House NA (Casa NA), de Sou Fujimoto (Foto: Iwan Baan)

JH São Paulo e Instituto Tomie Ohtake finalizam a série “Correspondências arquitetônicas”

Inspiradas pela nostálgica prática da troca de cartas, ambas as instituições dialogaram sobre arquitetura japonesa e brasileira. Confira na íntegra!

A Japan House São Paulo e o Instituto Tomie Ohtake se uniram em uma parceria inédita. Tendo como ponto de partida o Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel, as instituições realizam a série ‘Correspondências arquitetônicas: Brasil e Japão’ em suas respectivas mídias sociais como Instagram, Facebook e Site. Iniciada em 29 de junho, a ação propôs trocas semanais de “cartas online” sobre arquitetura, onde são realizados paralelos correspondentes no Brasil e Japão. Os diálogos abordam o tema MORAR e algumas das implicações envolvidas neste vasto tema.

A primeira das quatro trocas de cartas falou sobre construções em lotes reduzidos. Dentro deste cenário, o Instituo Tomie Ohtake apresentou como case brasileiro a Casa Vila Matilde [veja em Revista PROJETO / janeiro 2016], projeto que conquistou o primeiro lugar na 3ª edição do Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel, em 2016. Concebida pelo escritório Terra e Tuma, é um exemplo de sucesso de construção e aproveitamento em lotes exíguos (neste caso, 4,8 x 25 metros de profundidade).

Como paralelo no Japão, a Japan House São Paulo comentou sobre um fenômeno conhecido como jutaku (住宅), ou as micro casas japonesas, e apresentou o projeto Double Helix House (Casa de Hélice Dupla), de 2010, dos arquitetos Maki Onishi e Yuki Hyakuda. Em um terreno com 77 metros quadrados, no centro de uma quadra, a dupla criou uma residência pequena, mas que possibilita a seus habitantes usufruí-la de maneira completa.

Partindo da Japan House São Paulo, a segunda correspondência contou sobre a experiência japonesa de pensar o projeto a partir das memórias do local, usando como parâmetro o método do arquiteto nipônico Tsuyoshi Tane, crente na construção arquitetônica não limitada a um espaço físico, mas exercente de uma importante função do portador de memórias. Para ilustrar, a instituição apresentou o projeto A House for Oiso (Uma casa para Oiso), executado em 2015, por Tane e arquitetos Dan Dorell e Lina Ghotmeh, que buscou-se adaptar a diversas tipologias arquitetônicas experimentadas pelos habitantes da região ao longo dos séculos em uma residência contemporânea.

Em resposta, o Instituto Tomie Ohtake falou sobre o Moradias Infantis [veja em Revista PROJETO / edição 437], vencedor do Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel, em 2017. Para esta empreitada, os escritórios Aleph Zero e Rosenbaum se uniram para reinventar um internato de uma escola rural localizado numa fazenda no município de Formoso do Araguaia, no Tocantins. O projeto lida com questões profundas da memória nacional como os saberes indígenas e a tradição do trabalho manual da lavoura. Contou com um caráter colaborativo, já que jovens e outras pessoas da comunidade foram envolvidas para pensar conjuntamente uma nova ideia de internato e aprendizado.

A série ainda contou com mais duas trocas, abordando experimentações na arquitetura doméstica contemporânea e moradias compartilhadas.

A seguir, confira na íntegra as trocas da série ‘Correspondências arquitetônicas: Brasil e Japão’:

#01

Querida Japan House São Paulo,

lhe escrevemos com a curiosidade de saber como a arquitetura contemporânea japonesa vem lidando com a questão do morar. Sim, sabemos que este é um tema vasto, mas como teremos ainda algumas oportunidades para desenrolar essa conversa, gostaríamos de começar esse diálogo sem muita pressa, apresentando uma das soluções de moradia mais interessantes da arquitetura contemporânea brasileira. Mesmo metrópoles como São Paulo lidam com a ideia de adensamento de maneira muito distinta das cidades japonesas. E quando pensamos em lotes exíguos no Brasil, é comum vir à mente bairros moldados pela lógica da informalidade. Vamos usar este mote para apresentar o projeto que logrou primeiro lugar na 3ª edição do Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel, em 2016.

A Casa Vila Matilde, situada no bairro de mesmo nome em São Paulo e concebida pelo escritório Terra e Tuma, surgiu com um propósito claro: deveria se adequar às restrições orçamentárias e contar com uma construção ágil, a fim de que os recursos da proprietária não se esvaíssem com a necessidade de pagar um aluguel durante o projeto. A casa anterior estava comprometida em termos de estrutura e salubridade e cederia seu lugar para a nova casa.

Danilo Terra, Pedro Tuma e Fernanda Sakano, arquitetos do escritório paulistano Terra e Tuma, já vinham desenvolvendo uma investigação com estrutura e bloco aparentes, o que resulta em baixo custo e agilidade na execução da obra. A escolha por colocar tudo à mostra não é mera demanda técnica, mas também um partido estético. Como foi destacado pelo júri da edição de 2016 do Prêmio de Arquitetura, o emprego de alvenaria autoportante, de lajes pré-fabricadas em concreto armado, além das instalações elétricas aparentes emprestam à casa um aspecto associado comumente a escolas e fábricas, mas não tanto a um repertório doméstico. Ao mesmo tempo, essa crueza em revelar as entranhas da construção estabelece um forte diálogo com o léxico do brutalismo paulista, bastante consolidado na segunda metade do século XX, com o seu monocromatismo advindo do uso extensivo de concreto aparente.

O projeto, concluído em 2015, também se mostrou funcional no que diz respeito ao aproveitamento dos espaços. A planta baixa foi organizada de modo a atender aos desafios do lote exíguo (4,8m de largura por 25m de profundidade). No dia-a-dia, a casa funciona fundamentalmente como uma casa térrea. Afinal, a futura moradora Dona Dalva já contava à época com pouco mais de setenta anos. Há no centro do terreno um pátio que é ladeado por um corredor articulado com lavabo, cozinha e área de serviço. À frente do lote está a sala, que teve sua laje transformada em horta. Ao fundo do terreno se situam as escadas e suítes, sendo a suíte do pavimento superior destinada a visitantes e a suíte térrea, da moradora. O pátio possui, portanto, a função de garantir luz e ventilação para todos os cômodos. O projeto, que conta com 95m2, contempla ainda a possibilidade de ampliação.

Como estávamos dizendo, os lotes exíguos no Brasil não se resumem a bairros frutos da informalidade, mas a Casa Vila Matilde é especialmente interessante porque as soluções arquitetônicas brasileiras, que normalmente ganham destaque em revistas e premiações, são destinadas para a classe média alta e para os ricos. É muito comum o pensamento de que são somente algumas pessoas que podem custear o trabalho de arquitetos, resultando num grande percentual de edifícios realizados por autoconstrução. Este projeto demonstra que é possível realizar obras de excelência respeitando limites orçamentários mais restritos. Neste caso, foram as economias feitas por Dona Dalva ao longo de seus trinta anos como diarista que custearam a proposta. Aliás, a casa teve tamanha repercussão que a simpática Dona Dalva se tornou figura recorrente em entrevistas e matérias contando como conseguiu viabilizar o projeto.

Esperamos que as notícias tenham sido provocativas o suficiente para que você nos traga notícias de como a arquitetura japonesa recente vem lidando com a questão dos lotes mínimos. Aguardamos ansiosos!

Um abraço,

Instituto Tomie Ohtake

 

 

#02

Querido Instituto Tomie Ohtake,

Obrigada pela carta. Realmente, a proposta do Terra e Tuma é muito interessante e bastante pertinente. O desafio do lote mínimo é enfrentado há muito tempo no Japão, e sentimos que os arquitetos japoneses desenvolveram uma expertise bem peculiar para se adaptar à essa realidade. De tantos exemplos possíveis, resolvemos mandar para vocês a Double Helix House. Não sei se vocês conhecem…

Como em tantos outros países, o mercado imobiliário no Japão é bastante complexo. Em grandes cidades como Tóquio, por exemplo, a divisão de lotes em porções tão reduzidas quanto aquelas permitidas por lei gera terrenos residenciais de formatos dos mais variados. Aliado a um código de obras peculiar, essa condição fez surgir um fenômeno conhecido como jutaku (住宅), ou as micro casas japonesas.

Não é incomum para um arquiteto receber a encomenda de projetar em terrenos diminutos, no fundo de quadra, que possuem como acesso um corredor com medidas mínimas estabelecidas pela legislação. A engenhosidade e a criatividade do arquiteto são necessárias para a criação de casas reduzidas, mas que sejam ao mesmo tempo funcionais e tirem o maior proveito dessas condições.

Foi nesse contexto que os jovens arquitetos Maki Onishi e Yuki Hyakuda, que estiveram na Japan House São Paulo em março de 2020, desenvolveram o projeto da “Double Helix House” (Casa de Hélice Dupla). O projeto de 2010, localiza-se em Yanaka, um distrito em Tóquio com ruas estreitas e edifícios históricos feitos em madeira. O terreno, com 77 m², fica no centro da quadra, rodeado por outras construções e com acesso por dois corredores.

O próprio lote inspirou a composição do projeto, formado por dois principais elementos: um núcleo branco e uma espiral em madeira que o envolve. Nessa parte central estão distribuídos o espaço para refeições, os quartos, a sala e o banheiro. Na espiral, existem espaços para a família, uma pequena biblioteca e um escritório. Os ambientes do programa são todos conectados e sobrepostos. A cobertura da estrutura revestida em madeira também permite a criação de pequenos terraços, que funcionam como a segunda hélice do projeto, e que garantem uma melhor conexão entre espaços internos e externos.

A partir da proposta de projetar uma casa que não pode ser explicada pelo senso comum de comprimento e largura, os arquitetos foram capazes de criar uma residência que, mesmo com espaços reduzidos, possui ambientes dos mais diversos: claro, escuro, estreito, amplo. Uma residência pequena, mas que permite ao usuário uma variedade de sensações espaciais, permitindo a seus habitantes usufruí-la de maneira muito completa.

Um abraço,

Japan House São Paulo

 

 

#03

Querido Instituto Tomie Ohtake,

Na semana passada, começamos uma conversa sobre o adensamento urbano e tratamos de dois exemplos no Brasil e no Japão. Hoje, gostaríamos de contar um pouco sobre uma experiência japonesa de pensar o projeto a partir das memórias do local. Vocês conhecem o trabalho do arquiteto Tsuyoshi Tane? Ele foi tema de uma exposição muito especial que aconteceu na Japan House São Paulo.

Partindo da percepção de que um lugar não é apenas algo físico, mas um portador de memórias, Tane desenvolveu um método para seu processo criativo muito original, que ele mesmo apelidou de “escavação”. Essa metodologia de projeto foi apresentada na exposição “Arqueologia do Futuro – Memória e Visão”, apresentada na Japan House em 2019.

Buscando criar um diálogo entre passado e futuro, o arquiteto inicia seus projetos com uma intensa pesquisa sobre o local onde irá construir. O processo de escavação envolve pesquisas extensas, busca de imagens históricas, textos e até mesmo artefatos relacionados ao lugar, transformando essas memórias em bases e conceitos para a nova arquitetura. A exposição na Japan House apresentava todo esse universo de objetos, imagens, modelos e desenhos que relacionavam o passado e o futuro dos projetos expostos, com um certo ar de gabinete de curiosidades, de catalogação arqueológica.

No projeto A House for Oiso (Uma casa para Oiso), executado em 2015 com os arquitetos Dan Dorell e Lina Ghotmeh, buscou-se adaptar diversas tipologias arquitetônicas experimentadas pelos habitantes da região ao longo dos séculos em uma residência contemporânea.

A cidade de Oiso, na província de Kanagawa, é de clima quente e litorâneo. Habitada desde o período Yayoi, a cidade ainda preserva muitos traços do passado. A proposta rastreia esse patrimônio, buscando capturar a essência da arquitetura vernacular japonesa produzida ao longo dos séculos. Suas referências foram: a moradia em cova do período Jomon, moradia de piso elevado do período Yayoi, cabana de pilares cravados no solo do período Medieval, machiya (casa de cidade) do período Edo e as vilas do período Showa.

A casa foi inserida 60 centímetros abaixo do nível original do terreno. O solo escavado foi reutilizado para os acabamentos do térreo, uma solução antiga, mas muito interessante por suas propriedades térmicas e de controle de umidade. Já o segundo andar, que remete à uma cabana elevada do nível do solo, é todo em madeira. Seu interior foi pensado de modo a otimizar a circulação do ar e evitar o acúmulo de umidade.

O nome “Uma casa para Oiso” não foi escolhido por acaso. A residência é mais do que um projeto implantado naquela cidade, ela não poderia existir em mais nenhum outro lugar, pois as memórias resgatadas são específicas daquela cidade. Até mesmo os acabamentos foram realizados com o solo local. O edifício pertence não somente ao seu entorno, mas também ao seu passado e, agora, ao seu futuro.

Esse respeito e consideração pelo passado são notórios na cultura japonesa. Esperamos que vocês tenham gostado de conhecer mais sobre esse projeto e o método criativo desse arquiteto. Adoraríamos saber um pouco sobre como as memórias e os saberes locais são incorporados aos projetos no Brasil.

Um grande abraço,

Japan House São Paulo

 

#04

Querida Japan House São Paulo,

Obrigado por ter nos apresentado o projeto A House for Oiso, do arquiteto Tsuyoshi Tane, com o DGT Architects. O seu diálogo com a memória e suas técnicas construtivas, sabendo lidar com um sítio com tantas camadas históricas, nos remeteu a um projeto brasileiro que teve imensa repercussão, tendo sido premiado pelo Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel em 2017 e logrado prêmios também fora do Brasil.

O projeto Moradias Infantis, inaugurado em 2017, lida com questões profundas da memória nacional como os saberes indígenas e a tradição do trabalho manual da lavoura. Os escritórios Aleph Zero e Rosenbaum se uniram nessa empreitada de reinventar o internato de uma escola rural localizado numa fazenda no município de Formoso do Araguaia, no Tocantins.

Para viabilizar um projeto que tivesse claramente um caráter colaborativo, jovens e outras pessoas envolvidas foram chamados para pensar conjuntamente uma nova ideia de internato e aprendizado. A finalidade era ser efetivamente um lar para 540 crianças e adolescentes, com espaços convidativos e aprazíveis. Estes filhos de caboclos e indígenas com idade entre 13 e 18 anos ali vivem em regime de internato a fim de viabilizar a rotina escolar, uma vez que suas famílias vivem em regiões isoladas da zona rural do centro-oeste brasileiro. Assim, se antes havia um dormitório para meninos e outro para meninas, a separação por gênero resultou em duas vilas, porém agora com quartos para seis pessoas. Todo o projeto é acolhido por um telhado generoso que garante sombra. Anexos aos dormitórios, espaços de convívio como sala de TV, sala de leitura, varandas, pátios e redários visam aproximar o edifício de uma lógica de casa.

Do ponto de vista construtivo, houve o emprego de peças pré-fabricadas de madeira reflorestada. Assim como as casas da região, os blocos de alvenaria são de barro cru e utilizaram o solo da própria fazenda. Outra técnica recorrente é o efeito muxarabi, alcançado com o afastamento entre os blocos, recurso usado de modo a garantir qualidade térmica para as áreas de serviço do projeto. Nos pátios buscou-se reproduzir o microclima advindo do encontro de 3 biomas locais: Cerrado, Amazônia e Pantanal.

Como apontou o júri da 4ª edição do Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel, o que vemos é um diálogo minucioso e atento entre a técnica contemporânea e o rico conhecimento vernacular local. Ao aliar a solução industrializada, da estrutura de madeira laminada colada, ao emprego vernacular do adobe, estes dois materiais conferem unidade aos pavilhões que abrigam os dormitórios, áreas coletivas e passarelas.

Um abraço,

Instituto Tomie Ohtake

 

 

#05

Querida Japan House São Paulo,

Começo essa carta contando que resolvi, dessa vez, alterar um pouco os rumos da nossa conversa. Sei que estamos ultimamente discutindo iniciativas recentes e o modo como arquitetos vêm pensando novas ideias de morar, mas não pude me esquivar de relembrar um projeto de quatro décadas atrás. Voltamos rapidamente para 1979 porque, quando se trata de refletir sobre modos de morar, a Casa Bola de Eduardo Longo continua, ainda hoje, sendo um projeto visionário.

Embora Longo tenha estudado em São Paulo na Universidade Mackenzie, desde o seu primeiro projeto realizado em 1964, ainda estudante, o arquiteto mostrou um modo de lidar com a arquitetura muito mais conectado a movimentos de vanguarda de outras regiões do mundo do que à escola brutalista que estava sendo consolidada naquele momento em São Paulo.

Em 1972, contaminado pela onda contracultural e pelo movimento hippie, Longo, que já era um arquiteto promissor, passa por um processo vigoroso de revisão de sua atuação e seu modo de vida, elimina hábitos supérfluos e faz modificações substanciais em sua casa-escritório de 1970, derruba paredes e transforma o térreo da construção em passagem pública. É sobre a estrutura da casa-escritório que o arquiteto concebe um protótipo de sua ideia de casa bola na escala de 8:10. Assim, a casa que deveria ter dez metros de diâmetro é feita com oito, respeitando as exigências legais de recuo do terreno. Mesmo com tamanho reduzido, a casa chama a atenção de qualquer passante, dado seu formato inusitado e a inevitável indagação de como devem ser seus espaços internos.

Longo constrói praticamente sozinho a sua casa, que seria o protótipo manual de uma casa a ser produzida em escala industrial, tal como um automóvel. Essas ideias conectam Longo às vanguardas como os ingleses Archigram e os metabolistas japoneses, ambos dos anos 1960. As casas bola seriam instaladas em edifícios que mais se parecem com prateleiras gigantes, com o benefício de assegurarem uma área pública ao redor de si devido à sua volumetria, haja vista que uma esfera ao lado de outras não ocupa o espaço completamente.

A casca externa, de argamassa armada, foi concebida com a ajuda de Charles Holmquist, um amigo com experiência na construção naval. Internamente as paredes são de concreto celular, um tipo mais aerado e leve de concreto. A casa, onde Longo ainda hoje reside, conta com três suítes, sala de estar, lavabo, cozinha, dormitório de empregada e lavanderia. Bom, por mais radical que seja a forma e os materiais, trata-se de um programa de classe média alta típico de até poucos anos atrás.

Querida Japan House São Paulo, esperamos que você tenha achado que valeu a pena voltar um pouco no tempo. Esperamos por notícias.

Instituto Tomie Ohtake

 

 

#06

Querido Instituto Tomie Ohtake,

Adoramos conhecer mais sobre a experiência da Casa Bola e pensar que algumas das práticas da arquitetura no Brasil podem ter tido influências de correntes do Japão. De fato, a arquitetura japonesa possui muitos exemplos de moradias unifamiliares que desafiam os limites do morar convencional, assim como fez Eduardo Longo, em 1979.

Os arquitetos japoneses são reconhecidos mundialmente por suas experimentações na arquitetura residencial. Porém, uma casa não convencional requer também um cliente não convencional. E o mais interessante é que, no Japão, essas experimentações não são necessariamente de cunho luxuoso, mas muitas vezes são financiadas por clientes de classe média que buscam uma casa pequena e que estão abertos a ousadias.

Um exemplo marcante é a House NA (Casa NA), de 2010, desenhada pelo arquiteto Sou Fujimoto, que foi tema de uma exposição na Japan House São Paulo, em 2017. Projetada para um casal em um bairro tranquilo de Tóquio, a casa impressiona por ser quase completamente de vidro, permitindo que todo o movimento do seu interior seja observado por quem passa na rua.

O espaço é dividido em 21 placas de piso individuais, fixadas em níveis diversos. Cada uma dessas placas está ligada por escadas ou patamares, fixos ou móveis. A proposta espacial partiu da ideia de uma árvore, onde cada galho é um ponto isolado, mas ao mesmo tempo, todos estão conectados. O mesmo acontece na casa: enquanto é possível realizar atividades de maneira íntima em cada piso, também permite-se reunir um grupo de pessoas que, mesmo estando em diferentes níveis, podem ter vivências coletivas. Os espaços, assim, assumem funções variadas.

A estrutura em aço branco reflete a elegância e delicadeza da arquitetura de Fujimoto. As instalações sanitárias e de aquecimento estão na parede aos fundos do terreno, não obstruindo a visão da rua. A ausência de divisórias, no interior e exterior, é compensada com cortinas, que limitam os espaços de acordo com a atividade que está em curso. Elas remetem os painéis shoji, estruturas de correr feitas com material translúcido, utilizadas para delimitar o espaços na arquitetura tradicional japonesa.

A diversidade de invenções na arquitetura residencial no Japão é imensa. Diversos aspectos culturais, sociais e mesmo naturais estimulam essa inventividade, além de um mercado imobiliário muito complexo, que acaba dando espaço a criações que não seriam possíveis em outros países. A rapidez com que os projetos são atualizados ou que surgem novidades é notável, o que faz com que a arquitetura japonesa exerça um retrato do morar contemporâneo quase em tempo real.

É muito interessante pensar como esses experimentos na cidade conversam entre si e com seu entorno, sugerindo modos de vida alternativos e novos entendimentos do conceito da casa e do morar, permitindo também que o campo da arquitetura se desenvolva como um todo.

Até semana que vem!

Um grande abraço,

Japan House São Paulo

 

 

#07

Querido Instituto Tomie Ohtake,

Na carta de hoje, gostaríamos de contar sobre uma tipologia de moradia que está se popularizando no Japão. São as casas compartilhadas, que estão presentes principalmente nas grandes cidades, como Tóquio e Osaka. Apesar de existir desde os anos 1990, quando eram voltadas especialmente para estrangeiros, esse tipo de moradia se tornou popular entre os japoneses a partir do final dos anos 2000, apresentando-se como um estilo de vida alternativo para jovens sozinhos e uma oportunidade de maior contato com outras pessoas, sendo difundido inclusive na mídia e em seriados de televisão.

Essas casas são locais onde se pode alugar um quarto (privado ou compartilhado), enquanto compartilham-se áreas comuns, como a cozinha, banheiro e espaços de estar com outros moradores. Essa tipologia de edifício se apresenta como um novo programa a ser explorado pelos arquitetos japoneses, que muitas vezes são convidados a criar projetos ou renovar construções existentes, na busca de espaços individuais reduzidos ao mesmo tempo que propõem a valorização de ambientes que promovam o coletivo e sociabilização.

Do ponto de vista do morador, essa opção de habitação se mostra mais barata do que alugar um apartamento e pode ser muito vantajosa para estudantes ou jovens no início de carreira que desejam habitar os grandes centros urbanos. Como no Brasil, alugar um imóvel no Japão pode ser burocrático e custoso, o que torna as casas compartilhadas atraentes, livrando o morador de contratos complexos, necessidade de fiador ou pagamento de depósitos entre outras taxas de início de locação.

As casas compartilhadas também são vistas como uma oportunidade de socialização. Algumas, por exemplo, realizam encontros periódicos para promover o senso de comunidade entre os moradores. Existem também as casas voltadas para um público específico, por exemplo, mães solteiras – uma opção muitas vezes benéfica para mulheres que trabalham e precisam de suporte no cuidado com os filhos.

Shared House in Oji (Casa compartilhada em Oji), realizada pelo arquiteto Kengo Kuma, em 2017, trabalhou com o programa da casa compartilhada. Nesse caso, o projeto consistia em renovar uma casa tradicional japonesa que pertenceu ao ex-primeiro ministro Keizō Obuchi, próxima a estação de Oji, na região de Kita, em Tóquio. Feita em madeira no período pré-guerra, ela foi transformada em uma residência compartilhada destinada a estudantes.

Preservando o exterior e a estrutura, a casa teve seu interior redesenhado para abrigar oito quartos individuais de 15m², além de uma cozinha ampla integrada com a sala de jantar e dois banheiros coletivos. Para isso, foram muito utilizadas as telas shoji, um elemento tradicional da arquitetura japonesa que continuam sendo utilizadas atualmente, como contamos na nossa última correspondência. Essas divisórias móveis são feitas com um papel grosso e translúcido, fixado em uma estrutura de madeira ou bambu e são empregadas para dividir as espaços de forma muito simples, permitindo a luz adentrar os ambientes. O papel utilizado é o tradicional washi, também presente nas divisórias da sede da Japan House São Paulo, projeto do qual Kuma também é autor, em conjunto com o escritório paulistano FGMF Arquitetos.

Esperamos que vocês tenham gostado de conhecer um pouco sobre o trabalho desse arquiteto e dessa opção de moradia no Japão. Como é o morar coletivo no Brasil? Estamos curiosos para ver alguma proposta brasileira escolhida por vocês.

Um abraço,

Japan House São Paulo

 

 

#08

Querida Japan House São Paulo,

Ficamos muito contentes que você tenha nos apresentado a Shared House in Oji, de Kengo Kuma. Pensamos que a melhor forma de trazer a discussão para o Brasil a respeito das ideias de reconversão de usos e de moradia compartilhada seja apresentar um exemplar dos movimentos sociais de luta por moradia. A Ocupação 9 de Julho, que teve início em 2016 com integrantes do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), guarda uma importante história sobre a luta pelo direito à moradia e a condição de inúmeros edifícios abandonados e subutilizados na região central da cidade de São Paulo.

Narrar a história desses movimentos sociais, além de apontar para questões urgentes da conformação das cidades brasileiras, é tratar de sua relevância política ao deflagarem a necessidade de urgência na articulação do poder público para o cumprimento do direito à moradia previsto em lei – como consta na Constituição Brasileira de 1988. Reivindicações como as do MSTC, fundado em 2001 por Carmen Silva, evidenciam que a moradia digna é mais complexa do que a oferta a uma mera unidade habitacional, pois “morar” inclui mobilidade, acesso a equipamentos e serviços públicos (saúde, educação, cultura, segurança) e a oportunidades de trabalho. Quando avaliamos o problema do deficit habitacional brasileiro, aliado a estes fatores, somos capazes de compreender os motivos que levam muitas dessas ocupações a se instalarem no centro das grandes cidades.

A Ocupação 9 de Julho, que escolhemos como exemplo nessa correspondência, abriga 138 famílias de baixa renda, incluindo brasileiros de diversos estados, imigrantes e refugiados de outros países que, sem o Movimento, viveriam em condições incertas ou sem abrigo. O edifício do início da década de 1940, que sediou o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ficou inutilizado por 42 anos até que, em 2016, foi ocupado pelo MSTC. Os próprios ocupantes realizaram a limpeza do local e coordenaram obras de recuperação (como reformas hidráulicas e elétricas e recuperação de escadas). Esse tipo de ação é bastante recorrente nestes movimentos recuperando, por meio da força de trabalho dos seus integrantes, infraestruturas abandonadas, sem função social, e fornecendo assim condições para o processo de regularização do edifício.

Os três primeiros andares do prédio, destinados originalmente para atendimento ao público, agora acolhem atividades de cunho educacional e cultural, contando inclusive com uma galeria de arte. Vale dizer que tudo é gerido pelos próprios ocupantes. Os 12 andares acima, que eram moradias para os funcionários do próprio INSS, se transformaram em unidades habitacionais para os mais de 347 moradores.

Na Ocupação 9 de Julho (e em qualquer uma das mais de doze ocupações geridas pelo MSTC) são desenvolvidas ações que instrumentalizam e capacitam os ocupantes. São atividades como formação política, ambiental e esportiva, serviços de educação e treinamento profissional, além de acesso a orientação jurídica.

Eventos abertos são realizados regularmente, alguns deles reunindo oito mil pessoas. Ocasiões como essa oferecem a possibilidade de que mais pessoas entendam, de fato, o que é uma ocupação, e com isso tenham a oportunidade de se livrar de preconceitos que, infelizmente, ainda são associadas aos movimentos de moradia em nosso país.

As iniciativas do MSTC, embora ainda negligenciadas pelo poder público, são reconhecidas no ambiente acadêmico e por arquitetos e urbanistas no âmbito nacional. Muitos desses profissionais atuam em parceria com o MSTC, por intermédio de consultorias e ações conjuntas. A metodologia em rede encabeçada por Carmen Silva articula formas de financiamento, requalificação e manutenção predial, administração comunitária, mobilização e organização dos integrantes, tornando assim o MSTC uma das práticas mais inovadoras e bem sucedidas no Brasil quando pensamos em habitação de interesse social.

Recentemente, este reconhecimento ganhou novo fôlego devido ao convite para participar da 3ª Bienal de Arquitetura de Chicago (que ocorreu entre setembro de 2019 e janeiro de 2020 em Chicago, Estados Unidos). O MSTC, juntamente com a Escola da Cidade e o coletivo interdisciplinar O Grupo Inteiro, apresentaram a exposição “MSTC – Moradia como Prática de Cidadania”. A mostra trouxe a história e as diversas estratégias desenvolvidas pelo Movimento, compiladas também em uma densa publicação sobre o tema.

Tamanha visibilidade é fundamental para ajudar a combater uma série de investidas que tentam criminalizar os movimentos sociais em São Paulo, ignorando o fato de estarem de acordo com os marcos regulatórios do país e a importância de sua luta por melhores condições em cidades com tão pouca oferta habitacional de acesso democrático. Nossa expectativa com essa carta é dar luz à uma discussão de tamanha importância sem a qual não poderíamos efetivamente abordar os desafios e as soluções mais efetivas acerca das diferentes formas do morar nas cidades brasileiras. Pensar como é possível abordar a moradia hoje requer que a encaremos como um direito de todos.

Querida Japan House São Paulo, nos despedimos agora, mas faço questão de frisar o quão prazerosa foi essa troca de correspondências. Um abraço e até a próxima!

Instituto Tomie Ohtake