Objeto Horizonte, por Coletivo Foi à Feira (Foto: Karina Bacci)

Exposição discute coletivo e urbano no Parque Ibirapuera

Com seis artistas convidados e quatro selecionados via edital público, a 10ª Mostra 3M de Arte congrega dez obras ao ar livre e vai até o próximo 6 de dezembro

Em sua décima edição, a Mostra 3M de Arte está disposta no Parque Ibirapuera, em São Paulo, para discutir o coletivo e a arte em um momento desafiador de ocupação pública no pós-isolamento social intensivo ocasionado pelo Covid-19.  Viabilizada pelo patrocínio da 3M, via Lei Federal de Incentivo à Cultura, a exposição selecionou quatro artistas via edital e mais seis convidados para, até o dia 6 de dezembro, comporem a paisagem do parque e incentivarem reflexões sobre a relação do indivíduo e da coletividade na sociedade.

Com curadoria de Camila Bechelany, pesquisadora e editora focada em arte e política, são dez instalações expostas ao ar livre que seguem a temática “Lugar Comum: travessias e coletividades na cidade”, com o objetivo de fazer refletir acerca das experiências particulares e coletivas como agentes transformadores do espaço público.

A 10ª Mostra 3M de Arte reflete nosso espírito de colaboração e criatividade e nossa visão por uma integração respeitosa com o ambiente físico e social; apoiar a Mostra por uma década e vê-la evoluir todo ano, levando arte e reflexão a espaços públicos nos aproxima ainda mais da sociedade também pela preciosa dimensão cultural”, completa Luiz Eduardo Serafim, Head de Marca e Comunicação da 3M do Brasil.

Os projetos foram selecionados mediante as vozes de Camila Bechelany, da artista e curadora Camilla Rocha Campos e da curadora Eva González-Sancho Bodero, componentes do júri que discutiu e selecionou as propostas de acordo com as inscrições via edital do concurso. Das 338 propostas recebidas, quatro foram selecionadas para compor o grupo final, são elas: Maré de Matos (SP), Narciso Rosário (PI), Coletivo Foi à Feira (SP e ES) e a dupla Gabriel Scapinelli e Otávio Monteiro (SP); e os convidados Camila Sposati (SP), Cinthia Marcelle (MG), Diran Castro (SP), Lenora de Barros (SP), Luiza Crosman (RJ) e Rafael RG (SP).

“Tivemos momentos de muitas reflexões durante o processo, tínhamos muitas dúvidas sobre como seria trabalhar em uma montagem e na abertura de uma exposição durante a crise sanitária, e foi preciso reavaliar cada uma das obras até chegar no formato ideal, que levasse em consideração a segurança dos artistas e do público, além de repensar os projetos conceitualmente para que fizessem sentido de existirem num mundo em pandemia”, conta a curadora.

“Um dos projetos de artes visuais mais longevos no cenário brasileiro, em que já tivemos a participação de importantes curadores e artistas, a 10ª Mostra 3M de Arte é um momento de comemoração e agradecimento a todos os envolvidos, principalmente ao público, que nos acompanha há uma década, e à 3M, mecenas comprometida com as artes e cultura brasileiras”, afirma Fernanda Del Guerra, diretora da Elo 3, idealizadora e realizadora do evento.

Mais sobre as obras

Objeto Horizonte, por Coletivo Foi à Feira

Selecionado via edital, o Coletivo Foi à Feira – composto atualmente por Clarissa Ximenes, Gabriel Tye Luís Filipe Pôrto, Matheus Romanelli e Rayza Mucunã – apresenta o projeto “Objeto Horizonte”. Repensada e então já transferida para o contexto de pandemia, a instalação é baseada na arqueologia da memória. A obra é uma esfera, reflexiva por dentro e transparente por fora. Dedicada a ser um espaço de autorreflexão e um convite para que o visitante-participante deixe registrados seus desejos para uma cidade do futuro, a experiência imersiva conta com um painel de LCD com as mensagens deixadas e ruídos com estética futurista. As pessoas podem deixar áudios que serão enviados a um receptor que transforma, a partir de um sistema operacional, as vozes em inserções aleatórias de sons e o resultado será como escutar uma viagem no tempo. “A ideia foi mesmo de uma ‘nave espacial’, cápsula do tempo que pudesse manter as memórias durante vários anos”, conta Clarissa Ximenes, uma das integrantes do coletivo formado em 2010.

Objeto Horizonte, por Coletivo Foi à Feira (Foto: Karina Bacci)

 

O Brilho da Liberdade Diante dos Seus Olhos; e Alto astral, por Rafael RG

Rafael RG apresenta duas obras: “O Brilho da Liberdade Diante dos Seus Olhos” e “Alto astral”. A primeira é inspirada na biografia da abolicionista e ativista norte-americana Harriet Tubman. A criação será uma instalação na área externa com backlight. Já no Planetário Professor Aristóteles Orsini (planetário do Ibirapuera), o artista apresenta “Alto astral”, uma intervenção sonora, que conta com a participação de astrólogos que fazem leituras astrológicas enquanto o visitante pode observar a projeção original. Os astrólogos convidados por RG fazem também um paralelo com a história de Tubman e trabalham com astrologias de povos originários e culturas afrodiaspóricas.

 

O QUE HOUVE, por Lenora de Barros

Através de um drone que sobrevoará a área do parque atrás do Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer, sem câmera, mas com um alto-falante potente, serão emitidos sons de mensagens-poemas gravadas pela própria artista acerca do tempo presente. Outras cinco caixas de som serão dispostas no parque para que emitam as mensagens de Lenora, que fala especialmente sobre vigilância e controle (em uma relação direta com as sensações que o isolamento tem nos trazido) com a ideia de gerar intervenções inesperadas aos visitantes em espaços diferentes.

 

[terra> tijolo= forno] + farinha x pão, por Gabriel Scapinelli e Otávio Monteiro

Através da equação “[terra> tijolo= forno] + farinha x pão”, que representa a relação do homem com a produção do pão, alimento que está presente há milhares de anos na vida do ser humano, a dupla Gabriel Scapinelli e Otávio Monteiro realizou um projeto participativo para entender os processos colaborativos envolvidos na arte de se fazer pão. A obra, além de estar fisicamente entre a rota de instalações do parque, acontecerá também na Casa 1 – centro de acolhimento para a comunidade LGBTQIA+ de São Paulo.

Dentro do projeto, ocorre a implementação de uma padaria a partir da construção de um forno tradicional e a organização de uma série de oficinas para aprendizagem da arte de fazer pão. O público poderá participar e entender, através da experiência, o significado de produzir o próprio alimento e as relações que se articulam por trás da ação, que carrega significado de autonomia, evolução e coletividade. A padaria deve ser uma extensão da obra, que não se encerra com o fim da exposição e intenciona iniciar uma economia criativa.

[terra> tijolo= forno] + farinha x pão, por Gabriel Scapinelli e Otávio Monteiro (Foto: Karina Bacci) 

 

Canteiro Suspenso, por Narciso Rosário

Inspirada em sua trajetória pessoal e a memória afetiva, traz a discussão de como os cidadãos se relacionam com a produção dos alimentos, passando por questões de sustentabilidade e de ancestralidade através do conhecimento e de práticas de plantio. O projeto consiste em uma instalação circular com 11 canteiros com variedades de plantas comestíveis e medicinais, permitindo que o público tenha contato com as plantas. Em paralelo, o artista organiza oficinas e ações junto à mediação da mostra para discutir questões como o cultivo doméstico e as possibilidades de cura pelas plantas.

Canteiro Suspenso, por Narciso Rosário (Foto: Karina Bacci)

 

Entre o Mundo e Eu/A caminho de casa, por Diran Castro

O objetivo de chamar atenção do público para o processo de gentrificação do Parque Ibirapuera e da cidade de São Paulo. A artista busca resgatar a memória do local, que foi apagada ao longo de um processo histórico de silenciamento. Para isso, ela irá construir uma cidade em miniatura com estrutura autossustentável, que terá um caminho a ser percorrido, criando um espaço de reflexão sobre o que existia naquele local antes de se tornar um parque. Essa obra é um convite para a desobediência estética por meio da instalação, que irá permitir a cada pessoa ter seu próprio entendimento a partir da obra.

 

Teatro Parque Arqueológico, por Camila Sposati

A obra retorna às raízes e deseja se conectar com a ancestralidade local, que também contará com intervenções sonoras e performáticas. Neste trabalho, Camila constrói uma representação do antigo teatro anatômico que abrigará seus instrumentos-esculturas em cerâmica produzidos com base na série de trabalhos Phonosophia. A instalação reflete sobre a passagem do tempo: uma indução à observação do passado e entendimento da tensão do futuro. As apresentações performáticas ocorrem aos domingos, de 8 de novembro a 6 de dezembro, das 13h às 18h.

 

Geografia [série Unus Mundus] – releitura -, por Cinthia Marcelle

Tradicionalmente feita no Museu da Pampulha em 2004, a artista produziu uma instalação sob duas vias: a que fala de privilégio e a que fala de periferia. A partir da progressão geométrica simples, mas em grande escala, braços de mangueiras de jardim unem um curso d’água a uma torneira se repetindo numa progressão constante e sem fim (não revelado). Um indício de ações que se repetem constantemente na natureza e em uma relação de um para um, moldando a geografia do local. Ao inverter o sentido “natural” da água canalizada, da torneira para o lago, a artista provoca a reflexão de que a água está sempre em movimento e ainda a constatação de que uma torneira não é algo tão banal quanto parece. “A água canalizada é uma das principais conquistas da civilização moderna e ela implica de forma decisiva em como o controle sobre recursos naturais e a consequente gestão desses bens ‘universais’ auxilia a organização da cidade”, conta a curadora Camila Bechelany sobre o trabalho.

 

O mundo versus o Planeta, por Luiza Crossman

Conta com três vertentes, que propõem o entendimento sobre a diferenciação de “Terra” e “planeta” e sobre a relação entre a arte e ciência. Luiza resgata a ideia de escala humana e da experiência de mundo a partir da relação física com o parque, mais especificamente na antiga serraria. Já o currículo educacional (estrutura disponível para que essas informações sobre a comparação e as reflexões possam ser institucionalizadas) acontece durante a Mostra e em colaboração com dois pesquisadores. A terceira direção do trabalho é a disponibilização on-line de conhecimento sobre o tema a partir da continuação da Coleção Trama, uma parceria com a Zazie Edições para traduzir autores estrangeiros e atualizar a bibliografia editorial brasileira.

 

Púlpito Público, por Maré de Matos

Discute a coletividade por meio de um espaço construído para que se celebrem as diferenças na sociedade, criado com três escadas e quatro megafones, permitindo acessos diversos aos megafones abertos. A instalação fala sobre a convivência e um ponto em comum possível para todos, independentemente dos caminhos escolhidos, já que todas as escadas levam ao mesmo lugar: um espaço onde todos têm voz.

Púlpito público, por Maré de Matos (Foto: Karina Bacci)

 

10ª Mostra 3M de Arte
Local Parque Ibirapuera
Endereço Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n. – Vila Mariana, São Paulo – SP
Data 7 de novembro a 6 de dezembro de 2020
Horário 10h às 21h
Entrada franca