MCB lança três primeiros vídeos de exposição virtual e inédita em plataformas oficiais

A ''Nossa Casa - mostra virtual de arte e design: uma reflexão sobre o habitat na pandemia” já pode começar a ser conferida através de conteúdos disponibilizados pelo Museu da Casa Brasileira. Não perca!

Já estão disponíveis, nas plataformas digitais do Museu da Casa Brasileira, os três primeiros vídeos de ”Nossa Casa – mostra virtual de arte e design: uma reflexão sobre o habitat na pandemia’. Com curadoria de Camila Fix e texto de abertura do curador especializado em design e arquitetura, Jorn Konjin, a exposição virtual apresenta trabalhos dos artistas Regina Silveira, Marcelo Cipis, Ricardo Ribenboim, Guto Lacaz, Alexandre Dacosta e dos designers, Ronald Saasson, Claudia Moreira Sales, coletivo Plataforma4, Estudio Guto Requena, Inês Schertel, Giorgio Bonaguro e Gustavo Martini.

Pautada nos desafios e nas transformações enfatizadas e impostas pela pandemia ocasionada pelo coronavírus, a exposição tematiza o risco da existência no presente e explicita fatores determinantes para mudanças nas formas de organização, vivência e socialização entre os indivíduos – sempre, claro, trazendo tais observações a partir da reflexão sobre o morar, o habitar no cenário atual.

Nossa atenção estava voltada para o espaço em que vivemos: a nossa casa. A casa se tornou ainda mais importante do que antes, com a reclusão nos limitados metros quadrados que temo. Através desse novo olhar para nossas casas, mudamos a forma de ver os espaços íntimos e os produtos de uso diário? O que poderia ser criado para representar esses novos tempos? O resultado deste projeto coletivo é uma virtual. Todas as obras foram criadas em suporte audiovisual”, afirma o descritivo do evento., afirma o descritivo do evento, por Camila Fix e Jorn Konjin.

Confira a seguir os três primeiros vídeos que integram a mostra e não deixe de acompanhar as próximas atualizações da mostra através dos canais virtuais do MCB: Instagram | Facebook | Twitter | Youtube

DESABILITAR O HÁBITO – Alexandre Dacosta

O projeto ‘Nossa Casa’ nasce do afeto afeito à criação. Na realização do vídeo-ensaio ‘Habitat’ procurei expor uma reflexão sobre o objeto geométrico-geopolítico chamado casa e suas implicações psicossomáticas.

Neste ano de pandemia, a casa, como tema, permite um olhar arguto, refratável que se expande em diversas direções no amplo conceito de moradia. A habitação protege, dá conforto, cria intimidade, infla desejos, acolhe devaneios, aconchega delírios e apoia loucuras.
Trabalho com a visualidade da palavra, sua musicalidade, textura, tessitura, e este vídeo-poema sobre o habitar, o habilitar e o hábito segue esta linhagem investigativa. Dispor da linguagem libertária de mesclar documentário com ficção é sempre instigante e permeia meus filmes, tanto curtas, como o primeiro longa-metragem ‘A Sobrancelha é o Bigode do Olho’. Reler o livro ‘A Poética do Espaço’ do filósofo e poeta francês Gaston Bachelard, foi um ponto de intersecção do que eu estava elaborando para escrever o texto e o roteiro de imagens e sons para o micro-filme.

Para mim, como artista visual, que desenha, cria esculturas, as ferramentas e materiais que são utilizados na construção e manutenção de uma casa são objetos poéticos imprescindíveis ao conforto que exigimos para nosso tenro corpo dentro da habitação. Assim como também nos afeiçoamos aos utensílios domésticos como se fossem seres de estimação.

E nós, mamíferos emocionais, humanoides urbanos, necessitamos da matéria como parâmetro, como abrigo, anteparo. Porque habitamos um mundo em que a natureza nos é hostil, em que a diferença nos amedronta, e em que o progresso é sinônimo de escravidão. É preciso abrir as comportas do corpo e as janelas da alma para nos solidarizarmos com os habitantes desse planeta, seja vegetal, animal ou mineral. Essa nossa casa esférica, feérica, com este jardim imenso e plural precisa com urgência de manu-atenção, assim como nossa casa interna precisa de nossa essência, da imanência de um pensamento que transcenda o lugar comum.

E como diz a letra do samba de minha autoria “Hábito”:
se for procurar pode encontrar uma mania, obsessão
é o dia a dia, sufoca a ousadia em proveito da repetição
o hábito habilita, habitar sempre o mesmo lugar
a casa é sua alma, seu ninho, seu lar
o hábito habilita, habitar sempre o mesmo lugar
sair da zona de conforto para se transformar.

Alexandre Dacosta

CASA CORPO – Marcelo Cipis

Uma imagem vale mais que mil palavras (Confúcio). Quem vê cara, não vê coração (dito popular). Só acredito vendo (São Tomé). As aparências enganam (outro dito popular). Não há contradição maior que falar ou, pior, escrever sobre as imagens. A pandemia, no entanto, leva populações em todo o mundo a um isolamento em que a imagem domina e organiza nosso cotidiano, nosso trabalho, nossas amizades. Telas de todos os tamanhos convidam a uma nova relação entre o real, o simbólico e o imaginário que magicamente funcione como antídoto ao isolamento.

Nesses corpos que se reinventam, a solidão total não existe, nossas memórias serão a partir de agora feitas de imagens, nossa vida depende mais do que nunca da capacidade de enfrentar as imagens com novas interpretações, novas funções, novas indeterminações. Entre a imagem e o texto abrem-se novos espaços, texturas, tons e retoques. Toda poesia é imagem, cada imagem é uma casa, um refúgio, uma esperança que a própria solidão cultiva.

Nas imagens de Marcelo Cipis combinadas ao texto de Gilson Schwartz, a experiência de estar só em casa, de estarem sós as próprias casas torna-se um exercício para ganhar musculatura existencial como condição de sobrevivência da imaginação em meio à dor, ao distanciamento e à esperança no surgimento de um novo real.

Poema e sonorização: Gilson Schwartz

MESA JARDIM – Regina Silveira

O meu novo trabalho, Mesa de Jardim, faz parte das Dobras, uma série iniciada nos anos 90 que dava continuidade ao meu interesse por desestabilizar imagens de objetos domésticos em diferentes meios.

Nesse universo do design, o repertório escolhido foram as fotos de mobiliário de uso comum apropriadas de revistas de decoração e catálogos. As Dobras são anamorfoses construídas tridimensionalmente em madeira ou resina pintadas a partir dessas imagens de mobiliário com a particularidade de serem dobradas ao meio em ângulo fechado. Nessa anamorfose com dobradiças os objetos totalmente sem espessura equivalem à soma desses objetos, um tipo de ante-design. São objetos em de uso tornados inservíveis.

Mostrei um conjunto de dobras no Paço Imperial no Rio de Janeiro em 2001 e desde então eu conservei por anos os desenhos preparatórios e maquetes de estudo para o Banco de Jardim, finalmente, realizado em 2020 com obra especifica, embora temporária, em um jardim existente no casarão histórico de Nhonhô Magalhaes em Higienópolis, São Paulo, onde agora se citua o atual Paço das Artes.

Depois do Banco, a Mesa de Jardim é a minha obra mais recente, as simulações e ensaios em 3D são parte desse projeto. Para Mesa de Jardim, como para todas as dobras, as minhas estratégias gráficas são as mesmas, escrever as imagens fotográficas em quadrículas regulares e a seguir dividir suas silhuetas em metades, logo esticadas pelas laterais de um ângulo imaginário com lados bem fechados, a silhueta obtida já esticada e dobrada guarda capacidade de ter seu volume virtualmente resgatado quando o observador se coloca próximo ao ponto de vista que antes havia determinado a sua própria construção.

Regina Silveira