A arquiteta e urbanista Erminia Maricato (Foto: Luiza Castro / reprodução Sul21 / modificada)

Erminia Maricato é indicada para concorrer à Medalha de Ouro da FPAA

A recomendação da arquiteta ao que se considera o principal prêmio da federação foi feita pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB)

A arquiteta e urbanista Erminia Maricato foi indicada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) para a Medalha de Ouro 2020 da federação Pan-americana de Associações de Arquitetos (FPPA). Criada em 1950 e, desde então, conferida a cada quatro anos, por ocasião da realização dos Congressos Pan-Americanos de Arquitetos, a honraria é considerada o maior prêmio da federação, que reconhece grandes personalidades colaboradoras para o engrandecimento da arquitetura e urbanismo no país. O resultado desta edição será divulgado ainda nesse ano.

Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP, Erminia Maricato atua como discente, pesquisadora e ativista brasileira, sendo amplamente reconhecida por seu papel no campo do urbanismo e na luta pela Reforma Urbana no Brasil. A arquiteta é um dos nomes responsáveis pela criação do Ministério das Cidades, extinto em 2019, com o objetivo de combater as desigualdades sociais, transformar as cidades em espaços mais humanizados e ampliar o acesso da população a moradia, saneamento e transporte.

Como forma de retribuição à indicação, a arquiteta publicou uma carta de agradecimento. Leia abaixo na íntegra:

“Em nome dos arquitetos e urbanistas Nivaldo Vieira de Andrade Junior, presidente nacional do IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil – até esta data, e Fernando Tulio Salva Rocha Franco, presidente do IAB/SP até esta data, eu quero agradecer publicamente a todos e todas colegas que compõem o COSU – Conselho Superior do IAB – pela minha indicação ao prêmio máximo – Colar de Ouro – da Federação Pan-americana de Associações de Arquitetos (FPAA) deste ano de 2020. É um lugar comum, mas, de fato, as palavras parecem não bastar para comunicar minha emoção. Não é um fato banal essa escolha por unanimidade (por que eu que sou tão crítica?). Claro que seria muito importante trazer o prêmio para o Brasil e por meio de uma mulher, o que é raro, mas independentemente do resultado final no contexto do conselho latino americano, eu já me sinto agraciada. Preciso escrever algumas palavras, pois penso que essa indicação não se refere apenas à minha pessoa.

Sempre trabalhei em equipe. Além de uns raros livros ou artigos que assinei sozinha, nunca me dei bem com a obra autoral, individual. Não digo isso para diminuir a importância da obra de autor, marcada por talentos e gênios que constroem sínteses que vão muito além do momento que vivemos, mas porque esse prêmio deve ser dividido com muitos coletivos que integrei. Como é impossível nominar cada uma das pessoas que participaram dessa obra coletiva eu quero destacar algumas que foram pioneiras em buscar um novo paradigma para a arquitetura e para o urbanismo no Brasil, orientação que deu rumo à minha vida adulta. A arquitetura e urbanismo modernos tiveram premiados intérpretes no país. Mas a sociedade brasileira, uma das mais desiguais do mundo, nunca viveu plenamente os valores da modernidade como sabemos. Trata-se de pôr as ideias no lugar, na cidade real, onde a modernidade e o atraso se retroalimentam. Trata-se de dar visibilidade à cidade sem Estado, ignorada em suas dimensões, contrariando o urbanismo de inspiração externa ou das “ideias fora do lugar” como lembra nosso mestre Roberto Schwarz sobre a produção ideológica no Brasil.

É com reverência, admiração e gratidão que nomeio a arquiteta Mayumi Watanabe Souza Lima e os arquitetos, meus professores na FAUUSP, nos anos de chumbo, Sergio Ferro, Flavio Império e Rodrigo Lefévre. Todos eles e ela foram brilhantes faróis a descerrar a teia de nuvens que encobria nossas mentes jovens e, de forma generosa, apontar novos e inusitados caminhos.

Tratou-se de uma entrega apaixonada a um novo projeto de sociedade e de relações na produção do ambiente construído. Todos pagaram alto preço pelo sonho mas conquistaram nossa eterna admiração e fincaram raízes como mostra agora nosso histórico Instituto de Arquitetos do Brasil que, em 1963, elaborou a proposta de Reforma Urbana em encontro nacional memorável. Em quase todo o país outras arquitetas e arquitetos sonharam esse mesmo sonho nesse passado recente. Vou nomear apenas dois deles, que já nos deixaram: Zezéu Ribeiro e Clóvis Ilgenfritz. A lei de ATHIS – Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social – (LF 11.888 de 2008), resultado da luta de uma geração que quer mudar a função social do arquiteto no país da forte desigualdade social, racial, urbana e ambiental, nasceu pelas mãos desses dois colegas.

Finalmente, quero agradecer a generosidade e o desprendimento de colegas que trabalharam na elaboração do relatório que acompanha minha candidatura junto à FPAA: Rossela Rosseto, Nadia Somekh, Hannah Arcuschin, Guido Otero, Carina Serra, Margareth Uemura, Pedro Rossi e Paolo Colosso. A todos e todas meu muito obrigada.

Apesar da pandemia, apesar dos ataques à democracia, apesar da agressão à nossa soberania, vamos em frente, tirar do papel e implementar a Lei 11.888 de 2008. Vamos mudar a qualidade do ambiente construído no Brasil e mostrar o quanto a arquitetura e o urbanismo são necessários à vida social!

Setembro de 2020.

Erminia Maricato”