Entrevista – Daniele Pisani, sobre a doação do acervo de Paulo Mendes da Rocha para a Casa da Arquitectura de Matosinhos

Antes mesmo da comunicação oficial pela Casa da Arquitectura de Matosinhos, a notícia sobre a doação do acervo profissional de Paulo Mendes da Rocha para a instituição portuguesa gerou uma onda de insatisfação no Brasil neste mês de setembro a respeito da expatriação dos documentos que testemunham a carreira do arquiteto capixaba - vencedor do Prêmio Pritzker de 2006. Em parte motivada pela nota de descontentamento da FAUUSP, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a respeito do fato que contraria a expectativa da instituição paulista de salvaguardar o acervo do arquiteto. Ao que se seguiram movimentos contrários, de apoio à autonomia do arquiteto em decidir o destino dos documentos armazenados no seu escritório, no centro de São Paulo, e também a publicação de notas pela Casa da Arquitectura nas redes sociais, acenando com certa pressa e imprecisão fragmentos de sua possível política de gestão do acervo, a contento das instituições e público brasileiros. Convidamos, então, o historiador italiano Daniele Pisani, pesquisador da obra de Mendes da Rocha, para dar o seu depoimento sobre o assunto. Na entrevista a seguir, ele fala sobre aspectos como a importância de não se fragmentar um acervo profissional como o de Mendes da Rocha, sobre razões explícitas e subliminares da frustração do meio arquitetônico brasileiro por não ter a posse do conjunto de documentos, sobre a excepcionalidade, ou não, de acervos estarem sediados fora do país de origem do arquiteto e sobre a dificuldade da empreitada a cargo da Casa da Arquitectura, entre outros.

Como pesquisador da obra de Paulo Mendes da Rocha, qual a sua opinião sobre a doação do conjunto do seu acervo profissional para a Casa da Arquitectura, de Portugal?

Daniele Pisani A verdade é que não conversei com ele a respeito, então, não sei quais foram as suas razões. Tenho hipóteses. Antes de mais nada, não vamos considerar a escolha de Paulo Mendes da Rocha como uma pura e simples ação simbólica contra o atual governo do Brasil, como chegou a aparecer na imprensa brasileira: não posso excluir que tenha algo nesse sentido, mas estou certo de que esse não seja o aspecto fundamental. O governo (tomara) vai acabar daqui a pouco, e toda forma um belo dia vai acabar; não estamos, nesse momento, em situação comparável àquela da Biblioteca Warburg em 1933, quando precisou fugir do país de origem e mudar para Londres. Agora é diferente. A decisão sobre o destino do acervo envolve também e sobretudo um futuro longínquo. E o Paulo é inteligente demais para ter tomado uma atitude determinada predominantemente pelo humor e a emotividade da atualidade.

Queria também sublinhar um aspecto decisivo da doação. Eu sempre disse para ele, não sei se isso influenciou a sua decisão ou não, que a escolha deveria ser: deixar tudo para uma única instituição. Eu me preocupei nos últimos anos com a tendência do Paulo de eliminar partes do acervo consideradas não muito relevantes sob o seu ponto de vista, assim como me preocupei com a sua outra tendência de dar partes do acervo para diferentes instituições como o MoMA, a própria Casa da Arquitectura ou o Beaubourg. Sempre falei para ele não fazer isso. Deixar tudo para uma única instituição facilitaria futuras pesquisas sobre a obra. Desse ponto de vista, fiquei satisfeito com o ocorrido. 

 

“O Paulo é um arquiteto brasileiro, mas a sua obra pertence ao mundo. “Estamos aqui para frutificar”, ele sempre fala. E desse ponto de vista o lugar da sede do acervo tanto faz”

 

É comum que os acervos dos arquitetos estejam sediados fora do seu país de origem?

DP Não é nada excepcional. O Getty Center, de Los Angeles, possui apenas acervos norte-americanos? Ou seja, do meu ponto de vista a decisão dele incomoda muito porque pressupõe o fim da grande “construção” da arquitetura brasileira: como algo autônomo e independente – nacional. Trata-se de uma construção que foi erigida na época de Getúlio Vargas e que foi articulada e ampliada pelo menos até a fundação de Brasília. E que nunca foi criticada ou questionada explicitamente, e portanto – ainda que tenha perdido a sua razão de ser – ainda permanece nos bastidores como algo subliminar. Só que foi uma construção, cujo objetivo era a participação da arquitetura no “nation building”: coisa do passado, da época em que o SPHAN/IPHAN decidia quais obras antigas mereciam ser preservadas, e qual passado – pelo contrário – deveria ser totalmente eliminado. Eu acho que a escolha do Paulo descortina o caráter fictício desse mito da arquitetura nacional brasileira. O Paulo é um arquiteto brasileiro, mas a sua obra pertence ao mundo. “Estamos aqui para frutificar”, ele sempre fala. E desse ponto de vista o lugar da sede do acervo tanto faz.

 

Qual o significado do acervo do Paulo ter ido para Portugal? Pensando no pesquisador brasileiro, mas também no estrangeiro.

DP O pesquisador estrangeiro deverá fazer como qualquer outro: viajar. Alguns serão favorecidos, outros desfavorecidos. Para uma pessoa que mora no Butantã será mais complicado, obviamente, ir para Portugal em vez da FAUUSP, mas para um pesquisador francês será mais fácil ir para Portugal do que para a FAU; a questão é que, voltando às respostas precedentes, a obra do Paulo não pertence ao Brasil ou a São Paulo. Ainda no Brasil haveria outras instituições, além da FAU, para receber o acervo. Mas quem teria a capacidade não apenas de guardar em galpões, e sim de organizar e disponibilizar com a máxima qualidade esse material? O Instituto Moreira Salles, talvez? Me parece que eles seriam capazes de fazer isso, me parece também que tenham os meios necessários. Porém, não se ocupam muito de arquitetura. A questão da FAU naturalmente merece um cuidado particular, pois a relação do Paulo com a FAUUSP é especial: sempre foi muito forte (apesar dos acontecimentos de 1969). Mas se a obra dele pertence ao mundo e não só ao Brasil, isso vale ainda mais em relação a São Paulo. Não nego que seja difícil pensar na obra do Paulo fora da FAU para sempre. Mas não pela suposta existência de uma suposta “Escola Paulista”. Todo mundo, acredito, pensava que fosse “óbvio” o Paulo doar o seu acervo para a FAU. O problema é que provavelmente a FAU está fazendo o seu melhor, mas o seu melhor não é o suficiente nesse momento. Para um aluno de graduação ter acesso, na biblioteca da FAU, à sessão aonde existem ainda inteiros acervos não arquivados – eu fiz consultas em que me mostraram, muito generosamente, pilhas de documentos jamais manipulados por causa de falta de dinheiro e de funcionários, mas provavelmente em outros momentos e situações se tratem de documentos “inacessíveis” -, é preciso aguardar a decisão de um comitê. Em suma, eu não acho positivo, por princípio, que isso tudo vá para uma instituição estrangeira, mas acho que em primeiro lugar seria preciso admitir que a preservação de um acervo de tal valor no Brasil de hoje não é questão simples. Talvez tenhamos que começar a pensar que Paulo Mendes da Rocha não tinha como ter certeza de conseguir preservar o seu acervo deixando-o no seu país.

 

Mas qual a sua opinião sobre a escolha da Casa da Arquitectura?

DP A minha resposta neste momento é: vamos ver. Devemos em primeiro lugar saber qual será a política da Casa da Arquitectura. Em dois sentidos ao menos. Em primeiro lugar de acessibilidade. O Getty, por exemplo, concede bolsas aos pesquisadores para irem lá. Claro que é uma coisa de mundo rico, mas é bastante útil. Vamos ver se a Casa da Arquitectura fará algo disso. Está tudo nas mãos deles. Devem demonstrar que sabem fazer aquilo que, aparentemente, nenhuma instituição brasileira poderia fazer agora. E em segundo lugar ainda não sabemos nada sobre a futura organização do arquivo. Serão implementadas pesquisas? Como vai ser organizado? Quem vai fazê-lo, de que forma, com qual precisão e qualidade? O trabalho de arquivamento não é algo banal. Os danos que podem ser feitos no arquivamento são visíveis (na verdade infelizmente só para poucos) em um caso como o do Instituto Lina Bo Bardi, em que há obras assinaladas equivocadamente: eu mesmo, alguns anos atrás, descobri por exemplo – em relação a um croquis de Lina – a sua identificação como relativo ao MASP, sem ninguém parecer ter considerado que no mesmo croquis se fala de “neve” e de “gelo”. Será assim também com o Paulo Mendes da Rocha? Tomara que não.

Arquivar não é um trabalho simples. Pressupõe dinheiro e competências que não tenho certeza de que a FAU, nesse momento de cortes de verba, possa assumir. Também a política da Casa da Arquitectura, contudo, não garante o sucesso. Se trata de uma instituição recente e, por consequência, não podemos saber exatamente o que esperar. O meu medo? Sérgio Buarque da Holanda, em seu Raízes do Brasil, identificava no “homen cordial” a peculiaridade – e a fonte dos problemas – que o Brasil herdou de Portugal. Eu espero que a Casa da Arquitectura fique longe de qualquer forma de “cordialidade”: que não envolva os amigos ou os amigos dos amigos, mas as pessoas mais competentes. Desse ponto de vista, outras instituições mais prestigiadas dariam maiores garantias. A Casa da Arquitectura não dá nenhuma. Será capaz de mostrar que tem condição de aproveitar o cheque em branco que recebeu? Tenho dúvidas, confesso, mas espero estar enganado.

Não sabemos, vamos ver. Se o êxito não será o desejado, vamos todos juntos criticar: mas depois, baseado em eventuais (porém verdadeiras) omissões ou falhas. O que me sinto obrigado a reprovar desde já, porém, é a atitude de quem critica a escolha do Paulo como se fosse um ato egoísta. Se existe alguém que deve estar aflito pela impossibilidade – na atual situação – de deixar o seu acervo para a sua FAU, confiando que ela tenha condição de cuidar dele, é o próprio Paulo. Eu não vejo malandragem, eu vejo drama.

 

Qual a importância do acervo vir a circular em outros meios, que não apenas o brasileiro?

DP De certo ponto de vista, repito, a localização do acervo é indiferente. Aliás, cada pesquisa é um cruzamento de ideias, de lugares, de questões, de figuras e sim, também de acervos. É o sentido do meu livro sobre o Artigas [A cidade é uma casa, A casa é uma cidade], mostrando que a frase “A cidade como a casa, a casa como a cidade” vem de muito longe, que o Brasil não é uma ilha, que nem uma ilha é uma ilha, como falava John Donne (na verdade, como sabido, ele falava: No man is an Island). No final das contas, quem determinou o sucesso global da arquitetura brasileira foi antes de mais nada a politica cultural dos governos dos Estados Unidos logo antes e durante a Segunda Guerra Mundial. O Brasil está ligado a outros lugares e a obra do Paulo é brasileira e é mundial.

 

“As pessoas têm todo o direito de discordar, sem dúvida, mas não têm o direito de criticar a decisão dele, qualquer que for. Isso é fundamental. É preciso manter o devido respeito diante da dignidade da sua conduta de vida”

 

Ele sempre fala que quando algo é criado passa a ser de domínio público.

DP Isso é a cultura: não pertence a ninguém, está lá à disposição para quem sabe dizer algo através do que está lá. Não tem segredos, não precisa de chaves misteriosas. Em tudo há uma respiração de coisas que entram, saem, ficam. Outro meu livro sobre o Paulo, aquele de Veneza [Uma genealogia da imaginação de Paulo Mendes da Rocha]. O Paulo não deveria pensar em Veneza, porque Veneza está na Itália?

Claro, aqui estamos falando de instituições e não podemos fazer confusão. Vivemos em um mundo global cuja homogeneidade acontece só em alguns patamares. O “patrimônio cultural” mostra isso tudo muito bem: os acervos mais importantes do Ocidente (e não só) acabaram em posse de poucas instituições, localizadas todas nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa. É mais ou menos um espelho do poder no mundo. Mas a Casa da Arquitectura e Portugal são outra coisa: ou queremos falar de uma nova forma de “conquista” portuguesa do Brasil? Não é ridículo? A Casa da Arquitectura é uma recém-criada instituição de um país pequeno, que tem tudo menos tendências hegemônicas no campo cultural (e se tivesse, de qualquer forma, não teria como impô-las). Ainda bem, eu diria, que o acervo do Paulo foi para lá e não para um dos habituais conhecidos. Não será mesmo que, nesse sentido, a escolha do Paulo seja programática e política? De toda forma, não é nada óbvia. Ou achamos que o MoMA teria recusado a receber a mesma doação? 

 

E é importante lembrar a localização prioritária das construções projetadas pelo Paulo: São Paulo.

DP São Paulo sempre será o centro porque a grande maioria da obra do Paulo está no Estado de São Paulo e a maioria dela se encontra na cidade de São Paulo. Existirão dois centros a partir de agora: o lugar das obras e o lugar do acervo. Azar do pesquisador. Ou talvez nem azar do pesquisador. É assim que acontece sempre e para todos: o japonês que estuda Chandigarh deve visitar a Foundation Le Corbusier em Paris e também a cidade da Índia. Eu estou escrevendo sobre o Aldo Rossi e as cartas que estou pesquisando estão em Los Angeles. Eu entendo quem percebe a ida do acervo do Paulo como uma enorme perda para São Paulo e para o Brasil: é assim mesmo, só que antes de se revoltarem com o arquiteto seria melhor tentarem entender o motivo pelo qual isso aconteceu. Além do mais, recuso firmemente a ideia de que tenha sido subtraída a oportunidade da pesquisa sobre o Paulo no Brasil. Na verdade o Paulo já é alvo de pesquisas mais de estrangeiros do que de brasileiros: sempre foi. Mas sobretudo, o Paulo tem o direito de deixar o que ele fez para quem quiser. As pessoas têm todo o direito de discordar, sem dúvida, mas não têm o direito de criticar a decisão dele, qualquer que for. Isso é fundamental. É preciso manter o devido respeito diante da dignidade da sua conduta de vida. (Por Evelise Grunow)

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