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Cancelado Parque das Flores na avenida Paulista

Também denominado Boulevard da Diversidade, o projeto de requalificação da área foi oficialmente revogado na última semana, após cerca de um ano e meio suspenso por ações judiciais que atendiam aos questionamentos de associações civis

Na última semana, após indícios anteriores de declínio, a São Paulo Capital da Diversidade (SPDC) notificou a Prefeitura de São Paulo acerca da oficial desistência de construir um túnel de 100 metros de extensão na rua São Carlos do Pinhal, no bairro Bela Vista, em São Paulo, por impossibilidade de sustentar a suspensão temporária de obras decorrente de embargo judicial.

O recurso viário possibilitaria a implantação do Boulevard da Diversidade, ou Parque das Flores, um novo calçadão implantado sobre trechos da Alameda das Flores e entre a rua Itapeva e Alameda Rio Claro, resultado que interligaria a avenida Paulista e a entrada do complexo luxuoso de uso misto Cidade Matarazzo, situado na área tombada do antigo Hospital Humberto I, em construção desde 2016 e referência por congregar inúmeros projetos de grandes nomes da arquitetura nacional e mundial, como do francês Jean Nouvel (Pritzker 2008).

 

© Luciano Veronezi / Via Folha de São Paulo

 

A partir do plantio de, aproximadamente, 480 novas árvores, esse seria um projeto urbano de requalificação com cerca de dez mil metros quadrados, abrangendo uma passagem de pedestres que passaria a funcionar como espaço de convivência receptivo a atrações culturais e intervenções artísticas, dotado de mobiliários e recursos, como iluminação, bancos, internet gratuita, quiosques, todos à disposição pública. A proposta necessitaria, entretanto, redirecionar o tráfego de veículos de uma parte da rua São Carlos do Pinhal, adjacente ao Cidade Matarazzo, para o referido túnel.

 

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A benfeitoria, que seria integralmente custeada (R$ 130 milhões) pela iniciativa privada, o grupo Allard, igualmente responsabilizado pela manutenção da área durante mais 30 anos, declinou após não conseguir sustentar o projeto, suspenso desde dezembro de 2019, por intervenção da Justiça. De acordo com Alex Allard, presidente do grupo e fundador da SPDC, em entrevista concedia à Folha de São Paulo, no último novembro, o “cronograma previa o início das obras no fim deste ano [2020], na pior das hipóteses. Não tenho como manter a implantação do parque se não houver uma decisão até fevereiro ou março do ano que vem, já considerando todas as possibilidades. Se até lá não conseguirmos levantar o embargo, a cidade perderá o parque, infelizmente”.

O cerne do impasse decorreu das opiniões contrárias à implantação do túnel, encabeçadas por duas associações civis – a Associação de Moradores do Bairro da Consolação e Adjacências (Amacon) e a Associação União de Moradores Bela Vista & Bixiga (Amorbela). Segundo elas, houve falta de transparência por parte da prefeitura ao viabilizar o chamamento público para o projeto, restrito trâmite do processo administrativo, além de o túnel ser considerado prejudicial aos moradores da região e ter sido aprovado em desacordo á legislação, favorecendo um empreendimento privado, o Cidade Matarazzo.

De acordo com a arquiteta e urbanista Adriana Levisky, autora do projeto Parque das Flores, em entrevista concedida à Casa Vogue, no mesmo novembro, era de suma importância desvincular a associação da proposta urbana com o empreendimento original do Cidade Matarazzo.

São iniciativas independentes. O boulevard não estava previsto e sequer fazia parte das contrapartidas combinadas entre o Cidade Matarazzo e a Prefeitura. É um investimento extra de R$ 130 milhões que devemos encarar como um presente para a cidade de São Paulo, fruto de uma reflexão para se discutir a cidade contemporânea, de uma maneira mais inclusiva, mais verde, cultural e acessível, requalificando um espaço público que hoje é voltado exclusivamente para o automóvel”.

 

 

Igualmente defensor do que seria o novo parque, Benedito Abbud, arquiteto autor do projeto paisagístico da área, afirmara na mesma ocasião que a perda seria imensa, caso revogada a proposta. “Os maiores centros urbanos estão deixando de ser ‘rodoviaristas’ e se tornando cidades para pessoas. Existe todo um esforço mundial de tornar as cidades novamente amigáveis para o cidadão, com a aproximação da natureza. Acredito que esse nosso projeto poderia se tornar, inclusive, um modelo para diversas cidades brasileiras.”

Porém, de acordo com Raphaela Galletti, advogada das associações, na mesma matéria noticiada pela Casa Vogue, elas “não questionam nem flores, nem o próprio projeto em si”, mas dizem que “há muitos esclarecimentos que a Prefeitura precisa expor aos munícipes; como, por exemplo, se o eventual túnel terá sua manutenção e conservação entregue à cidade logo em sua inauguração, e que o termo prevê a exploração do boulevard e da alameda Rio Claro por 30 anos, entre outros fatos ainda tratados em nuvens de confidencialidade”. Galletti também pontuou, na ocasião, que “a sociedade civil não conhece o plano viário para o período de realização das obras, nem os estudos de trânsito e de impacto de vizinhança durante e após a obra”.

Em contraponto, o advogado Rodrigo Duarte, em defesa do Parque das Flores, afirmou terem havido “no mínimo cinco audiências com a população”, e continuou: “Eles alegam, de forma genérica, que o boulevard teria por objetivo beneficiar o empreendimento, permitindo seu acesso à avenida Paulista. No nosso entendimento as alegações dessas associações são frágeis e, acima de tudo, vão contra o interesse da imensa maioria da população paulistana”. Corroborando com Rodrigo Duarte, a própria Prefeitura já havia se retratado dizendo que a obra seria de interesse público e que passara por análises de todos os departamentos e órgãos competentes.

Passado quase um ano e meio de processo aberto da liminar, a associação finalizou:  “Após cinco anos de trabalho e investimentos num projeto que beneficiaria toda a população de São Paulo, sem custos ao erário”, a SPDC foi obrigada a dar início formal ao processo de rescisão”.

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