IAB-SP: confira na íntegra o último debate preliminar à XIII BIA de SP

Com o tema “Democracia e corpos nas cidades”, o evento on-line reuniu especialistas para debaterem acerca de garantia e estímulo às práticas políticas nos espaços urbanos brasileiros

Na última quinta-feira (27/8), o último encontro virtual finalizou a sequência de debates preliminares da XIII Bienal Internacional de Arquitetura (XIII BIA) a partir do tema “Democracia e corpos nas cidades: Provocações da XIII Bienal de Arquitetura”, com realização pelo Instituto de Arquitetos do Brasil – departamento de São Paulo (IAB-SP). Retransmitido aqui na plataforma da Revista PROJETO, o evento on-line trouxe assuntos relacionados à garantia e estímulo à aplicação legítima de práticas políticas nos espaços urbanos em solo brasileiro, que enfrenta a ameaça da recessão democrática. Ainda, o evento apontou questões relacionadas ao tema central da BIA 2022, ‘Reconstrução’, que também conta com a PROJETO como parceira oficial de mídia.

Precedido por dois lives – o primeiro realizado em 31 de julho sob o eixo “O Brasil nas Bienais” [saiba aqui como foi], e o segundo condicionado à questão “Para que serve uma Bienal de Arquitetura?”, em 13 de agosto [confira a cobertura] -, esse último encontro também se apresentou como fonte inspiradora às propostas curatoriais que virão, por meio de chamamento, a compor exposições de arte e de arquitetura da próxima edição da BIA de São Paulo. Segundo Sabrina Fontenele em explicação anterior ao ciclo de debates, o processo prévio surgiu com a intenção de contribuir para o fortalecimento de uma rede colaborativa “que atue frente a um pacto social para compartilhar projetos, narrativas, experiências e ferramentas”.

A fim de estimular diálogos multidisciplinares, premissa do IAB-SP para a XIII BIA tida como única chave para a resolução de problemáticas gerais, o debate #3, propositalmente, convidou para compor a mesa Marcos Nobre, professor livre-docente de filosofia da Unicamp, Tainá de Paula, arquiteta urbanista e ativista de lutas urbanas, e Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Marcos Nobre apresentou brevemente questões condizentes ao panorama político brasileiro e pontuou eventos que seguem o recorte temporal pós eleição do atual Presidente Jair Bolsonaro, sobretudo de março até agora, com a chegada da pandemia – mais aprofundadas em seu livro recém-publicado “Ponto final: A guerra de Bolsonaro contra a democracia”.

Respondendo às perguntas do público, todas relacionadas ao entendimento geral de como contemplar, ao mesmo tempo, a construção de uma frente ampla pela democracia e a reconstrução de alternativas para um novo projeto urbano e social, Marcos Nobre acredita que “precisamos refazer os laços do nosso cotidiano, as regras da nossa convivência. A pandemia não somente colocou a casa, a cidade e os espaços públicos em evidência. Precisamos olhar o que aconteceu nessa pandemia, qual foi a reação dos prefeitos a ela e pensar o que podemos fazer sobre isso”.

No mesmo sentido, os ideais de Tainá de Paula corroboram para o caminho da ‘reconstrução’, desde que sejam revistos conceitos do passado recente – caso contrário, desacredita na opção.

Acho que os arquitetos são fundamentais para isso, porque está na essência dele oferecer exemplos concretos. O profissional da ‘reconstrução’ é fundamental para desenhar esse processo”, afirma de Paula.

Após refletir sobre a vigência de uma chamada “democracia customizada” – dividida entre “democracia dos sujeitos”, pautada na ‘representação’, e “democracia dos corpos”, ligada à ‘expressão’ e que enxerga cor, gênero, orientação sexual, faixa etária -, Christian Dunker acredita que a resposta também está no fomento da arquitetura brasileira que pensava “um país”, além do edifício e da cidade. “Existe em nossa arquitetura uma tradição anterior ao golpe militar de implementar ‘formas construtivas’, ‘vozes’ dos mestres de obras. Essas experiências acho que precisam ser retomadas”.

O conjunto de debates deu ainda continuidade ao processo seletivo acompanhado da figura de uma curadora residente que possa pensar na edição atual, como também na construção de um modelo para as edições seguintes, de maneira a torna o processo de construção do evento ainda mais aberto e representativo – o lançamento da consulta pública ao edital está previsto para ocorrer em 16 de setembro e as demais ocorrências seguem durante este segundo semestre de 2020, com oficialização do grupo previsto para fevereiro de 2021. Atuarão ainda um Conselho Consultivo a ser configurado pelo IAB-SP, com regras para conferir representatividade e um Comitê de Acompanhamento no Conselho Superior do IAB, que congrega todos os Departamentos estaduais.

O novo modelo a ser experimentado segue para um formato a ser replicado nas próximas cinco edições da Bienal (2022-2032) e busca estabelecer uma rede estratégica de relação com entidades culturais, universidades e poder público, produzindo uma exposição que não se volte somente para o público especializado, mas a todos os interessados a refletir sobre dinâmicas urbanas e arquitetônicas.

Entendendo que as manifestações múltiplas devem ser acolhidas e discutidas, o evento deve priorizar duas áreas da cidade para conectar e integrar ações: uma rede de equipamentos públicos e comunitários nas periferias, onde estão desenvolvidos projetos integrados de transformação urbana e ambiental em diálogo com as comunidades locais; e uma rede de equipamentos culturais e espaços públicos no eixo da Avenida Paulista.

O planejamento da próxima Bienal teve início antes mesmo do fim da última edição, realizada em 2019, quando a chapa recém-eleita do IAB-SP previa como principal desafio apresentar temas relacionados à cidade democrática, propondo um novo modelo de governança do evento que incluísse extrapolar os limites do Centro expandido da capital paulista. Diante do cenário pandêmico, a junta considerou ainda mais complexos os entraves urbanos anteriormente previstos, assumindo a necessidade de repensar espaços e práticas cotidianas – daí o tema ‘Reconstrução’. Não obstante, a chapa elenca eixos diretamente relacionados ao central como suportes para a condução da proposta do evento – a saber: Democracia, Corpos, Informação, Memória e Ecologia. Todos integraram a pauta dos debates apresentados.

Assista ao debate #3

Calendário

15/9/2020 | Lançamento do concurso de co-curadoria

16/9/2020 | Lançamento da consulta pública ao edital do concurso de co-curadoria

14/11/2020 | Divulgação do júri

23/2/2021 | Anúncio do resultado do concurso

5/2022 – 7/2022 | XIII Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo