Adélia Borges recebe título de Doutora Honoris Causa pela Unesp

A curadora, jornalista e crítica atuante na área do design é a primeira mulher a receber tal honraria. Simbolicamente, a cerimônia de outorga ocorreu nesta segunda-feira (8), no Dia Internacional da Mulher, em transmissão ao vivo pelo canal da TV Unesp no YouTube. Confira!

Adélia Borges © Mariana Chama

 

O Conselho Universitário da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) concedeu o título de Doutora Honoris Causa para Adélia Borges, curadora, jornalista e crítica atuante na área do design, durante cerimônia solene de entrega ocorrida nesta segunda-feira (8), Dia Internacional da Mulher, em transmissão ao vivo pelo canal da TV Unesp no YouTube.

Pela iniciativa do Departamento de Design da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), do campus de Bauru, a concessão foi justificada “por sua atuação como crítica e curadora com relevante contribuição para a pesquisa, divulgação e valorização do Design Brasileiro no cenário nacional e internacional, demonstrando profundo conhecimento da área e abrangente visão sociopolítica e cultural”.

Até então a instituição havia outorgado 16 títulos de Doutor Honoris Causa, entre eles para o geógrafo Milton Santos, o economista Celso Furtado, o crítico literário Antonio Candido, o engenheiro aeronáutico Ozires Silva, o indigenista Orlando Villas Bôas, o advogado Plínio Soares de Arruda Sampaio, o escritor Ignacio de Loyola Brandão, além de dois Prêmios Nobel ao norte-americano David Gross (Física) e ao argentino Adolfo Pérez Esquivel (Nobel da Paz). Assim sendo, Adélia figura como a primeira mulher a receber tal distinção.

A diretora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação de Bauru, Professora Doutora Fernanda Henriques, afirma que a nomeação como Honoris Causa é motivo de orgulho para a FAAC. “Adélia congrega com excelência nossas áreas de conhecimento, como ciências sociais aplicadas, comunicação social e artes. Jornalista, contribuiu para o reconhecimento do Design Brasileiro, a partir da valorização da cultura e saberes locais, aproximando a área com o artesanato”, destaca.

Fico extremamente feliz com esse reconhecimento, que considero extensivo a toda a área do design. Essa atividade impacta profundamente a vida e o cotidiano de todos, mas ainda é pouco conhecida e debatida pela sociedade em geral em nosso país. Um motivo a mais de alegria é o fato de estar numa lista com personalidades que admiro demais que haviam recebido a distinção em anos anteriores, escolhidos em processos de concessão muito criteriosos por parte da Unesp, passando por sucessivos filtros”, pontuou Adélia Borges.

O apurado processo de concessão e seus pareceres

Como em todas as universidades públicas, o processo de concessão do título de Doutora Honoris Causa foi longo e criterioso. Adélia Borges não possuía vínculo anterior com a Unesp, e visitou o campus de Bauru em março de 2019 para uma palestra aos estudantes. A partir desse encontro, a professora doutora Mônica Moura sugeriu a proposição do título e passou a elaborar um amplo dossiê para a candidatura.

Em junho de 2019, Mônica encaminhou ofício ao Departamento de Design argumentando que Adélia “divulgou, valorizou e colaborou com a consolidação do design brasileiro, no cenário nacional e internacional” e se tornou “uma das vozes mais respeitadas da área”.

Segundo a Mônica, “Adélia Borges é uma pessoa com amplitude de pensamento ímpar, como visão e conhecimento profundo a respeito do design brasileiro. Sua experiência na grande imprensa conferiu-lhe uma visão política e social para pensar o design. Ela tem a peculiaridade de entender, refletir, comunicar e exercer o design em sua essência maior, sem fronteiras e sem preconceitos, trafegando entre instituições, comunidades artesanais e nos meios culturais, educacionais, profissionais e institucionais, no caminho entre profissionais consagrados e os jovens profissionais, entre a academia e o mercado de trabalho, entre o pensamento e a ação”. Sabe-se que o ofício foi acompanhado por dezenas de depoimentos e cartas em defesa da concessão do título.

Em reunião, o Conselho do Departamento de Design da FAAC, composto por chefe e vice chefe, cinco professores, um representante técnico-administrativo e dois representantes dos estudantes analisou o pleito e aprovou em votação aberta a continuidade do processo. A professora Paula Landim foi designada para a elaboração de um parecer a esse respeito. Ressaltou-se nessa fase que Adélia, há 30 anos, prossegue com estudos, pesquisas, documentação, exposição e redação sobre o design no Brasil.

Aprovado no âmbito do Departamento, o pleito seguiu para a diretoria da FAAC, que o enviou para a avaliação de parecerista externa à Unesp, a arte educadora Ana Mae Barbosa, professora titular sênior da ECA/USP e professora do Programa de Pós-Graduação em Design, Arte e Tecnologia da Universidade Anhembi Morumbi.

Ana Mae situou a ação de Adélia Borges dentro da questão do decolonialismo, que segundo ela “não é desprezar a cultura europeia, mas considerá-la um estudo de caso e não um modelo a ser imitado”. Em seu parecer, afirmou que “embora seja lida e reconhecida pela cultura e história hegemônica europeia, Adélia desenvolve conceito e abordagens decoloniais sobre o Design no Brasil” e “valoriza a produção autóctone e popular não apenas como cultura material, mas como Design”. A professora citou exposições curadas por Adélia e avaliou que “trabalhar criticamente reconhecendo códigos híbridos ou originários de multiculturas que enriquecem nossa produção de Design eliminando ou, pelo menos, estabelecendo equilíbrio valorativo entre o erudito universitário e o popular dos pobres, tornaram-lhe uma das curadoras culturalistas mais importantes do Brasil”.

O pleito seguiu para a Congregação da FAAC, onde foi colocado novamente em votação. A Congregação é formada pelo diretor (presidente da congregação) e vice diretora da unidade (FAAC) chefias dos departamentos da unidade (arquitetura, artes, design, ciências humanas e comunicação social), cinco representantes docentes, três representantes técnicos-administrativos, representantes dos coordenadores de pós-graduação e de graduação, e um representante de cada um dos seguintes órgãos: associação dos servidores, das comissões de ensino, pesquisa, extensão e discente.

O processo foi encaminhado em seguida ao reitor da Unesp, que designou a professora doutora Marize Mattos Dall’Aglio-Hattnher, da área de Literatura, como relatora. A solicitação foi finalmente apreciada pelo Conselho Universitário em reunião realizada em 22 de outubro de 2020 e, dentre os 71 votantes, 70 se manifestaram a favor da concessão do título a Adélia Borges, com apenas uma abstenção.

 

Confira na íntegra a cerimônia de outorga do título Doutora Honoris Causa a Adélia Borges