Insper: Inscrições abertas para Pós-graduação em Urbanismo Social

Pioneiro no país, o curso está inserido no Núcleo de Urbanismo Social do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper e é co-realizado pelo Itaú Cultural, trazendo uma agenda emergencial às cidades brasileiras de capacitar profissionais e gestores para estarem aptos a trabalhar na qualificação dos territórios de vulnerabilidade social. Saiba mais!

Com o aumento da disponibilidade de dados georreferenciados e a evolução de métodos analíticos, a pesquisa interdisciplinar sobre cidades segue em avançando exponencialmente em diversos países – caso que, apesar de esforços, ainda se difere no Brasil. No contexto nacional, constata-se uma carência de práticas inovadoras na gestão das cidades e de avaliação de impacto sobre a eficiência de políticas públicas para a sua transformação.

Neste sentido é que se apresenta a ‘Pós-graduação em Urbanismo Social – Gestão Urbana, Políticas Públicas e Sociedade’, curso inserido no Núcleo de Urbanismo Social do Laboratório de Cidades, e resultado de uma parceria entre Insper Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Itaú Cultural e Arq.Futuro, unidos pelo objetivo de desenvolver estudantes à capacitação necessária para a estruturação de soluções integradas e territorializadas de problemas urbanos complexos, adequadamente formulados, a fim de que enfrentem situações de vulnerabilidade social nas cidades desse país.

Em tese, qualquer urbanismo deveria ser social, porém o que temos visto dificilmente atua de maneira focada e consistente, incremental e transformadora nos territórios de maior vulnerabilidade social”, diz em entrevista publicada pelo Itaú Cultural, Carlos Leite, arquiteto, pesquisador e responsável pela disciplina de casos práticos de Urbanismo Social do curso.

 

Compondo de forma transversal uma plataforma interdisciplinar que oferece grande liberdade para a reflexão e estabelecimento de múltiplas associações, propício ao aprendizado, pesquisa e inovação, o curso possibilita complementar a formação continuada de gestores públicos e profissionais voltados a essa área de atuação, a saber:

  • Gestores públicos, do terceiro setor e da iniciativa privada, que possuam caráter inovador;
  • Profissionais e agentes comunitários (independentemente de sua formação acadêmica) para a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas e planos urbanos locais integrados em diálogo com sujeitos das comunidades locais, poder público e sociedade civil e seus potenciais culturais, com foco na gestão e na intervenção urbanas inovadoras, em territórios de maior vulnerabilidade social.

Conforme aponta a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), por meio da bimestral Bares & Restaurantes [publicada originalmente em 3 de novembro de 2020, com texto de Valerio Fabris], é voz unânime dentro da instituição de que não se pretende, com a pós-graduação em Urbanismo Social, a formação de arquitetos e urbanistas, mas, sim, o de se criar no país uma cultura geral de gestores de várias áreas (inclusive as do setor público), que se juntem às lideranças comunitárias na identificação das prioridades e no desenvolvimento das cidades brasileiras, seja com projetos de infraestrutura ou dos serviços de educação, saúde, lazer e cultura.

“O tema do urbanismo é central nos grandes desafios do Brasil de hoje. As cidades brasileiras são o retrato da desigualdade do país. Juntos, podemos encontrar caminhos diferentes. Sabemos das dificuldades na gestão do espaço urbano, que é necessariamente inter-disciplinar e envolve a negociação de conflitos. Há muito tempo nossas cidades perderam a sua capacidade de serem os locais da interação, da convivência, da troca de ideia. Temos cidades muradas, de condomínios fechados, e os pobres sendo espalhados para longe, com implicações na mobilidade e na qualidade de vida das pessoas”, diz o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, em matéria anteriormente referenciada.

Estruturação do curso

As disciplinas são aplicadas em quatro trilhas consecutivas (uma por trimestre), a partir de três módulos intensivos de 40 horas cada – três semanas de imersão (workshops); sete módulos Weekend de 24 horas cada – quintas e sextas-feiras, das 9h às 18h, e sábado, das 8h às 17h; além 72 horas de atividades à distância -parte preparatória aos módulos presenciais e parte pós, feedback. As ilhas trimestrais são:

  1. Problematização e conceitos em Urbanismo Social;
  2. Contextualização e caracterização dos territórios;
  3. Governança do território, articulação e engajamento social e cultural;
  4. Inovação e proposição de mudança.

Ao longo do curso, o estudante completa dois ciclos de aprendizagem: um curto, introdutório; e outro extenso, mais aprofundado. Com um projeto final em grupo e uma monografia individual, espera-se estimular o trabalho em equipe e possibilitar que cada aluno se desenvolva ou se aprofunde nas competências necessárias.

Após a conclusão do curso, por meio do Laboratório de Cidades, será possível acompanhar a implementação e a avaliação dos projetos, ou seja, haverá um monitoramento dos projetos apresentados no curso, sua aplicação e progresso.

Com o início das aulas da próxima turma previsto para o próximo 25 de outubro, o interessado tem até 20 de agosto para se inscrever. Encaminhada a documentação, os candidatos passam pelo período de entrevistas durante setembro, quando, no dia 21 do mesmo mês, é divulgado o resultado.

Programação para a próxima turma

até 20.8 Inscrições – período para completar formulário de inscrição

até 27.8 Entrega de documentos

até 1.9 Entrevistas

até 17.9 Comitê de aprovação – período de análise e aprovação dos candidatos bolsistas

até 21.9 Divulgação dos resultados

até 11.10 Prazo para matrícula dos aprovados

25.10 Início das aulas

* mais informações sobre o curso em insper.edu.br

 

Leia também | Recorte* da entrevista com Tomas Alvim, Coordenador do Labortório Arq. Futuro de Cidades do Insper

Tomas Alvim © Rogério Lorenzano / Via Bares & Restaurantes

 

Por que duas instituições brasileiras, a plataforma multimídia Arq.Futuro e a escola de negócios Insper, uniram-se em uma parceria, envolvendo também o Itaú Cultural?

Desde a sua criação, há dez anos, o Arq.Futuro promove a discussão e a reflexão sobre o futuro das cidades no Brasil. Ao longo desse tempo ficou claro que temos um problema estrutural de base: nossas cidades são fontes de exclusão socioespacial e replicadoras de uma pobreza sem fim. O Insper foi um parceiro de primeira hora das nossas realizações. Logo no início das atividades do Arq.Futuro, promovemos conjuntamente o debate com os economistas José Alexandre Scheikman e Edward Glaeser e essa parceria cresceu ao longo dos anos, sempre trazendo um olhar mais plural e diverso sobre os desafios da transformação urbana. A certa altura ficou claro que esse problema de base demandava reflexão e análise mais amplas, multidisciplinares e amparadas em evidências, para a proposição de soluções efetivas e transformadoras do espaço urbano.

A estruturação de atividades de pesquisa, ensino e extensão no Insper, com essa orientação, foi o natural passo seguinte. Nosso foco primário no Laboratório é a cidade informal, e a aproximação com o Itaú Cultural surgiu diante da oportunidade de se criar uma pós-graduação em Urbanismo Social, em parceria com os professores da Eafit Urban, de Medellín. Isso consolida a tese de que instituições e grupos com objetivos sociais diferentes podem ser, e são por essência, atores fundamentais no desenho e na proposição de iniciativas orientadas para a resolução dos problemas urbanos. As quatro instituições aportaram conhecimento e experiências relevantes no objetivo do curso, no desenho do currículo e nos critérios de seleção dos professores e candidatos.

 

Como se dá a interação entre o Laboratório de Cidades e o curso de pós-graduação em Urbanismo Social?

A estrutura do Laboratório é feita por núcleos temáticos. Temos hoje três núcleos em funciona- mento: ´Mulheres e Território’, ‘Urbanismo Social’ e ‘Dados Urbanos’. E há quatro outros núcleos em formação. Os núcleos funcionam estruturalmente interligados, e a conexão com as outras disciplinas do Insper é permanentemente estimulada. A nossa filosofia é a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade na discussão dos desafios urbanos. É a cidade como um campo de atuação, em que profissionais de diversas disciplinas aplicam seus conhecimentos e suas ferramentas.

A pós-graduação foi montada pro- movendo esse conceito. Temos professores convidados dos setores públicos e privado, do terceiro setor, e professores da casa. Misturamos no corpo docente o saber formal acadêmico com o saber local, com a participação de diversas lideranças comunitárias de movimentos sociais, que aportarão a sua tecnologia social na resolução dos problemas e na proposição de soluções dos territórios em foco.

 

Qual o perfil dos profissionais que serão formados nessa pós-graduação em Urbanismo Social?

Serão capacitados e formados gestores públicos, privados e da sociedade civil. A seleção dos alunos obedeceu aos critérios de diversidade, gênero, raça e regionalidade, para que tenhamos um corpo discente representativo dos territórios, focos do Urbanismo Social. Foi dada ênfase especial aos candidatos que já atuam em territórios violentos e de vulnerabilidade social, e também às lideranças comunitárias que já conduzem projetos nessas aéreas urbanas Brasil afora.

 

O Insper é reconhecido por seu programa de bolsas de estudo, criado em 2004, que tem mais de 250 beneficiados nos cursos de graduação em Economia, Administração e Engenharia, aí com- prendendo a Mecânica, a Mecatrônica e a Computação. Como essa questão das bolsas é tratada na pós-graduação em Urbanismo Social?

Temos trinta bolsas de estudo para o curso de 360 horas, viabilizadas pelo Itaú Cultural, e destinadas a lideranças comunitárias do Brasil inteiro, inclusive para pessoas sem formação universitária. Sim, mesmo sem graduação, elas poderão fazer a ‘pós’. Os candidatos sem formação universitária farão o curso regular como os demais. Receberão o certificado de participação. Oferecemos também ajuda complementar com auxílio à estadia, à alimentação e ao translado para São Paulo para dez selecionados que necessitem desse suporte para poder fazer o curso. A composição do corpo discente foi um dos desafios que enfrentamos. Temos como proposta combinar a educação formal com o saber local, do mesmo modo que compusemos o corpo docente; é a cidade representada pela sua diversidade de saberes, experiências e competências.

 

Há um elevado nível de ineditismo nessa missão a que se propõem o Insper, o Arq.Futuro e o Itaú Cultural, com o respaldo dos professores da Universidad EAFIT Urban, de Medellín.

Estamos o tempo todo atentos ao grau de dificuldade da nossa missão. Não temos a obsessão de querer fazer algo que nos destaques como singulares, diferentes. O nosso empenho é o de que sejamos efetivos, transformadores. É o que nos importa. E, para tanto, a gente procura permanentemente realizar diagnósticos, olhar as evidências, assim como olhar quais vêm sendo os recorrentes equívocos que têm gerado um preço cada vez mais alto na segregação urbana e na limitação do desenvolvimento imobiliário urbano.

A pergunta a ser respondida não é o que fazer, mas, sim, como fazer. Para tanto, tinha todo o sentido estabelecer uma parceria com a escola que abriga os fundadores do Urbanismo Social colombiano. Em vinte anos, Medellín passou de cidade mais violenta do mundo à cidade mais inovadora do planeta. Logo, aprender com eles era o caminho natural.

 

E por que se elegeu o urbanismo como o motivo condutor, o leitmotiv, do empreendimento dos sócios Marisa Moreira Salles e Tomas Alvim?

Do lado do Arq.Futuro, há um antecedente, um ponto de partida. Há 27 anos, portanto em 1993, Marisa Moreira Salles e eu fundamos uma editora chamada BEI, uma palavra tupi que quer dizer “um pouco mais”. A editora nasceu com o foco nas raízes do Brasil. Publicamos livros de artes plásticas, de fotografia, de design e de arquitetura, guias de viagem e gastronomia. Posteriormente, em 2011, precisamos reinventar a editora e aproveitar a multicanalidade como realidade editorial. Acoplamos a editora a uma plataforma multimídia, denominada Arq.Futuro.

O objetivo original era debater o Brasil, a partir do tema arquitetura. Realizamos palestras e debates com grandes nomes nacionais e internacionais. Foi o que fizemos. Mas constatamos que a questão brasileira estava muito mais no urbanismo do que na arquitetura. As cidades eram e são o grande palco dos desafios do desenvolvimento. Nelas está concentrada a majoritária porção da nossa população, além de ser o centro das tomadas de decisões que definem o destino do país.

 

De quem partiu a iniciativa de propor abertamente essa parceria entre vocês. Foi do presidente do Insper, Marcos Lisboa, sua ou da Marisa?

O namoro era antigo, desde os primeiros debates promovidos conjuntamente, como mencionei, e foi evoluindo com a criação do curso de Educação Executiva, para o qual fomos convidados por Rodrigo Amantea. Ele é o coordenador do programa de Educação Executiva do Insper e atual co-coordenador do Laboratório, conjuntamente comigo. Para o Arq.Futuro, a ideia de ficar focado exclusivamente na promoção do debate já não era suficiente e sentíamos a necessidade de focar os nossos esforços em iniciativas que fossem mais efetivas e transformadoras.

A educação surgiu como a alternativa que poderia fazer a diferença; e o Insper por ser um centro de excelência em pesquisa e educação, como o lugar certo para a realização desse projeto. Com o sucesso do programa executivo, para o Insper a parceria também passou a fazer sentido, e então tivemos o convite de Marcos Lisboa para dar o passo seguinte, que foi a montagem do Laboratório de Cidades.

 

O deslanche da proposta de vocês, com a pós-graduação em Urbanismo Social, que começa em outubro, ocorre no limiar de um tempo novo, que é a era pós-coronavírus, quando os corações e as mentes dos brasileiros tornaram-se mais sensíveis aos apelos comunitários, ao compartilhamento social. Confere?

É uma pergunta muito boa. Acho que essa situação trouxe três pontos fundamentais. Primeiro: o fim da invisibilidade. Perto de 40 milhões de pessoas que, anteriormente, não estavam em radar nenhum. Subitamente apareceram. A maior vulnerabilidade nacional veio à tona. Nós nos vimos mergulhados em uma profunda fragilidade socioeconômica. Milhões perderam renda, e, no momento seguinte, perderam o emprego. Os filhos perderam a merenda porque as escolas fecharam. O segundo ponto é que aflorou a solidariedade. Nunca vimos um país tão unido, tão concentrado no objetivo de ajudar o outro, tão participativo.

A comunhão nacional normalmente só acontecia no Carnaval e na Copa do Mundo. E, como terceiro ponto, superimportante, a demonstração da organização e da capacidade de atuação dos movimentos de base, das organizações atuantes nos territórios vulneráveis. Invariavelmente esses movimentos foram muito mais efetivos e resolvedores dos problemas do que várias esferas de governos. A sociedade se autoanalisou, se inteirou das suas dores, elaborou soluções, e, certamente, ficou mais aberta para novos modelos de governança e disposta a buscar caminhos para que tenhamos cidades de fato inclusivas, com qualidade de vida e oportunidades para todos, que é a razão de ser das aglomerações urbanas.

 

* Extraído de Bares & Restaurantes, publicação bimestral da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Texto original e na íntegra disponível em: ‘Tomas Alvim – O Brasil abandona as áreas que mais precisam de investimentos e infraestrutura’, 3 de novembro de 2020.