Tecnologia na arquitetura é tema de eventos em Lisboa

Exposição e conferência abordam como as tecnologias digitais têm afetado a conceituação e a vida das cidades

Imagem do estúdio Wai Think Tank “Cidades da vanguarda”

Acontece na cidade de Lisboa, em Portugal, a primeira “exposição-manifesto” no novo edifício do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), localizado na zona de Belém. “Utopia/Distopia” estabelece um diálogo com os projetos de locais específicos da Galeria Oval do museu, apresentando exposições coletivas com obras de artistas e arquitetos que, nas respetivas áreas, têm contribuído para uma compreensão e uma reflexão crítica sobre temas cruciais do presente.

Em exibição até o dia 21 de agosto, a exposição está centrada nos conceitos de utopia e distopia – evocando o 500º aniversário da publicação da obra Utopia, de Thomas More – e na forma como a dicotomia entre ambos reflete uma época de aceleração paradoxal, em que a ansiedade e o otimismo coexistem.

No âmbito da exposição, a conferência Post-internet Cities promoveu nesta sexta-feira (26), ao longo do dia, uma reflexão crítica sobre o modo como as tecnologias digitais têm afetado a conceituação e a vida das cidades. Para além de terem motivado evidentes mudanças nas práticas cotidianas, as tecnologias da comunicação transformaram radicalmente o modo como as cidades são reconhecidas, apropriadas e (re)desenhadas.

Foram discutidos temas como: Arquitetura contemporânea como utopia/distopia urbana; Culturas em rede e o “direito à cidade”; (I)literacia digital e exclusão social; Arquitetura e iconografia urbana depois da internet; Arquitetura, tecnologia e incerteza; Arte contemporânea como intervenção urbana na era digital; Arte digital em espaços públicos e espaço urbano como realidade híbrida.

Museu dos [Corpos] Invisíveis. Intervenção Urbana de Beiguelman & Bambozzi no Mirante 9 Julho, em São Paulo (2016)

Representando o Brasil, participou da conferência a artista e professora associada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), Giselle Beiguelman, abordando o tema “Arte, espaço público e territórios informacionais: rumo à arquinterface”. Confira um resumo de sua apresentação neste relato de Giselle:

“Expandidas pelas tecnologias digitais, as cidades são, mais do que nunca, redes complexas que emaranham dados de distintas procedências. Algumas evidências, quase banis, desse processo. Informações sobre o tráfego são disponibilizadas em tempo real por webcams de todo o planeta. Aplicativos, como o Waze, monitoram o trânsito por meio do compartilhamento de informações dos motoristas nas ruas. A paisagem urbana é modificada pela ocupação de fachadas com LEDs, o mobiliário das cidades é cada vez mais reativo a nossa presença. Todos esses exemplos em conjunto têm, como contraponto, um significativo aumento da capacidade dos poderes públicos e privados de vigiar e rastrear nossas ações.

Como explorar relações arquitetônicas com ambientes ricos em dados? De que forma essa dadosfera aponta para a construção de experiências urbanas mais ricas? É possível orientar mediação dos dados para novos formatos de exercício da cidadania e compreensão do espaço público?.

Baseada em experiências de arquitetos, designers e artistas discuto a emergência do espaço urbano como interface. Essa interface redefine o significado do lugar e reinventa as formas de ocupação do espaço público. A discussão é baseada em experiências de arquitetos, designers e artistas como Guto Requena, Liam Young, Andrei Speridião, além de projetos pessoais meus e desenvolvidos em parceria com Lucas Bambozzi”.

Na edição 437 da revista PROJETO, o arquiteto e urbanista membro do Naweb/CNpQ – Grupo de Estudos em Cidades Inteligentes da FAU/USP, Lucas Girard, também entra neste debate com a coluna “Uma oportunidade histórica” (leia aqui), em que opina: “a chegada das smart cities traz consigo a oportunidade – talvez única – de se repensar profundamente o atual papel das tecnologias de informação e comunicação digitais na produção do ambiente urbano, bem como o escopo de suas responsabilidades na promoção de modos de vida cidadãos”.

www.maat.pt