O Lincoln Memorial, em Washington DC, nos Estados Unidos, é um exemplo de arquitetura clássica | Foto: via Gazeta do Povo

Estilo Clássico aos edifícios institucionais dos Estados Unidos?

Apesar de não proibir construções adeptas a outros estilos arquitetônicos, a ordem do ex-presidente Donald Trump estipula que os novos edifícios destinados ao governo federal devem ser "belos", sugerindo a arquitetura clássica como molde "preferido" a ser considerado

Um dos últimos feitos do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – ainda em dezembro de 2020, em vias da finalização de seu mandato -, impactou diretamente o campo da arquitetura. Trata-se de uma ordem executiva que nomeia a Arquitetura clássica e tradicional como principal estilo a ser considerado quando encomendados novos edifícios para o governo federal estadunidense.

Segundo o que se insere na ‘Ordem Executiva sobre a Promoção da Bela Arquitetura Cívica Federal’, aprovada em 21 de dezembro de 2020, “o incentivo à Arquitetura clássica e tradicional não exclui o uso da maioria dos outros estilos de arquitetura, quando apropriado. (…) Deve-se tomar cuidado, entretanto, para garantir que todos os projetos de edifícios federais tenham respeito [sic] do público em geral por sua beleza e incorporação visual segundo os ideais da América”.

Alvo de inúmeras críticas – pronunciadas, dentre outros, pelos American Institute of Architects (AIA), Society of Architectural Historians, National Trust for Historic Preservation, Docomomo e Architectural Lobby -, a promulgação permaneceu fortemente conduzida por um primeiro decreto anunciado em meados de fevereiro de 2020 – o ‘Making Federal Buildings Beautiful Again’, ainda mais rigoroso quanto às características arquitetônicas a serem desconsideradas em novos projetos, como as adeptas ao Brutalismo e Desconstrutivismo, prioritárias à função ao invés da forma -, mas suavizou proibições. Entretanto, é digno citar que a presente ordem permanece traçando uma ligação direta entre a arquitetura da Grécia Antiga e de Roma com os objetivos democráticos dos países fundadores da América, identificando a arquitetura de meados do século XX como um “desvio desse padrão”, tal qual seu rascunho anterior.

Diretamente relacionado ao momento histórico citado está o Brutalismo, surgido dentre as décadas de 50 e 60, em meio ao movimento de vanguardas artísticas. Segundo o arquiteto Henrique Hoffman, da Painel Arquitetos Associados, o nome decorre do “béton brut”, termo francês que se traduz para “concreto bruto”. “Com a inovação do sistema industrial de produção e fabricação, o concreto ganhou espaço no mercado – que além de barato, podia ser produzido em larga escala e de forma modular”.

Foram os arquitetos Alison e Peter Smithson que, movidos pelo idealismo e pela tecnologia, ainda em 50 deram início a esse estilo, amplamente aplicado em construções de teor social e público, como escolas, hospitais, bibliotecas, prédios governamentais e conjuntos habitacionais.

A simbologia que o Brutalismo carrega, de uma arquitetura feita para servir, imediatista e de apego social, foi muitas vezes enquadrada em sistemas socialistas, que é oposta a política de Trump”, continuou Hoffman.

Um Conselho de Melhoria da Arquitetura Cívica Federal também seria estabelecido por ordem executiva para que as novas construções fossem avaliadas pelo público. “A inserção de leigos [no campo da arquitetura e do urbanismo] é interessante e importante, desde que não se desfaça daqueles que dedicam seus anos de vida e carreira em estudos e embasamentos na área, afinal, eles também pertencem à sociedade que desfruta do meio urbano”, concluiu Hoffman.

“Os prédios públicos federais devem elevar e embelezar os espaços públicos, inspirar o espírito humano, enobrecer os Estados Unidos e inspirar respeito ao público em geral. (…) Eles também devem ser visualmente identificáveis ​​como edifícios cívicos e, conforme o caso, respeitar o patrimônio arquitetônico regional. A arquitetura, com particular atenção para a clássica, que atende aos critérios estabelecidos nesta subseção, é a preferida”, descreve a ordem de Trump.

Em oposição ao que se declara no documento, o AIA veiculou nota dizendo que “se opõe fortemente a estilos uniformes para a arquitetura federal. Ela deve ser projetada para as comunidades específicas a que serve, refletindo os diversos lugares, pensamentos, culturas e climas da nossa nação rica. Os arquitetos estão comprometidos em honrar nosso passado e em refletir nosso progresso futuro, protegendo a liberdade de pensamento e expressão que são essenciais para a democracia”.

De acordo com Robert Ivy, CEO do AIA, conforme veiculado pelo Dezeen, “as comunidades devem ter o direito e a responsabilidade de decidir por si mesmas qual projeto arquitetônico se adapta melhor as suas necessidades. Esperamos trabalhar com o presidente eleito Biden [2021 – 2024] para garantir isso”, acrescentou.