IAB-SP: saiba como foi o 1º debate preparatório para a XIII BIA de São Paulo

Convidados e integrantes do Instituto discutiram acerca do histórico participativo e do destaque brasileiro nas Bienais pelo mundo

Na última quinta-feira (31/7) teve início a sequência de debates preliminares da XIII Bienal Internacional de Arquitetura (XIII BIA) a partir do tema “O Brasil nas Bienais”, com realização do Instituto de Arquitetos do Brasil – departamento de São Paulo. Retransmitido aqui na plataforma da Revista PROJETO, o evento on-line trouxe (assim como a promessa dos próximos dois encontros que se seguem) preliminares a respeito do tema central da BIA 2021, ‘Reconstrução’, que também conta com a PROJETO como parceira oficial de mídia.

O evento revelou a essência de exposições de arte e de arquitetura da próxima edição da BIA e instigou reflexões acerca do papel não só de arquitetos e urbanistas, mas também de tantos outros profissionais e cidadãos para alcançar cidades mais justas e democráticas: “A Bienal é um dos grandes projetos estruturantes do IAB. Nós entendemos esse evento como um momento de revisão, reflexão, possibilidades e investigação dos diversos campos, não só o arquitetônico. Buscamos diálogos mais amplos do que o nosso próprio setor profissional”, pontuou Sabrina Fontenele, Diretora de Cultura do IAB-SP.

A partir  do eixo temático da discussão, o debate #1 pautou-se nas representações brasileiras em exposições de arte e arquitetura de acordo com experiências anteriores e perspectivas futuras. Carlos Alberto Maciel, fundador do escritório Arquitetos Associados e próximo curador do Pavilhão Brasileiro na 17ª Bienal de Arquitetura de Veneza (2021/2022) – ao lado de seus sócios e de Henrique Penha -, deu início às apresentações a partir do olhar retrospectivo da participação nacional no evento italiano, verificando como se deram tais curadorias para, enfim, chegar à temática da Bienal 2021/2022: “Como viveremos juntos?”, de Hashim Sarkis. “A proposta é anterior à pandemia e, talvez, tenha ganhado uma relevância ampliada, a partir das questões que estão sendo vivenciadas no mundo”, reforça Maciel.

De acordo com o arquiteto, a 17ª edição do evento internacional compactua com a diversidade de público que, de igual forma, a XIII BIA de São Paulo procura alcançar, “convocando os arquitetos a se engajarem com outras profissões”. Ao mesmo tempo, as recomendações orientam os participantes a buscarem respostas dentre as especificidades materiais, culturais e espaciais arquitetônicas. Ainda, o convite aos curadores nacionais indica a guiarem-se pelos subtemas norteadores do evento:

Nós procuramos trabalhar com dois deles: a necessidade de equipamentos e de habitação social mais inclusiva, de modo que ambos melhorem a conectividade urbana e territorial para reverter essa lógica de progressiva desigualdade”, declara o arquiteto.

‘Yvy Marã Ei – Utopias da vida comum’ é o título da proposta para a participação brasileira no evento de Veneza, que remete a um mito da cultura Guarani sobre a “terra sem males”, pela qual persistia a busca pelos nativos. A partir desse conceito, a equipe procura mapear na arquitetura brasileira “algumas manifestações da ideia de utopia num sentido de transformação, que possa constituir lugares mais adequados à vida comum”.

Na sequência, Paula Monroy, arquiteta chilena da equipe curatorial da ‘São Paulo: Diálogos y límites’, exposição da XXI Bienal do Chile de 2019, destacou sobretudo a organização da mostra naquele ano, inédita ao estruturar-se sobre as dimensões de todo o bairro Franklin, em Santiago, e pelo convite à uma cidade estrangeira e semelhante à capital chilena – ou seja, São Paulo – como articuladora adjunta ao evento.

Entre Santiago e São Paulo existem algumas semelhanças: a multiculturalidade, o crescimento urbano acelerado e, apesar de ambas terem identidade forte ‘de capital’ no que diz respeito à infraestrutura urbana, possuem grande desigualdade social”, explicou Monroy.

A partir da temática central “Feira Livre de Arquitetura”, a equipe buscou entender a quem se refere efetivamente a classe média da capital paulista para enfim compreender o diálogo desta majoritária classe social, tanto no Chile quanto no Brasil, com a arquitetura. “Buscamos organizar a Bienal não somente para articular a cidade, mas também se relacionar com um grupo social que, por excelência, está presente nesse bairro – a classe média chilena”. Dentre as obras escolhidas para compor a Feira, foram inclusos dez projetos edificados, quatro publicações, quatro pesquisas e três propostas acadêmicas.

Por fim, o arquiteto Jacopo Crivelli Visconti, um dos curadores da 34ª Bienal de São Paulo, pontuou questões estruturantes sobre o evento, adiado para setembro de 2021: “Concebemos esta edição para que ela se expandisse no tempo e no espaço”. Em suma, o evento atravessaria o tempo por iniciar-se (e assim o fez) no último 8 de fevereiro – então há alguns meses anteriores à exposição principal – a partir de uma pequena mostra e uma performance, ambas realizadas no próprio Pavilhão da Bienal. Já em relação ao espaço, de igual forma ao evento chileno de 2019, a 34ª Bienal se espalharia numa escala urbana – até agora, são 25 instituições paulistanas elencadas para suporte à programação completa:

Uma das ideias da 34ª Bienal era exatamente convidar o público a ver os mesmos trabalhos de formas diferentes e em situações diferentes. Portanto, as obras vistas em fevereiro irão retornar na exposição principal”, reforçou Jacopo.

Desta vez, o evento não escolheu um tema específico, mas optou por guiar-se pelo título “Faz escuro mas eu canto”, referência ao poema (1965) de Thiago de Mello, onde reside justamente o maior desafio da edição, já que o verso indica uma metodologia a ser seguida e não uma temática propriamente dita. De acordo com Jacopo, no momento de escolha das palavras de Thiago de Mello, já parecia ser muito evidente o que se pretendia mostrar e, quanto mais a pandemia se fez dominante sobre os aspectos cotidianos, mais intensificadas foram as questões evocadas pelo título.

Elas são muito amplas, pois podem ser observadas dos pontos de vista social e político no presente, mas também se estender para a ‘escuridão’ metafórica de Thiago de Mello, que se refere às dificuldades gerais a serem enfrentadas (…). Para nós, o verso – em sua segunda parte, digamos – defende que, sobretudo nesta escuridão, devemos ter a coragem de ‘cantar’, e não somente reforçar as problemáticas que se apresentam”, contou o arquiteto.

A partir do diálogo entre curadores e público, os assuntos da exposição foram paulatinamente revelados – dentre eles, aqueles relacionados à circulação, necropolítica, ao encarceramento e outros. Deles, surgem o que se chama de “enunciados”: ideias não provenientes do âmbito artístico, mas vindas de objetos significativos e carregados de histórias capazes de articular os elementos de cada exposição específica.

Encerrando o encontro on-line da última quinta-feira, o presidente do IAB, Nivaldo Andrade, questionou os convidados acerca da vivência futura da cidade, das arquiteturas e das exposições após esse processo de enclausuramento. Ao resumir as ideias apresentadas pelos demais participantes, Jacopo pontuou:

Tudo o que já vínhamos pensando, e agora não falo exclusivamente da 34ª Bienal, ganhou relevância e pertinência a partir do que está acontecendo no mundo. É como se tudo estivesse mais à flor da pele (…)”.

 

Assista na íntegra o debate #1

Debate 1 | O Brasil nas Bienais – representações nacionais em exposições de arte e arquitetura a partir de experiências anteriores e perspectivas futuras
Realização 30/7/2020, às 19h
Abertura Nivaldo Andrade (presidente IAB) e Sabrina Fontenele (IAB SP)
Mediação Karina de Souza (IAB SP)
Convidados Carlos Alberto Maciel (Arquitetos Associados) – Pavilhão Brasileiro na Bienal de Arquitetura de Veneza, 2021/2022 | Paula Monroy – Bienal do Chile, 2019: ‘São Paulo: Diálogos y límites’ | Jacopo Crivelli Visconti – Bienal de Arte de São Paulo

* confira o calendário da programação inaugural da XIII Bienal de Arquitetura de São Paulo e acompanhe os próximos debates aqui na plataforma da Revista PROJETO.