(Foto: Pedro Kok)

Terra e Tuma: Casa das Jabuticabeiras, São Paulo

O nome do projeto deriva da destinação prévia do terreno aonde está localizada a casa, no bairro Alto da Lapa, em São Paulo. Anteriormente parte integrante de uma propriedade maior, o lote era utilizado como pomar, o que explica a existência de inúmeras árvores - como as jabuticabeiras - em meio à edificação. Térrea, os ambientes sociais da casa são organizados em torno de um jardim interno, que permite a incidência da luz natural em todos os seus recantos. A cobertura, então, é um amplo espaço de estar, ao ar livre, onde se pode desfrutar a situação privilegiada da vida em bairro residencial.

Embora a cerimônia de abertura tenha sido cancelada em 18 de março passado por causa da pandemia do Covid-19, é ainda possível acompanhar presencial e virtualmente a exposição Copia Sinverguenza, montada na galeria de arquitetura Liga, no México. A exposição versa sobre o trabalho do escritório brasileiro Terra e Tuma, do quarteto de arquitetos Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Assali Terra e Pedro Tuma, e dela faz parte o projeto da Casa das Jabuticabeiras, que publicamos aqui.

Cotejando maquetes de oito casas que cobrem pouco mais de uma década da produção da equipe paulistana, o argumento da mostra é de que a cópia ou a repetição são parte do processo criativo; contrário, portanto, à máxima de que na arquitetura deve-se inovar sempre. A cópia, no caso, é o “aprimoramento de estratégias que repetimos ao longo do tempo nos nossos projetos”, explicam os arquitetos do Terra e Tuma, mencionando os trabalhos expostos na Liga: as casas Maracanã (2011/SP), Mipibu (2015/SP), Vila Matilde (2015/SP), Guaianaz (2018/SP), Cruzeiro (em projeto), Jabuticabeiras (2019/SP), Indianápolis (2020/SP) e Lírio (em construção).

 

Os ambientes integrados gravitam em torno do jardim descoberto, no miolo da construção. Ele está posicionado junto à parede do corredor dos dormitórios, à direita da foto, feita com elementos vazados de concreto (Foto: Pedro Kok)

 

“A Jabuticabeira foi muito importante no nosso laboratório criativo”, prosseguem eles, referindo-se ao fato de tratar-se de “uma casa de bloco [de concreto], porém, com condição especial de construção”, analisam. Parte da infraestrutura é embutida, há piso de assoalho de madeira e de granilite, os beirais são lajes de concreto maciço e a piscina tem aquecimento solar, exemplos de um padrão construtivo não comum em outros trabalhos da equipe.

A casa está implantada em terreno de grandes dimensões (aproximadamente um quadrado de 23 metros de lado) no Alto da Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo. Originário de propriedade maior que atravessava a quadra abrindo-se para par de ruas paralelas, este trecho de fundos do lote encontrava-se já livre de edificações por causa da sua utilização como pomar. “O paisagismo veio antes”, comentam os arquitetos sobre a condição especial, paisagística, do sítio.

 

 

A decisão de construir uma casa foi conclusão a que chegaram arquitetos e cliente durante o processo de projeto, orientado inicialmente para a escolha de um imóvel existente. Todas as alternativas consideradas implicavam reformas substanciais e, assim, mudou o escopo para aquele da criação de uma nova construção. Uma vez viabilizado o uso do terreno almejado, então, o passo seguinte foi ajustar o programa para a escala, menor, pretendida pelos arquitetos, convictos de que a vocação do lote era acolher uma casa térrea.

Os arquitetos aglutinaram, portanto, ambientes inicialmente considerados isoladamente e, em paralelo, orientaram a casa conforme o posicionamento das árvores e as conveniências da orientação solar. “A casa foi se espraiando e tomando conta de todo o terreno”, explicam os autores, com consequências favoráveis e desfavoráveis para o projeto; esta última relativa sobretudo ao sombreamento dos ambientes que se pretendia não excessivo. A construção, inclusive, encosta na divisa de fundos e possui beiral em praticamente toda a sua periferia, o que poderia comprometer a luminosidade interna.

A integração dos ambientes, porém, somada à presença de um jardim no miolo da construção e de aberturas e recortes no teto, fazem da Casa das Jabuticabeiras uma residência luminosa e na qual dificilmente se distingue a passagem do interior para o exterior. A paridade dos materiais construtivos, com destaque para a alvenaria de blocos aparentes, assim como das alturas de muros e de paredes internas e o paisagismo dos pátios são determinantes para tal qualidade arquitetônica, cuja referência, afirmam os autores, é o conjunto de casas projetadas por Rino Levi em bairros-jardim. “Os parâmetros urbanísticos com os quais ele lidava nos anos 40 e 50 são idênticos aos de hoje”, comentam os arquitetos a respeito das restrições de ocupação do solo que se mantém na região – tombada em 2010 na esfera municipal. “As casas de Levi são o que de melhor se pode criar com as condicionantes locais. São casas com paisagem interiorizada, onde os interiores se abrem para espaços diferentes”, enfatizam os arquitetos.

 

 

Afastada da frente do lote, a casa do Terra e Tuma está centralizada no terreno e já na entrada vê-se o cuidado com o detalhamento das áreas abertas. O pátio da garagem de veículos é rebaixado cerca de um metro em relação à cota de piso da construção, o que auxilia na individuação de uma zona externa de permanência, adjacente à sala de estar. As árvores se alinham lado a lado no espaço e são acompanhadas por um banco contínuo desenhado pelos arquitetos. Parte da fachada é opaca – vedada com blocos de concreto na faixa que abriga a sequência de três dormitórios – e na lateral oposta há uma reentrância que serve para a configuração de um pequeno pátio em torno da piscina – discretamente posicionada, por sua vez, no vértice direito da frente do terreno. Um recorte na laje demarca uma das árvores entre a cozinha e a piscina, deixando passar a luz natural que qualifica, ainda, o prolongamento da primeira na área externa.

Não fosse a mencionada reentrância, a casa teria implantação quadrada em que, com exceção dos quartos – resguardados por corredor delimitado por parede feita com elementos vazados -, os ambientes são todos integrados. Mas, dada a presença do jardim descoberto no miolo da edificação, grande se comparado aos espaços que o cercam, individualizam-se a sala de estar (na frente), a cozinha (no lado direito) e o espaço multiuso atrás: escritório, espaço para ginástica, ateliê.

 

A laje de cobertura é acessível e serve como grande espaço de estar e contemplação (Foto: Pedro Kok)

 

Decorre a sensação de que a casa é a totalidade do lote, a que se chega ainda por causa de detalhes como a continuidade dos pisos – posicionados todos na mesma cota – e a ênfase na qualidade de área externa do jardim central. Interessante notar, nesse sentindo, a ausência de bancos ou quaisquer elementos de permanência no espaço, cujo piso é de pedrisco e há vegetação junto aos caixilhos de vidro. Como se se tratasse de uma porção de terreno intocado, em torno do qual ocorre a vida doméstica. A qual, enfim, tem o ápice na laje de cobertura que, quase reproduzindo a totalidade do lote, é um amplo ambiente externo de estar. (Por Evelise Grunow)

 

Terra e Tuma Arquitetos Associados
Os arquitetos Danilo Terra (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie – FAU/Mackenzie, 2003), Fernanda Lie Sakano (Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – IAU, 2010), Juliana Terra (FAU/Mackenzie, 2003) e Pedro Tuma (FAU/Mackenzie, 2004), são sócios no escritório Terra e Tuma Arquitetos Associados.

 

 

Ficha Técnica

Casa das Jabuticabeiras
Local São Paulo (SP)
Início do projeto 2016
Conclusão da obra 2019
Área do terreno 500 m²
Área construída 249 m²
Arquitetura Terra e Tuma Arquitetos Associados - Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Assali Terra, Pedro Tuma (autores)
Paisagismo Arquitetura da Paisagem - Gabriella Ornaghi e Bianca Vasone
Construção Do.construtora
Fotos Pedro Kok

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