(Foto: reprodução/A Crítica)

Severiano Porto

Um especial sobre um arquiteto brasileiro, que saiu da agitação cultural do Rio de Janeiro para trabalhar em Manaus há vinte anos. Mais divulgado por suas obras empregando as madeiras da região amazônica, tem no entanto uma produção variada e abrangente. Por isso PROJETO vai mostrar várias de suas realizações, que vão de clubes e centrais telefônicas a residências, empregando concreto, estruturas metálicas, cerâmica armada e até madeira. Além de uma entrevista exclusiva e um texto de comentários críticos. Com vocês, um pouco da arquitetura moderna de Severiano Porto.

Um arquiteto brasileiro:
Severiano Mário Porto

Em texto recente, o arquiteto chileno Enrique Browne constata que a consagração internacional costuma preceder o reconhecimento em sua própria região da obra de nossos arquitetos, citando principalmente Oscar Niemeyer e Luis Barragán. De fato. Mas, ao serem elevados à categoria de “ídolos” arquitetônicos, lá e cá, nem sempre os motivos coincidem. Recortadas de seu contexto, suas arquiteturas têm um sabor exótico, surpreendente, excepcional, reforçado pelo desconhecimento da produção arquitetônica de seus países, e pela abordagem eminentemente privilegiadora de aparências que seus trabalhos recebem.

Entre nós, a consagração cria uma situação dúbia: de um lado, certo orgulho pátrio; de outro, uma grande desconfiança, resumida superficialmente na etiqueta “Cármen Miranda” – se fez sucesso é porque se americanizou. Mesmo assim, tais acontecimentos servem para nos forçar a uma reflexão sobre as qualidades intrínsecas de nossas arquiteturas. Pena que seja necessário fazer a triangulação América Latina/Europa-EUA/América Latina para só então nos permitirmos apreciar o colega que mora ao lado.

 

 

Severiano Porto já é bastante conhecido dos arquitetos brasileiros, não se aplicando a ele, estritamente, os comentários acima, apesar de sua premiação na última Bienal de Arquitetura de Buenos Aires, em 1985. Entretanto, se uma parte do júri, formado por arquitetos de todo o mundo, compreendeu a qualidade de seu esforço em trabalhar características regionais através da apropriação e reelaboração de técnicas e materiais tradicionais, consta que alguns outros a princípio rejeitaram sua obra, como sendo algo folclórico – no sentido pejorativo que se possa dar a essa palavra. É interessante notar como o exótico pode ser invocado a favor, ou contra.

Mas o trabalho de Severiano Porto nada tem de exótico, nem de folclórico, exceto para os mal-informados. Claro que a precariedade da divulgação e debate de nossa arquitetura nos desculpa a todos de nossa ignorância; entretanto, para não repetirmos o modus operandi da consagração de ídolos à moda internacional, é preciso ir além das primeiras aparências.

 

A arquitetura de Severiano Porto pertence à tradição brasileira de adaptação de postulados modernos ao sítio, clima, materiais e ao jeito brasileiro.”

 

Exótico, na sua acepção literal, significa estrangeiro, o que está fora, o que é alheio. Uma arquitetura que se insere harmoniosamente no meio em que é produzida, dialogando criativamente com sua realidade, não é exótica. O emprego desse termo, no presente caso, sugere, isso sim, parâmetros exóticos de julgamento, externos à realidade que pretendem criticar.

Se tirarmos a acepção pejorativa da palavra, a arquitetura de Porto seria não folclórica, mas também. Melhor dizendo, em seu processo de elaboração ele não deixa de fora quaisquer dados que possam ser de utilidade para a compreensão do caráter correto a se dar a cada edifício, venham de onde vierem: da sabedoria popular, das fontes eruditas, temperados com muito senso de oportunidade e muita sensibilidade artística.

 

Detalhe de residência em Manaus

 

A ausência de preconceitos quanto a materiais, tema, local, aliada à pesquisa responsável de caminhos e propostas, produz resultados variados e adequados a cada circunstância. Não há que temer, da parte de Porto, um surto impositivo de novas fórmulas de projeto. Não está lançada a moda da “madeirinha”, nem ele próprio produziria algo semelhante à agência do Banco da Amazônia, em Manaus, em plena avenida Paulista, como também não faria um estádio de futebol de madeira, em Manaus. Ele nos conta das dificuldades que teve em convencer os responsáveis pela Universidade do Amazonas da impropriedade de projetar as instalações do campus à semelhança do hotel da ilha de Silves: mesmo em climas idênticos, a diferença dos programas e espaços necessários impossibilita simples transposições. Sua postura relembra uma das mais interessantes características da arquitetura moderna brasileira: a adaptação de postulados genéricos, advindos dos mestres europeus, ao sítio, clima, materiais e até ao jeito nossos. Pertence a uma tradição que produziu obras como o hotel de Friburgo, de Lúcio Costa, a casa de Oswald de Andrade, de Oscar Niemeyer, a caixa-d’água de Olinda, de Luís Nunes, para citar os mais conhecidos.

 

Coberturas da Escola de Música em Fortaleza

 

Essa digressão é necessária para esclarecer uma questão levantada durante o último congresso de arquitetos, em Belo Horizonte, onde um colega definiu Severiano Porto como “pós-moderno”. À parte a total impropriedade desse termo, o qual costuma acarretar observações ainda mais impróprias (como a de que deveríamos percorrer e esgotar uma “modernidade” antes de chegarmos ao “pós” etc.), há de fato um quid nesse tal de pós-moderno que merece nossa atenção, no que tange principalmente ao debate crítico dos dogmatismos da modernidade, quase sempre cristalizações formais/conceituais sedimentadas já um tanto tardiamente. Mas daí a rejeitar a modernidade em bloco vai uma longa distância.

Embora a modernidade não possa ser dissolvida ou esquecida apenas pelo desejo da mera novidade, precisa necessariamente ser compreendida de maneira mais abrangente do que vem sendo feito. Severiano Porto, como muitos outros arquitetos latino-americanos, insere-se no que Browne denomina a “outra modernidade”, percorrendo caminhos alternativos que não deixam de ser tributários da herança moderna. A meu ver, essa definição cabe muito melhor a Porto do que a citada etiqueta da moda.

 

Trampolim de concreto no clube do trabalhador em Manaus

 

A par do costume de apor rótulos descabidos, há hoje cada vez mais uma aversão às escolas e regras – ao lado, muitas vezes, de uma pretensa liberação que não escapa dos limites do medíocre -, talvez devido à profunda desconfiança, muito justa, quanto aos autoritarismos de plantão.

Nesse panorama, Severiano Porto nos oferece não modelos arquitetônicos a seguir, mas sem dúvida uma proposta para um “perfil de arquiteto”, através do exemplo de sua atuação. Seriedade profissional, abertura às possibilidades, coragem para enfrentar situações diferentes, uma preocupação abrangente quanto à formação e pesquisa são traços naturais de sua maneira de trabalhar. Seu esforço por acertar passa pela compreensão das possibilidades de erro, e não pela infalibilidade apriorística tão típica de nós arquitetos. A experimentação não descamba no vale-tudo, tão pernicioso quanto os modelos prontos e imutáveis, pois ambos são a morte da criação, por excesso ou por falta. Com limitações e com otimismo, sem ufanismos mas com consistência, Severiano Porto nos indica o que pode ser um arquiteto brasileiro. Sendo.

 

 


A longa trajetória, da efervescência
cultural do Rio a Manaus

Entrevista exclusiva com Severiano Mário Porto
por Sílvia Penteado, Ruth Verde Zein e Denise Yamashiro

 

Severiano Porto por Paulo Caruso

 

Severiano Mário Porto nasceu em Uberlândia, mas com cinco anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde seu pai tinha uma escola, o Colégio Brasil-América. Desde menino fazia desenhos, e nunca pensou em outra profissão que não fosse a arquitetura, apesar de ser de uma família de advogados. Começou a trabalhar ainda na faculdade, como desenhista meio período na construtora Ary C.R. de Britto, onde ficou doze anos, aprendendo a acompanhar todos os estágios das obras, trabalhando no canteiro, o que a seu ver “é importantíssimo para o arquiteto e ao mesmo tempo difícil de se conseguir. Mas, quando se tem conhecimento profundo da obra, tem-se mais segurança no projetar”.

Ainda na escola trabalhava paralelamente com Ennio Passafini, hoje professor em Campinas, e mais tarde ambos abririam a construtora Contemporânea, com a qual chegaram a fazer incorporações.

Formou-se na Faculdade Nacional de* Belas-Artes, em 1954. “Tínhamos uma noção global do curso desde o princípio, havia muita integração entre os alunos. Na época viviam-se coisas muito criativas na arquitetura, até sem perceber ou sentir claramente, era uma fase de importantes exemplos de nossa arquitetura, embora esparsos e fruto de um país jovem e sem muitos compromissos.”

Uniu-se depois a outro colega do tempo de faculdade, Mário Emílio Ribeiro, com quem trabalha até hoje, e que controla o escritório carioca, responsável pelo detalhamento de todos os seus projetos, pois em Manaus ainda não há infra–estrutura suficiente para isso. “Lá não há faculdade de arquitetura, nem calculistas, nem especialistas em acústica, ar-condicionado etc. Então esse trabalho tem de ser feito no Rio.”

 

Detalhes da sede da Suframa Manaus; na página seguinte, acima, estádio de futebol naquela cidade; abaixo, residência em Cabo Frio

 

 

Ponte aérea Rio-Manaus

Mas como esse mineiro carioca de família pernambucana foi parar em Manaus? Apesar de já ter estado lá em férias, com a família, em 1963, graças a umas passagens que ganhou de um amigo cujo pai trabalhava numa companhia de aviação (“escolhi Manaus porque era o lugar mais longe que imaginei”), até então nunca havia pensado em mudar-se para lá. “Talvez se o Jânio não tivesse renunciado em 1961 eu estivesse hoje em Porto Alegre, ou em Minas, onde tinha um grande projeto de um convento.”

Severiano estudou junto com os filhos do professor Arthur Reis, no colégio de seu pai, e todos moravam no mesmo prédio. Depois de ser presidente da Spevea, órgão que daria origem à Sudam, Reis virou governador do Amazonas. Convidou-o, então, a fazer a reforma da representação do governo da Amazônia no Rio e, em seguida, chamou-o para a reforma do palácio do governo e o projeto da Assembleia Legislativa do Estado, duas obras que acabaram não se realizando.

Isso foi em 1965. Ficou uns quinze dias em Manaus, fazendo o estudo preliminar desses dois projetos, e no tempo livre o chefe do gabinete levou-o a ver as obras do novo estádio, com o qual acabou se envolvendo, além do projeto da Secretaria da Produção, a reforma de um posto médico numa ilha amazônica, para a LBA, um projeto de escola pré-fabricada em madeira. “Na época, acharam que madeira era obra pobre, e o governo queria uma imagem de permanência.”

Voltou para o Rio e durante um bom tempo ficou na ponte aérea, um mês em Manaus, um mês no Rio. Para poder trabalhar, comprou uma prancheta e instalou no quarto do hotel. Quando vinha para o Rio, a prancheta era desmontada e levada para o porão; depois, quando voltava, montava-a de novo no quarto. “Foi uma época muito importante, pois quando estava lá acompanhava o governador em visita a obras no meio da Amazônia, dormindo em acampamentos, ao som dos rugidos de onças.”

 

 

 

Vivendo as obras

Em 1966 foi criada a Companhia Telefônica de Manaus, através da encampação de uma companhia inglesa que havia. Foi chamado para fazer o projeto justamente para ocupar o lugar onde antes seria construída a Assembleia Legislativa. Nessa época, Severiano transferiu-se com a família para Manaus, apesar de continuar viajando sempre ao Rio. “Construí uma casa de madeira junto de um igarapé; na época não era costume, apenas as pessoas do povo moravam assim”.

Em Manaus, então, havia pouquíssimos profissionais. Mas, junto com dois engenheiros que conhecera no Rio, Sérgio Serzedelo Machado e Milber Guedes, fez um caderno de encargos, que incluía toda a parte jurídica. Através dele, a empresa construtora era obrigada a manter os prazos através de dispositivos legais. Esse caderno foi adotado em todo o Amazonas e era mais avançado que o de todo o resto do país. Severiano fiscalizava pessoalmente todas as obras em andamento, e acabou por tudo isso ganhando fama de exigente, e de que suas obras eram caras. “Mas o que se ganha no projeto se perde no detalhamento. O dinheiro para construir minha casa atual ganhei mesmo com loteamentos e incorporações que fiz por lá, e não com meu trabalho de arquiteto.”

A fama de exigente teve, entretanto, suas vantagens: a imagem da arquitetura e dos arquitetos forma-se em função de suas obras e, quando essas obras maiores estavam em andamento, foi criada a Zona Franca e trocado o governador. Apesar de dizer ao novo governador que abria mão de tudo, este quis que Severiano ficasse. E ficou, sempre trabalhando muito, por causa da infraestrutura que tinha e da confiança criada em torno de seu trabalho.

Como sempre, acompanhava todas as obras, dando assistência no local. “Sempre gostei de viver a obra.” Q que, tratando-se da Amazônia, não é uma tarefa fácil. “Tinha obras, por exemplo, em Parintins, que está a três horas e meia de Manaus, de avião monomotor, pois, se fosse depender de outro meio de transporte, levaria meses para chegar. Só que o combustível não dava para ir e voltar, na cidadezinha não tinha combustível de avião. Então a gente ia economizando o que podia, e na volta enchia um dos tanques com gasolina de automóvel, e ia alternando os combustíveis para conseguir voltar. Quando a gente chegava nessas cidades no meio da selva, era preciso primeiro dar uma rasante na pista para espantar os animais, para depois descer.”

 

 

Uma arquitetura amazônica

Se o acompanhamento da obra é difícil, também o é o transporte dos materiais necessários, pois nos locais o máximo que se tem são pequenas olarias, o demais vem de barco, de Manaus, demorando meses. “Nos projetos feitos para o interior da Amazônia, o mais importante é a especificação de materiais e quantidades, pois, se falta alguma coisa, é preciso esperar muito tempo para que ela chegue, todas as distâncias são muito grandes.”

Por esse tipo de problema, pela necessidade de aproveitar ao máximo os recursos materiais locais, em vez de trazê-los de longas distâncias, é que Severiano Porto foi desenvolvendo a arquitetura “amazônica” que lhe é peculiar. “Não foi um processo deliberado, mas um comportamento natural decorrente das possibilidades e das necessidades da região.”

Toda a região amazônica, embora de fraca densidade populacional, é ocupada pelo caboclo, o homem brasileiro. “Foi observando o pessoal nativo – os seringueiros, para mim gigantes, que cruzam a floresta amazônica a pé, passam meses embrenhados na mata, levando uma bagagem mínima, enfrentando toda sorte de problemas e até grandes onças, que a gente pode encontrar mesmo perto de Manaus – que aprendi sobre o fazer regional.”

O homem da região está muito bem adaptado ao seu meio, sabe viver e dali extrair sua condição de alimento e moradia. “Quando vem trabalhar na cidade, isso tudo se perde, mas no interior conseguem proezas, trabalhando com ferramentas toscas que eles mesmos criam, criando detalhes e aproveitando os materiais de maneira muito sábia. Foi assim, observando, vivenciando, que comecei a adaptar o que eu queria fazer com o que eles conheciam.”

O que surpreende a Severiano Porto não foi como ele chegou nessa arquitetura, mas a surpresa que ela tem causado por aí. “O pessoal fala como se eu tivesse descoberto a pólvora, mas foi um processo tão natural que me espantei quando isso começou a despertar tanto interesse, e algumas vezes até admiração. E, na verdade, é apenas o resultado de um comportamento profissional coerente.”

 

 

Sobre ensino e formação

Para Severiano Porto, a questão principal não é o uso deste ou daquele material, mas a formação de ensino que não prepara corretamente os profissionais. “Nunca forcei usar a madeira quando não devesse ser esse material. O arquiteto tem que usar de tudo, e saber usar. Há uma grande deficiência no ensino, hoje, que não prepara o arquiteto para a realidade que ele deveria enfrentar.”

A condição regional deveria ser estudada nas universidades, tomando técnicas tradicionais, aplicando tecnologias atuais e mesclando tudo, aproveitando os princípios, as ideias, adicionando coisas, verificando o maior desempenho, em verdadeiras pesquisas. “A universidade deveria ter laboratórios para pesquisas de arquitetura, para podermos errar menos. Senão estaremos sempre usando os clientes como cobaias. Se um médico pede mil exames para dizer que você não tem problema algum, por que o arquiteto não pode pedir testes? Se temos dúvidas, como esclarecê-las sem pesquisas?”

A seu ver, isso implicaria também a revisão do papel do arquiteto. “Seria muito interessante fazer uma pesquisa para saber o que as pessoas comuns pensam que seja o arquiteto, para que ele serve. Os alunos acham que arquitetura são apenas obras excepcionais, o ensino prepara todos para serem arquitetos do rei. Há um grande mercado de trabalho aí, inexplorado, enquanto ficam todos disputando a ponta superior do triângulo.”

Além disso, é preciso sair da limitação dos catálogos, que não correspondem à nossa realidade. “Aqui não é como em Miami, onde eles têm parques belíssimos, vegetação bem-cuidada, adoram a natureza – mas ela lá fora, e aqui dentro o ar-condicionado. Lá o arquiteto é formado para saber usar todos os dados das indústrias, já incorporados em sistemas de computador. Essa é a realidade deles, e eles são preparados para seu mercado. Temos que nos preparar para o nosso, que é muito diferente, saindo dessa visão distorcida de realidade, que só enxerga, fracamente, a cidade grande. Aqui o arquiteto precisa ser um profissional criativo.” Por isso, acredita que no ensino deveriam ser mesclados professores arquitetos e arquitetos professores.

 

As críticas e as explicações

Como Severiano Porto encara as críticas que têm sido feitas a seu trabalho, que vão desde considerá-lo folclórico até ver nele uma nova maneira de fazer arquitetura? “Nunca fiz arquitetura para escrever livros, sempre vivi a arquitetura, intensamente, meu interesse por revistas e publicações é apenas o suficiente para conhecer e, até, admirar outras experiências, mas não no sentido de configurar uma liderança a que eu tivesse de me filiar. Não vejo a necessidade de ser isso ou aquilo, mas sim de compreender as necessidades do cliente e do local.”

Esses dois dados são básicos em seu trabalho. “Para fazer um projeto é preciso primeiro sentir o cliente, para fazer algo de bom gosto e de acordo com seus desejos. Quanto mais o cliente confia na gente, pior, porque não se tem diálogo e a responsabilidade fica sendo toda nossa. Além de conseguir uma arquitetura adequada, o arquiteto precisa tomar cuidado com a mensagem que transmite a quem vai usá-la, as respostas que obtém com ela.”

Porto cita dois exemplos, entre seus trabalhos, que são significativos para entender isso. Um deles é o projeto das telefônicas do interior do Amazonas, em locais que não têm mão-de-obra nem materiais. Os projetos procuraram aproveitar todas as possibilidades locais, sem agredir as pequenas cidades: nunca irão ficar mais suntuosos que a própria prefeitura do lugar. Outro exemplo refere-se à rodoviária de Boa Vista, Roraima. O primeiro projeto que fez previa uma estrutura espacial que precisava ser calculada no Canadá, e um detalhamento muito específico para o caso dos ônibus internacionais; o segundo projeto – que ele não cobrou – foi feito porque chegou à conclusão de que havia ali um erro conceituai, no partido da proposta, e resultou algo bem mais simples. “A gente erra, mas tem um compromisso com a consciência da gente. É para a gente mesmo que temos de explicar o que fazemos. E fazemos o que é possível.”

Quanto às etiquetas, “exótico”, “folclore” etc., Severiano Porto não dá importância. “Enquanto não se procura a essência, ao invés dos modismos, vai-se ficar nessas discussões. Penso que tudo o que é falso, moda, é frágil e acaba; tudo o que é sincero e adequado ao seu momento é eterno.”

 


Veja alguns dos projetos do arquiteto:

 

Campus da Universidade do Amazonas, Manaus

 

Centro Integrado Clube do Trabalhador – Sesi, Manaus, AM

 

Clube do Trabalhador e Escola de Música – Sesi, Fortaleza, CE

 

Centrais Telefônicas

 

 


Assembleia Legislativa do Estado

Porto Velho, RO

Em área próxima ao Centro Administrativo do Estado de Rondônia, a solução adotada valoriza o plenário, situado no centro do conjunto tônico, ao redor do qual se desenvolvem os demais setores e dependências. O sistema construtivo emprega coberturas em abóbadas de tijolo armado, calculadas pela empresa Esbratil, detentora dos direitos de patente de cálculo, no nosso país, das técnicas desenvolvidas pelo engenheiro uruguaio Eladio Dieste.

 

Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia; Autor: arquiteto Severiano Mário Porto; Coautor: arquiteto Mário Emílio Ribeiro; Estrutura: Esbratil Construções; Ar-condicionado: Planac Engenharia e Consultoria; Colaborador: arquiteto Luiz César Monken.

 

 


Banco da Amazônia

Manaus, AM

As características do banco, voltado para o desenvolvimento regional, foram expressas pelo projeto através do emprego de madeiras da região, ;om seus troncos em sua textura e formas originais colocados nas entradas principais, e internamente nas formas e finalidades mais diversas, :om madeiras de tipo e seção variados. Grandes painéis de treliçado na fachada principal reduzem 3 luminosidade sem impedir a visão do interior 3 exterior. A estrutura das lajes é em concreto, perfeitamente integrada às madeiras.

 

BASA – Banco da Amazônia, Ministério do Interior; Autor: arquiteto Severiano Mário Porto; Coautor: arquiteto Mário Emílio Ribeiro; Instalações: arquiteto Roberto Thompson Motta; Estrutura: engenheiro Navarro Adler; Ar-condicionado: engenheiro Guilherme Pereira.

 

 


Residência em madeiras

Manaus, AM

A solução, embora de forma tradicional, propõe a substituição de vidros por treliças e janelas venezianas comuns, mas móveis, de modelo frequentemente usado no Ceará. Foi empregado também o modelo Jalousie Udinese com vidros transparentes entre peças de madeira lavradas de 15 x 20 cm. As madeiras foram trazidas da cidade do proprietário, Boca do Acre.

 

Residência Alexandre Ale dos Santos; Autor: arquiteto Severiano Mário Porto; Coautor: arquiteto Mário Emílio Ribeiro.

 

 


Ambulatório médico
do IPASEA

Manaus, AM

Devido à realidade existente ainda hoje, os ambulatórios de institutos transmitem uma sensação de falta de opção e impossibilidade de melhores soluções. Grande parte disso se deve às bases físicas em que eles se situam, devido aos espaços inadequados, geralmente adaptados e frequentemente malconservados.

Procurou-se uma solução adequada às exigências do clima, que fosse alegre, humana, digna, precisasse de pouca conservação, sem prejuízo das suas necessidades de funcionamento. As circulações para usuários, funcionários e médicos são independentes; apenas os consultórios, biblioteca, espaços administrativos e auditório possuem ar-condicionado; as circulações e salas de espera são em varandas protegidas do sol e da chuva, mas permitem o livre cruzamento do vento. A fachada principal, voltada para oeste, recebeu alguns elementos protetores, como beirais, brises verticais e elementos vazados de concreto armado.

 

IPASEA – Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado do Amazonas, governo do Estado do Amazonas; Autor: arquiteto Severiano Mário Porto; Coautor: arquiteto Mário Emílio Ribeiro; Instalações telefônica, acústica, audiovisual, elétrica, sonorização, iluminação do auditório: arquiteto Roberto Thompson Motta; Estrutura: engenheiro Carlos Nelson de Oliveira Goes.

 

 

Texto Ruth Verde Zein
Publicada originalmente na revista PROJETO edição 83 – Janeiro 1986

 

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