CAU/BR: recortes da III Conferência de Arquitetura e Urbanismo

Realizados nos dias 4, 8, 10 e 15 de dezembro pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), os encontros promoveram discussões e reflexões acerca do papel do arquiteto e urbanista na sociedade e comemoraram o Dia Nacional do Arquiteto e Urbanista (15), bem como os dez anos de criação do CAU. O evento contou com ampla programação e com eventos pontuais de destaque, como a palestra magna de Ermínia Maricato, o lançamento do documentário “Habitação Social: uma questão de Saúde Pública”, a divulgação da "Carta de Brasília", e mais

 

A III Conferência de Arquitetura e Urbanismo, realizada nos últimos dias 4, 8, 10 e 15 de dezembro pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), reafirmou o compromisso dos arquitetos e urbanistas com a vida mediante uma sequência de encontros pautados na difusão de conhecimento, panoramas nacionais e consequente reflexão acerca dos papéis fundamentais da classe. Durante os quatro dias, destinados também à comemoração do Dia do Arquiteto e Urbanista (15/12) e dos dez anos de criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), a partir da Lei 12.378/2010, foram mais de 4 mil visualizações em palestras, apresentações e homenagens que compuseram a programação transmitida ao vivo.

Com início na primeira sexta-feira de dezembro (4), a III Conferência teve como tema central “Arquitetura e Urbanismo – mais do que nunca, um compromisso com a vida”, guiando-se pelo objetivo de ampliar o diálogo dos arquitetos e urbanistas junto da sociedade e fomentar novas visões. “Se por um lado a pandemia da Covid-19 nos obrigou a realizar a 3ª edição da Conferência de forma virtual, por outro lado ampliou sua audiência”, afirmou Luciano Guimarães, Presidente do CAU/BR. No total, mais 1.500 pessoas acompanharam a abertura, que também contou com a apresentação do jornalista Paulo Markun.

Na ocasião, Guimarães lembrou do compromisso histórico da categoria com a construção de cidades saudáveis e moradias dignas, potencializado pelo agravante pandêmico. “Neste momento, os arquitetos e urbanistas veem seu papel social ressaltado. Vamos ouvir e debater as suas propostas”.

Durante todo o evento, fez-se notória a massiva atuação do Conselho em prol à classe profissional. Sabe-se que o Brasil tem, hoje, mais de 200 mil arquitetos e urbanistas atuando em serviços de projetos, obras, meio ambiente, segurança do trabalho, ensino, gestão, laudos, avaliações e outros. Para unir e fazer expressiva tal comunidade profissional, o CAU, ao longo de seus dez anos de história, foi responsável pela realização de mais de 1,6 milhão de atividades – número que cresce de maneira exponencial e sólida. Identifica-se, portanto, tamanho esforço para maior garantia do exercício da profissão.

Além da série de importantes normas e processos criados no decorrer de tais ações, destacam-se aqui as inúmeras iniciativas que buscam pela igualdade de gênero no meio arquitetônico. No próprio dia 4 de dezembro, a Comissão Temporária de Política para a Equidade de Gênero (CTEG) do CAU/BR lançou um vídeo em homenagem às mulheres, com o objetivo de incentivar a redução das disparidades entre as parcelas masculina e feminina e florescer a convivência mútua nos espaços públicos e privados das cidades, bem como no campo do trabalho.

A ideia é transmitir a importância de cidades pensadas sem distinção e atentar para a vivência feminina em tais espaços. O vídeo foi filmado em Brasília, Distrito Federal, e revela a realidade enfrentada por mulheres na capital do país – que, claramente, não se restringem a tal localidade.

 

 

A pauta faz lembrar que a CTEG, ainda no último 31 de julho, durante a 103ª Plenária Ordinária, divulgou o 1º Diagnóstico de “Gênero na Arquitetura e Urbanismo”. Realizado on-line, entre julho de 2019 a fevereiro de 2020, a pesquisa pública surgiu com o objetivo de entender e equiparar o panorama de trabalho entre homens e mulheres no ramo da Arquitetura e Urbanismo brasileiro, além de subsidiar a elaboração da “Política do CAU para a Equidade de Gênero”. Dentre os apontamentos da pesquisa, observa-se que, atualmente, a força de trabalho arquitetônica ativa é majoritariamente feminina, correspondendo a 64% do montante.

Tal expressividade também tem aumentado na representação política da classe, assim como pontuou a Conselheira do CAU/BR, Nadia Somekh, também coordenadora CTEG. “Estamos comemorando todos os pioneiros do CAU, mas é necessário destacar que houve uma transformação entre os conselheiros, valorizando a questão de gênero”. A arquiteta relembra que, nas últimas Eleições do CAU, 51% dos conselheiros eleitos são mulheres. “Pela primeira vez estamos dividindo com os homens a contribuição à nossa profissão. Isso faz parte de um longo trabalho de sensibilização”.

Ainda durante o evento, foi lançado o edital do Concurso Público de abrangência nacional para a escolha de propostas de ações de valorização da Arquitetura e Urbanismo focados nos anos iniciais de formação do cidadão, para se tornarem referências em educação sobre Arquitetura e Urbanismo nas escolas de todo o país. As propostas vencedoras integrarão o programa CAU Educa de educação continuada a longo prazo, que visa a construção de uma consciência urbana e ambiental a partir da educação infantil.

 

 

O edital foi lançado no hotsite do CAU Educa, que traz todas as informações da seleção pública e do trabalho realizado pela CPUA-CAU/BR desde 2018. Sabe-se que as propostas vencedoras serão divulgadas durante o 27º Congresso Mundial de Arquitetos (UIA2021RIO), previsto para julho do ano que vem, no Rio de Janeiro.

Destaques III Conferência de Arquitetura e Urbanismo

Sem dúvida a extensa programação da terceira edição do evento é, no todo, especial. No entanto, destacam-se aqui alguns recortes como principais momentos dos últimos encontros, a começar pela exibição avant-premiére, no dia da abertura da Conferência (4), do documentário “Habitação Social: uma questão de Saúde Pública”, produzido por iniciativa da Comissão de Política Profissional (CPP) do CAU/BR. Com foco nos problemas enfrentados por famílias que vivem em assentamentos precários, situação agravada pela pandemia da Covid-19, o filme apresenta possibilidades de transformação desse quadro, a partir do reconhecimento do papel do arquiteto e urbanista e da valorização de seus conhecimentos e habilidades.

Se o Brasil tem quase 15 milhões de moradias precárias (dados da Fundação João Pinheiro, de 2014), é certo que há pelo menos 45 milhões de brasileiros vivendo em locais cujas condições facilitam a contaminação por todo tipo de vírus. Espaços onde é impossível obedecer às determinações das autoridades de saúde e cumprir uma quarentena aceitável”, alerta um dos trechos. O vídeo revela a história de pessoas que vivem sem segurança fundiária e infraestrutura sanitária em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador.

Além de estar disponível a seguir, por reprodução no canal do CAU/BR no YouTube, o documentário será exibido ainda hoje, 16 de dezembro, às 22h45, na TV Cultura de São Paulo – canal aberto – como parte das comemorações do Dia Nacional do Arquiteto e Urbanista, comemorado todo 15 de dezembro.

 

 

Os destaques seguem para a palestra magna proferida pela arquiteta Ermínia Maricato. Realizado em 8 de dezembro com o tema ‘Arquitetura e Urbanismo: mais do que nunca um compromisso com a vida’ – condizente ao eixo central desta edição da Conferência -, o encontro elencou especificamente desafios para arquitetos e urbanistas e para o futuro das cidades brasileiras.

Nós vivemos em uma sociedade que a exclusão é histórica e estrutural. Vocês acham que planos diretores mudam alguma coisa? A maior parte do ambiente urbano é autoconstruído, não segue essa legislação. Nós temos leis avançadas para uma sociedade atrasada (…). É um desigual combinado, uma modernização conservadora, um desenvolvimento das formas atrasadas”, provocou.

Ermínia mostrou que as raízes dessa desigualdade urbana cresceram desde os anos 1960, quando o Brasil passou a ser predominantemente urbano. Para ela, é necessário reconhecer a existência de uma disputa de interesses entre quem prioriza o valor de uso ou o valor de troca na sociedade e fazer os arquitetos e urbanistas ocuparem mais espaços na sociedade para erradicar o analfabetismo urbanístico. “Precisamos valorizar a extensão nas universidades, isso significa engajar os nossos estudantes com os problemas reais da sociedade. Precisamos fazer um balanço das experiências brasileiras bem-sucedidas de urbanização de favelas, produção coletiva de moradias, assistência técnica”.

A arquiteta destaca que o problema de moradias não se resolve somente com novas unidades habitacionais, mas com melhorias efetivas nas existentes e nas vindouras. Para ela, ainda é necessário enfrentar a centralização excessiva dos recursos públicos.

Nós temos condições de fazer um movimento muito forte no Brasil e recuperar o direito à Arquitetura, o direito à cidade, e garantir o direito à vida. “Vamos redemocratizar esse país passando pela democracia urbana”, finalizou.

Ermínia possui uma longa história de contribuições ao país: defendeu a Reforma Urbana na Constituinte de 1988; ajudou a criar o Ministério das Cidades, sendo sua primeira secretária-executiva; fundou o Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Universidade de São Paulo (USP); e foi secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano do governo de São Paulo de 1989 a 1992. Dentre suas inúmeras premiações, a arquiteta foi laureada, ainda neste ano, com a Medalha de Ouro da Federação Pan-Americana de Associações de Arquitetos (FPAA).

Por fim, marcando o Dia Nacional do Arquiteto e Urbanista 2020, o CAU/BR encerrou a III Conferência de Arquitetura e Urbanismo com o lançamento da “Carta de Brasília”, documento que reúne um conjunto de 51 propostas para orientar estratégias, projetos e ações dos próximos três anos do CAU/BR e dos CAU/UF.

Em meio ao flagelo que vivemos com a pandemia, a Carta é sobretudo a reafirmação de nosso respeito e confiança na ciência e da crença de que o planejamento é o método de usufruto do conhecimento humano. É também um sinal de esperança de que o bom senso venha a prevalecer nas decisões das autoridades que tem o dever público, moral e ético de zelarem por nossas vidas”, afirmou o presidente do CAU/BR, Luciano Guimarães.

Durante o último encontro, Guimarães enfatizou o compromisso histórico da categoria com a construção de cidades saudáveis e moradias dignas, temas pautados pela Carta em propostas como:

  • Incentivar a recuperação do direito à arquitetura e à cidade e assim contribuir para a garantia ao direito à vida;
  • Valorizar a extensão nas universidades, incentivando o engajamento dos estudantes nos reais problemas da sociedade brasileira;
  • Apoiar o fim da centralização excessiva dos recursos públicos e incentivar que políticas urbanas sejam feitas no local onde mora a população;
  • Incentivar a restauração e valorização dos Centros Históricos e fortalecimento dos territórios de povos tradicionais e de interesse cultural;
  • Valorizar e apoiar a Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS), aliando formas possíveis de empreender e inovar tecnologicamente;
  • Fazer Interlocução com as secretarias da indústria nos diversos níveis do executivo, para estimular a formação da rede BIM de governos latino-americanos;
  • Desenvolver estratégias para possibilitar a atuação de escritórios brasileiros de Arquitetura e Urbanismo em outros países;
  • Promover a igualdade entre homens e mulheres em todas as instâncias organizacionais do CAU e em seu relacionamento com a sociedade;

Leia a “Carta de Brasília” na íntegra.

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