição do painel expográfico Congonhas | Desenho: Cortesia VAZIO S/A

 

No Santuário de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas (MG), Gautherot captou o momento de uma romaria com uma rara sensibilidade para articular corpo e espaço. Fotojornalistas atentos ao instantâneo nem sempre sabem fotografar espaço e forma, enquanto fotógrafos de arquitetura nem sempre sabem tirar proveito de um momento fugaz. Mas aqui, o adro do Santuário de Bom Jesus é apresentado como um fundo indissociável do evento, a mistura de tempos – o tempo estático da arquitetura e o tempo fugidio dos romeiros – temperando movimento e enquadramento, arquitetura e romeiros, fundo e figura.

 

Palafitas

Composição do painel expográfico Palafitas | Desenho: Cortesia VAZIO S/A

 

O último ensaio apresenta a arquitetura da Amazônia ribeirinha em fotos feitas durante diversas viagens à região entre os anos de 1940 e 1970. Assim como fez em Brasília e em Congonhas, Gautherot demonstra igual talento como fotógrafo de arquitetura e como retratista, aliando o rigor compositivo a um conhecimento sincero do povo e das tradições brasileiras.

 

 

A exposição “Marcel Gautherot – Registros modernos da invenção da Pampulha: depois e além” tem ainda design gráfico de Marcelo Drummond, produção do Instituto Periférico, apoio do Instituto Moreira Salles, e integra o projeto Pampulha Território Museus da Prefeitura de Belo Horizonte.

 

Marcel Gautherot – Registros modernos da invenção da Pampulha: depois e além
Local
Casa do Baile
Endereço
Avenida Otacílio Negrão, 751, Pampulha – Belo Horizonte (MG)
Período até 1º de agosto de 2021
Visitação quarta a domingo, das 11h às 18h – mediante agendamento
Acesso gratuito
Mais informações (31) 3277-7443