Croqui da instalação do brasileiro Tulio Dek no Jardim de Torel, em Lisboa (Imagem: Divulgação)

Incêndio em Portugal adia mostra do brasileiro Tulio Dek

O fato teria atingindo os 500 troncos de árvores, já remanescentes de anteriores incêndios no país, que comporiam a intervenção do artista no Jardim do Torel, em Lisboa

Um incêndio florestal ocorrido no último sábado (12/9), em Oliveira de Frades e Serra dos Candeeiros, próximo a Lisboa, sucumbiu os 500 troncos de árvores que seguiriam ainda esta semana para composição da mostra produzida pelo artista brasileiro Tulio Dek, no Jardim do Torel. Cedidos pelo governo do português, os troncos já eram oriundos de incêndios anteriores no país.

Consternados com a amplitude dos incêndios, que desde julho assolam a região central de Portugal, os dirigentes da Junta de Freguesia de Santo Antonio, administradora do Jardim do Torel, prorrogaram a abertura da exposição para o próximo dia 25 de outubro e visitação até 25 de novembro. A mostra também contará com um tour virtual para ser experienciada globalmente.

Dek comenta o fato: “Fiquei muito triste ao saber do incêndio. Por outro lado, vejo isso como um sinal de que estamos no caminho certo, pois é exatamente este o tema abordado. A vida segue imitando a arte. Acho que, quando nos propomos a fazer grandes projetos com o objetivo de mudar o mundo, ele próprio também pede uma grande mudança dentro de nós. Remarcada para 25 de outubro, tenho certeza de que a intervenção terá um impacto ainda maior”.

A obra temporária reflete preocupações socioambientais e registra-se como primeira intervenção pública que o país recebe – deste porte e dentro de um parque urbano. De acordo com o artista, a mostra vai na contramão da atual relação massiva com as mídias sociais e alerta para a importância da preservação do planeta:

Os protestos são, em sua maioria, feitos pela internet, e acabam por terem um alcance efêmero. Ao caminhar por entre os troncos calcinados no Parque do Torel, as pessoas vão sentir e imaginar o que é uma floresta devastada. Vão lidar com uma destruição real na sua frente. (…) Se não protegermos a natureza, vamos proteger quem? O que está acontecendo no mundo?”, indaga Dek.

Disposta nos três planos do parque, a instalação utiliza-se dos percursos e inicia-se pela cota mais alta. Ao longo da primeira área verde, o artista instalou 500 tocos de árvores, oriundos de bosques queimados e cedidos pelo governo de Portugal, que variam altura entre 50 e 85 centímetros, e diâmetros de 20 a 50 centímetros. Em continuação, o trajeto conduz ao patamar abaixo, onde uma fonte jorra água em coloração preta, como alusão a vazamentos de petróleo. Logo atrás da fonte, o letreiro luminoso azul anuncia o título da instalação: “I can’t stop these tears from falling”.

Ainda, será implantada uma cabana de madeira, grafitada pelo artista, como símbolo de um local de acolhimento, onde estarão sacos com sementes de nove árvores nativas de Portugal, disponíveis para serem levadas pelo público.

Rui Afonso Santos, curador do Museu Nacional de Arte Contemporânea de Lisboa, afirma que “é muito importante a intervenção de Tulio Dek no Jardim do Torel, única no seu gênero, e, pela sua qualidade, é extremamente rara no panorama artístico português”. Ele salienta que “nunca foram feitas intervenções nesta escala e com esta natureza em Portugal”, sobretudo preocupando-se com questões ecologistas e humanistas. Afonso Santos observa ainda que “este contraste entre o natural e o edênico que o próprio jardim-miradouro do Torel recria, [juntamente à] atual cultura do consumo e do desperdício, consciencializará os visitantes para a necessidade de adotar condutas responsáveis”.

 

 

Tulio Dek está fazendo residência artística em Portugal desde o início de 2019, e se dedica a este projeto a mais de um ano. Previsto inicialmente para abril, a abertura foi adiada por conta da pandemia do Covid-19. O artista afirma a intenção de “levar esta instalação para parques brasileiros”.

O projeto conta com o apoio do governo português, da Junta de Freguesia de Santo Antônio, em Lisboa, presidida por Vasco Morgado (Lisboa, 1974), e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que irá propor aos seus estudantes a visitação à instalação e, a partir dela, o desenvolvimento de projetos.

Instalação Tulio Dek | Lisboa
Local
Jardim do Torel, Lisboa
Data 25 de outubro a 25 de novembro de 2020
Acesso gratuito