Linha exclusiva de azulejos exalta cidades brasileiras

Ao todo, são três metrópoles representadas - São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, cada qual por duas de suas construções emblemáticas - na feliz tentativa de unir a arte da azulejaria à pura arquitetura. Em entrevista exclusiva com a Revista PROJETO, Cristiane Zanella, autora das peças e, desde sempre, “apaixonada pelo setor de padronagens”, conta que a ideia foi concebida em 2016, mas que, somente após três anos, passou efetivamente a chegar ao consumidor final pela parceria com o curitibano Rômulo Lass Studio, especializado na concepção de murais artísticos e revestimentos especiais. A linha já foi finalista no 33º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira e disputa no Brasil Design Award, até o próximo 25 de outubro, na categoria de Design de Produto - Construção pelo voto popular

A recém-criada coleção de azulejos Metrópoles Brasileiras estampa três grandes cidades nacionais por meio do retrato simplificado de duas construções icônicas de cada local. Na realidade, as obras são aludidas por elementos estruturais marcantes que caracterizam a unidade dos edifícios – no que se refere àquelas implantadas em São Paulo, imediatamente o pórtico do MASP e os tirantes da Ponte Octávio Frias de Oliveira (a Estaiada); em solo carioca, os Arcos da Lapa e os pilares do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM); e à Brasília, a silhueta da Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida e os pilares do Palácio do Planalto.

 

 

“O objetivo foi aproximar o campo da azulejaria ao da arquitetura, ilustrando nas peças parte das construções que são símbolos de cada uma dessas cidades e, claro, do Brasil”, pontuou Cristiane Zanella, jovem arquiteta e urbanista joseense, autora da coleção. Zanella revela ser “apaixonada pelo setor de padronagens” desde sua aproximação com o mundo arquitetônico – efetivada após graduar-se, em 2014, no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Taubaté, no interior de São Paulo. Como complementação aos estudos, a arquiteta ingressou na pós-graduação pelo Senac de São José dos Campos, momento em que desenvolveu, como trabalho de finalização, a tal linha de azulejos.

Por exigências do Ministério da Educação, a coleção só teria validade para esse trabalho conclusivo se estivesse aplicada em um projeto de interiores também feito por mim – ou seja, a linha viria como complemento à proposta da ambientação principal”.

Dessa maneira, uma extensa pesquisa passou a ser elaborada para fundamentar a ideia de fusão entre azulejos e arquitetura – sobretudo a brasileira, histórica e frequentemente marcada pela aplicação de tais peças em inúmeras construções, sejam elas de maior ou menor porte, ou ainda de variados níveis de relevância patrimonial. Após elencar as três grandes cidades, foram escolhidas duas obras marcantes de cada local que, inclusive, retomam os importantes nomes da arquitetura nacional – Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi e Affonso Eduardo Reidy.

A partir de tais definições prévias, o estudo enveredou para a escolha de quais conceitos e aspectos dos edifícios seriam enfim destacados pelas peças, juntamente às cores e formas que também refletissem, quando desejável, os referidos ambientes urbanos onde se encontram implantados.

Após finalizadas – peças e pós-graduação (2016) -, Zanella enxergou potencial para produção em larga escala da linha Metrópoles, que estivesse finalmente disponível ao consumidor final. Em 2018, portanto, a arquiteta concluiu o aprofundamento da arte de azulejaria junto ao artista plástico brasileiro autodidata Alexandre Mancini, em curso específico oferecido pelo ateliê. Além de aperfeiçoamento, o curso rendeu a aproximação da arquiteta ao artista visual Rômulo Lass, curitibano já reconhecido pela especialidade em concepção de murais artísticos e revestimentos especiais. O resultado, em meados de 2019, foi a efetivação da parceria entre a dupla com o início da linha de produção sob demanda e artesanal da coleção. Digno de nota, neste mesmo período, as peças da Metrópoles já figuravam como finalistas na 33ª edição do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira e, atualmente, sua relevância a coloca, até o próximo domingo (25/10), em votação popular na categoria Design de Produto – Construção no Brasil Design Award [para votar, acesse o link].

No que diz respeito à produção, algumas especificações gráficas foram previamente refinadas para simplificarem o processo. Após a compra do azulejo branco (fornecido pela Incepa Revestimentos), a estampa é aplicada sobre a peça pelo processo de serigrafia indireta, subdividido em três etapas: transformação dos desenhos em decalques; umidificação; e aplicação sobre o azulejo. Depois, o lote segue para queima em forno à temperatura de até 830 °C, durante 15 horas.

Esse processo garante que cada elemento, após finalizado, conquiste características diferentes entre si, pois a confecção depende, por exemplo, do posicionamento um a um, das condições climáticas do dia em que ocorre a queima (que interferem na cor final), e por aí vai. Essas nuances são riquíssimas, porque revelam o quanto esse trabalho é minucioso e unitário”, complementa Zanella.

 

 

Além de identidade e significado adquiridos pelas peças durante a fabricação, a arquiteta destaca as inúmeras possibilidades interpretativas que concebem os diferentes murais. “Por mais que sejam inspiradas em construções icônicas, muitas vezes a composição final é capaz de ‘anular’ as tais referências e dar margem para enxergarmos diferentes desenhos que fujam desses edifícios”.

A sucesso da Coleção Metrópoles somente indica a contínua parceria entre Zanella e Rômulo Lass, com promessas de expandirem para próximas linhas que “continuem contando a história da arquitetura brasileira”. O interesse da arquiteta perpassa, de maneira geral, pelo campo do mercado de “superfície”, irrestrito à azulejaria, mas também compreendendo peças de ladrilho hidráulico, tapetaria, e mais. (Por Daniela Bueno Elston)