Requalificação e Reurbanização do Vale do Anhangabaú, Prefeitura Municipal de São Paulo | Por Evelise Grunow

Está prevista para o final de setembro a conclusão da obra de requalificação e reurbanização do Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, idealizada para equacionar, melhorando, as duas vocações do território: o abrigo de eventos de grande porte e a sua transposição cotidiana por público estimado em 2 milhões de pessoas. Fazê-las permanecer, em parte, no local, é objetivo do projeto.

“Como se sabe, um Concurso Público foi aberto para encontrar solução para o impasse criado pelo anúncio da Emurb de construir ali 6 passarelas para pedestres – solução criticada por amplos setores de profissionais ligados ao urbanismo. Posteriormente, a empresa municipal resolveu suspender a execução do projeto dos elevados para pedestres e começou a discutir com os interessados. Por sugestão desses profissionais, foi aberto o Concurso Público, cujas inscrições encerraram-se no último dia 20 de março. Um total de 152 concorrentes, de vários estados do Brasil, se inscreveram”. O trecho, retirado de matéria publicada na edição 29 da revista PROJETO, de maio de 1981, obviamente não se refere ao projeto atualmente em fase final de implantação no Anhangabaú, mas àquele anterior, de 1981, e mais especificamente ao seminário organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil Departamento São Paulo (IAB/SP) com o intuito de ouvir sugestões para a melhoria do local. Participaram profissionais da área, membros de entidades e interessados, faltando cerca de dois meses para o julgamento do concurso – promovido pela municipalidade e organizado pelo próprio IAB/SP – entre 29 de maio e 1º de junho de 1981, por júri composto por Eduardo Corona, Jon Maitrejean, Fernando Chacel, Edgard Graeff e Carlos Fayet (Benedito Lima de Toledo foi o arquiteto consultor). Dos 93 concorrentes que entregaram projeto, o Concurso Público Nacional para Elaboração de Plano de Reurbanização do Vale do Anhangabaú foi vencido por unanimidade pela proposta de número 17. Seus autores, como amplamente conhecido, eram os arquitetos Jorge Wilheim, Rosa Kliass e equipe: Carmem Lydia Silva, Jamil Kfouri, Jonas Birger, Marcelo Martinez, Maria Lucinda Aguiar e Michel Todel Gorski.

O que estava em discussão no início da década de 80 era o conflito entre o potencial uso do Anhangabaú por pedestres – “o que resta do antigo parque tem intenso uso nas horas de lazer de bancários e comerciários que trabalham no entorno”, descrevia uma das fotos da matéria da PROJETO, e o seu estado de deterioração, tendo o vale se transformado em um conjunto de vias carroçáveis. Mas questionava-se também o modo como a prefeitura estava por equacionar a situação, sem visão urbanística e tampouco qualquer discussão pública.

“(….) entretanto, esse pesadelo foi eliminado da vida dos paulistanos. O Anhangabaú transformou-se numa praça de 50 mil m2, implantada sobre dois túneis de 570m, com quatro pistas cada um, que acolhem todo o tráfego de acesso às regiões norte e sul da cidade”, publicaríamos 11 anos mais tarde na edição 149 da revista PROJETO, em matéria sobre a conclusão da obra de reurbanização do local. O projeto executivo foi desenvolvido pelos escritórios de Kliass e Wilheim com a colaboração de Kfouri e Roseli Martins, mas a empreitada “correu o risco de não ser realizada em sua totalidade. Durante anos, o projeto vencedor do concurso de 1981 permaneceu engavetado e na gestão do prefeito Jânio Quadros (1986-88), quando foi decidida a execução de obras de melhoria para a região, pensou-se, inicialmente, em uma solução apenas para o conflito entre pedestres e veículos.

A empresa escolhida para a execução das obras – a Andrade Gutierrez – contratou, por sua vez, a Brasconsult Engenharia de Projetos. Por coincidência, o diretor da Brasconsult, o arquiteto Vicente de Castro, tinha conhecimento do concurso e chamou a equipe vencedora para o trabalho parcial. Ao mesmo tempo, a Andrade Gutierrez, em conversas mantidas com o prefeito Jânio Quadros, conseguiu vender a idéia de implantar na região todo o projeto. Só depois desses episódios é que foi dado o sinal verde para a realização do projeto executivo, seguindo as linhas mestras daquele elaborado em 1981”, conforme a matéria de 1992 da PROJETO.

Felizmente o pensamento de Kliass, Wilheim e parceiros de projeto foi colocado em ação, tornando definitivamente o Anhangabaú um local para pedestres. A sua proposta correspondia a um dos três partidos dos projetos concorrentes, conforme citado em matéria da edição 30 da revista PROJETO, de junho de 1981, sobre o resultado do certame: “colocar o tráfego totalmente no subsolo; aproveitar algumas áreas para a criação de praças, mas mantendo o convívio íntimo de homens e automóveis; e colocar as correntes de tráfego totalmente fora da região”. Mas entre 1981 e 1992 mudaram condicionantes de projeto, como a inauguração da estação Anhangabaú do metrô, por exemplo, em novembro de 1983, e a desistência de se promover a ligação viária do corredor norte-sul com a zona oeste da cidade através de pontilhão idealizado para emergir do vale junto à avenida São João. No primeiro caso, “(…) a grande chance perdida foi a de criar uma ligação pública, com desenho e escala adequados, entre a Praça da Bandeira a estação e os dois lados do vale, apesar dos diversos estudos e projetos que caminhavam nesse sentido. O estabelecimento dessa conexão teria evitado a profusão desastrosa de passarelas que tomou conta do espaço aéreo daquele setor do Anhangabaú”, escreveu o arquiteto Pablo Hereñú na sua dissertação de mestrado (Sentidos do Anhangabaú, orientadora Regina Prosperi Meyer, Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, fevereiro de 2007), apontando um dos motivos do enfraquecimento da extremidade sul do projeto de 1981, onde se pretendia estender as qualidades da reurbanização do Anhangabaú até o Largo da Memória e, dele, com a Praça da Bandeira. No segundo caso, a solução encontrada pelos arquitetos para a mudança de programa foi ocupar a esquina do vale com a avenida São João com um espelho d’água de 550 metros quadrados e, na parte rebaixada, de onde partiria o pontilhão, eles pensaram em criar uma praça com sanitários públicos e uma cafeteria, que jamais foi ocupada.

De fato, o êxito de um projeto de tal envergadura não se encerra na intenção do projeto urbanístico e arquitetônico, nem mesmo na sua implantação, interagindo ao longo do tempo questões de infraestrutura urbana, gestão e vocações das políticas públicas, entre outros. Assim, já no início dos anos 2000 o Vale do Anhangabaú apresentava problemas de uso pelos pedestres, aos quais pretende responder o projeto que está terminando agora de ser implantado.

 

No centro uma esplanada ininterrupta; nas laterais mobiliário urbano e arborização que ajustam o espaço monumental à escala da rua. Esses são os princípios complementares do projeto de requalificação e reurbanização do Vale do Anhangabaú, cuja implantação deverá estar concluída ainda neste mês de setembro. A área total de intervenção é de 55,6 mil metros quadrados, a extensão é de 450 metros e a largura média é de 90 metros

 

Dinamizando a esplanada central, de modo a se pensar não apenas no uso extraordinário – a realização de eventos para multidões – mas também naquele cotidiano, espelhos d’água criam manchas no piso que delimitam áreas de uso. Os jatos de água provém de aspersores embutidos no chão, de modo a não obstruir a circulação de pedestres e ciclistas. As manchas, aliás, resultam da análise dos fluxos principais de atravessamento do vale. A vista é do Viaduto do Chá em direção ao Santa Ifigênia

 

A iluminação tem circuito cenográfico para atuar conjuntamente com os movimentos da água. Postes de 18 metros de altura demarcam a esplanada, no centro do vale

 

O Vale do Anhangabaú do século 21: um projeto colaborativo

Seja pela escala – mais de 50 mil metros quadrados de área – seja pela importância do espaço na cidade – um território central e que faz a conexão entre zonas de extrema vitalidade -, o novo projeto está longe de ser consensual. Em junho passado, de fato, o aspecto da obra já em estágio adiantado de execução animou críticas severas ao empreendimento na imprensa geral e entre os arquitetos e urbanistas. Em resumo, questionou-se o valor empregado – mais de 90 milhões de reais por ora – e o caráter do projeto, interpretado como carente de áreas verdes e equivocadamente baseado no uso da água como elemento paisagístico. Em pauta também esteve a sua idealização sem a realização de concurso público.

No que diz respeito à autoria, coincidem os depoimentos de técnicos e gestores públicos com que conversamos para a elaboração deste texto, os quais acompanharam o projeto em momentos distintos do seu desenvolvimento. Todos afirmam que a não realização de um concurso aberto de projeto foi uma decisão a favor da qualificação da máquina pública, ou seja, de conjunto de secretarias da Prefeitura Municipal de São Paulo a fim de se habilitar a administração municipal a assumir trabalhos de tal envergadura. À realização de estudos pela municipalidade, como os que se sucederam no âmbito do Vale do Anhangabaú já a partir da primeira década do século 20 por causa da construção do Teatro Municipal ou como aqueles que quase resultaram no atravessamento aéreo do vale em 1980 por série de passarelas de pedestres – fato motivador do concurso de 1981, como citamos acima -, pretendeu-se, então, agregar metodologia nova de projeto: colaborativa e não autoral, ou seja, de criação coletiva.

Com tal argumento, explica-se que o arquiteto dinamarquês Jan Gehl não é o autor do projeto de requalificação do Vale do Anhangabaú e, portanto, que o profissional estrangeiro não foi beneficiado pela falta de concurso público de arquitetura e urbanismo. O arquiteto Luis Eduardo Surian Brettas, há quinze anos membro da SP Urbanismo, nos relata o cronograma e o mecanismo do processo de projeto: “Em 2007 [na gestão do prefeito Gilberto Kassab, do PFL], a Secretaria Municipal de Relações Internacionais trouxe o [arquiteto Jan] Gehl para comandar um ciclo de oficinas, das quais eu participei junto com outros técnicos da prefeitura. O objetivo era pensar, no médio e longo prazos, pontos importantes para o futuro da cidade de São Paulo. Saiu dali a pauta da requalificação do Vale do Anhangabaú, com a constatação da escassa permanência das pessoas na área”. E prossegue o arquiteto: “O nosso desejo era criar uma sistemática diferente de reflexão sobre a cidade. Não o projeto autoral, mas a difusão de metodologias novas junto ao corpo técnico da municipalidade e, neste sentido, o Anhangabaú foi um projeto muito importante”.

 

 

A metodologia nova a que se refere Brettas foram sessões coletivas de trabalho – oficinas ora para a leitura das pesquisas de campo ora para a identificação de problemas ou criativas -, por vezes restritas à participação dos funcionários públicos, por vezes abertas também a acadêmicos, representantes da sociedade civil e outros. No caso específico das consultorias prestadas pelo escritório dinamarquês para a Prefeitura Municipal de São Paulo, a metodologia com que a municipalidade buscava familiarizar-se tem o diferencial de estar referenciada na vivência das cidades pelas pessoas. Vale, nesse sentido, citar frases extraídas do próprio site gehlpeople.com, traduzidas aqui para o português: “O foco é criar cidades para pessoas / Suas escalas, sensações, movimentos, interesses, comportamentos e ligações com o entorno / Nos nossos projetos, empenhamos tempo contando, medindo e analisando os espaços que trabalhamos para qualificar, registrando assim a ‘vida’ que ocorre nas áreas de estudo, assim como as qualidades do ‘espaço’ circundante”.

 

Centralizada com a Praça Ramos de Azevedo, deverá ser implantado até o final de 2020 na outra lateral do vale um mirante panorâmico

 

Conforme Brettas, com a consultoria de Gehl em 2007, pautada pelo desejo de “(…) pensar, no médio e longo prazos, pontos importantes para o futuro da cidade de São Paulo”, concluiu-se, entre outros, que era preciso requalificar o Vale do Anhangabaú. “Não se tratava de um trabalho de manutenção apenas, mas de conceito, de projeto. Era necessário repensar o vale como um todo”, conclui o arquiteto.

No início da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), em 2013, o assunto voltou à tona. “Com a mesma secretaria [Secretaria Municipal de Relações Internacionais] resolvemos [a SP Urbanismo era liderada, na época, pelo arquiteto Gustavo Partezani, ex-integrante do escritório Piratininga Arquitetos e fundador do URBR estratégias urbanas] trazer Gehl para uma nova rodada de oficinas específicas sobre o Vale do Anhangabaú”, relata Brettas, explicando que a segunda consultoria, então, foi a continuação daquela precedente: “Antes, identificamos que o Anhangabaú era uma questão importante. Depois, passamos para o pensamento em si, dos termos para a sua requalificação”, destaca o arquiteto.

 

 

O arquiteto Fernando de Mello Franco, que foi Secretário de Desenvolvimento Urbano na gestão de Haddad, comentou em termos similares o mecanismo e o contexto do projeto de requalificação do Anhangabaú, enquadrando-o porém no conjunto maior das diretrizes do governo Haddad: “A requalificação de espaços públicos era um dos cinco eixos do nosso Programa de Metas, articulado, por sua vez, em três tipos paralelos de ações no que diz respeito ao Centro da cidade: a ampliação e a melhoria da rede de calçadões, o projeto Centro Diálogo Aberto e, nele, a configuração de um eixo emblemático, articulador. Tudo isso com a interação importante de políticas setoriais diversas”. O eixo emblemático, no caso, era o próprio Vale do Anhangabaú, enquanto que o Centro Diálogo Aberto era o princípio colaborativo de trabalho, cuja eficácia metodológica e ineditismo de programa foram testados através de conjunto de intervenções pontuais feitas em espaços abertos do Centro de São Paulo. Inicialmente idealizadas para durarem três meses, tais ações – ou projetos pilotos – não apenas continuam existindo como serviram ainda de modelo para a expansão da iniciativa para outras regiões da cidade. O objetivo era testar na pequena escala – Largo São Francisco, Largo do Paissandu e Avenida São João, Rua Galvão Bueno e Largo São Bento foram os projetos executados entre 2013 e 2016 – modos de fazer o pedestre permanecer no espaço público pelo qual circula cotidianamente, testando-se a eficácia de tipos de mobiliário e de atividades recreativas por exemplo para atrair as pessoas para permanecerem nos locais. “Eram protótipos de cidade, na escala 1:1, ações de urbanismo tático. Prototipamos formas de ressignificar o espaço público”, analisa Mello Franco.

O escritório de Jan Gehl comandou paralelamente ambas as frentes de projeto, sendo que as oficinas específicas sobre o Vale do Anhangabaú foram realizadas entre 20 e 28 de agosto de 2013 . “Nos interessava a metodologia colaborativa e a capacitação da máquina pública. A não realização de concurso público [para a reurbanização do Anhangabaú] foi a nossa crença de que o poder público importa”, depõe o ex-secretário. Ele resume os itens aos quais responde o projeto de requalificação do vale: à melhoria da infraestrutura técnica subterrânea, à adequação da esplanada para acolher grandes eventos, à necessidade de se organizar o fluxo de veículos – tanto os que acessam as garagens voltadas para o Anhangabaú quanto os de concessionários ou de autoridades públicas -, à ocupação do térreo dos edifícios na cota do vale por atividades que interessem ao transeunte – a “ativação” destas construções – e ao equacionamento do nó – o espelho d’água/chafariz e a praça rebaixada – no prolongamento da Avenida São João, desde sempre um dos pontos controversos da obra inaugurada em 1992.

 

Da colaboração à obra

Mas, como transpor princípios e ideias, colaborativas, para um projeto de tamanha complexidade e importância? Brettas explica que as oficinas comandadas pela equipe de Gehl serviram sobretudo para a definição do programa do projeto e, desse modo, para a obtenção de um consenso sobre o futuro do vale: o seu significado para a cidade, problemas e potencialidades. “De todas as análises de campo e proposições, assim, formulou-se o programa de modo a conciliar interesses e backgrounds dos agentes envolvidos. Depois, a equipe de Gehl elaborou artisticamente as conclusões do processo, configurando um estudo conceitual. Com ele, trabalhamos na SP Urbanismo para consolidar o edital de licitação do projeto básico”.

No final de 2013, assim, a equipe dinamarquesa finalizou a sua participação no projeto de requalificação do Vale do Anhangabaú, tendo sido publicado no Diário Oficial da Cidade de São Paulo em 6 de dezembro daquele ano a resolução da Comissão Executiva da Operação Urbana Centro de destinar R$ 2,89 milhões de reais “para a contratação de empresa ou consórcio de empresas especializadas em engenharia e arquitetura e urbanismo para a elaboração de projetos Básico e Executivo e modelo de gestão para a Requalificação e Reurbanização do Vale do Anhangabaú e entorno, condicionando a aprovação do estudo preliminar e projeto conceitual [o que ocorreu em 20 de janeiro de 2014] por esta comissão executiva”. Ao que se seguiu, em 25 de abril de 2014, o anúncio da abertura da Concorrência nº. 037140100 para a “contratação de empresa ou consórcio de empresas especializadas na prestação de serviços de arquitetura e urbanismo, engenharia e gestão do espaço público, para a elaboração de projetos básicos completos, detalhamentos executivos e demais peças técnicas especificadas no Termo de Referência, constante do anexo 1 deste edital, visando a requalificação e reurbanização do Vale do Anhangabaú e entorno”. Note-se que de uma para outra publicação mudou o escopo da contratação, evoluindo-se para o peso maior dado ao projeto básico – citado em 2014 como “projetos básicos completos” – e para a supressão da necessidade de elaboração do modelo de gestão que estava citada em dezembro de 2013.

Venceu a concorrência de abril de 2014 a empresa PJJ Malucelli Arquitetura – o anúncio da vitória foi publicado no Diário Oficial da Cidade de São Paulo em 10 de outubro de 2014, citando-se a remuneração do trabalho com o valor de “R$ 2.092.998,62 (dois milhões, noventa e dois mil, novecentos e noventa e oito reais e sessenta e dois centavos) a preços de Junho de 2014” -, portanto, menor do que os R$ 2,89 milhões de reais aprovados em dezembro de 2013. A diferença terá sido empregada no pagamento da etapa seguinte, de projeto executivo, atrelada à execução da obra pelo Consórcio Central – formado pelas construtoras FBS Construção e Lopes Calil Engenharia?

Em 2009, o escritório paulistano Biselli Katchborian Arquitetos havia se associado à  curitibana PJJ Malucelli na concorrência para a implantação do Terminal 3 do Aeroporto de Cumbica, em São Paulo, motivo pelo qual explica-se a designação do arquiteto Mario Biselli para gerenciar o projeto urbano e de arquitetura da requalificação do Vale do Anhangabaú.

 

Recuperar a ligação do vale com a avenida São João é uma das diretrizes centrais do projeto atual. Nesta fotoinserção vê-se também a importante presença da Praça das Artes, cuja frente para o Anhangabaú foi concluída pouco antes do início da obra de requalificação do vale

 

O desenvolvimento do projeto

Foi em novembro de 2014 que Mario Biselli e equipe começaram a desenvolver o projeto básico de requalificação do Vale do Anhangabaú. “A parte conceitual estava toda lá e eu gostei do projeto”, resume o arquiteto, citando porém, por meio da metáfora da “lapiseira que caiu na minha mão“, a natureza da sua tarefa, de dar forma e materialidade às diretrizes dos estudos conceitual e preliminar.

Biselli analisa coerente a sinergia do projeto conceitual com a situação incomum do Anhangabaú na cidade de São Paulo: “Seus 500 metros de extensão são uma linha reta, perfeita, monumental. A decisão foi por fazer uma praça e não um parque, onde possa haver aglomerações de pessoas em eventos especiais sem o prejuízo, contudo, dos lugares acolhedores, pensados para as laterais do vale. Neles é que se trabalha a escala da rua, com as fachadas ativas, o mobiliário, os comércios e as árvores. No miolo, as áreas molhadas são manchas desenhadas de modo a manter secos os cruzamentos e, assim, permitir a transposição do espaço por pedestres e ciclistas. Todos caminhos que foram mapeados nas oficinas iniciais do projeto”.

 

 

Comparando as fases conceitual e de projeto básico, percebe-se que não houve alterações importantes, mantendo-se os princípios gerais, de criação de:

– uma esplanada passível de abrigar desde multidões até grupos menores simultaneamente, feita com piso de concreto em placas – antes, havia no local o piso de mosaico português

– espelhos d’água flexíveis e que não obstruem o caminho, compostos por conjuntos de aspersores de água organizados em grupos conforme o mapa de fluxos pesquisado no início do projeto

– zonas laterais e nas extremidades do vale, desenhadas na escala da rua

– iluminação com tipologias complementares: os postes de 18 metros que delimitam a esplanada central, os postes de 15 metros sob as copas das árvores e aqueles de 10 metros, junto aos bancos e quiosques

– novas áreas arborizadas, sobretudo para a configuração das chamadas marquises verdes nas laterais do vale

– quiosques multifuncionais e mobiliário misto, de concreto e madeira, ao longo de toda a extensão do espaço e também nas suas extremidades

– a valorização do eixo da avenida São João, liberado das obstruções físicas

– criação de novas galerias técnicas subterrâneas, visitáveis sem a necessidade da quebra de pisos

De acréscimos, Biselli aponta a ideia de criar-se um mirante e arquibancada para a visualização panorâmica do Vale do Anhangabaú junto ao edifício Sampaio Moreira, etapa da obra que não ficará pronta em setembro – está prevista para ser concluída ainda este ano, assim como parte do mobiliário multifuncional – e de bancos que podem ser usados também para a prática do skate – na Praça Pedro Lessa. O arquiteto assinala adicionalmente a transformação das barracas, como citado no projeto conceitual, em quiosques feitos com estrutura metálica e servidos por decks de madeira, assim como a viabilização do reaproveitamento da água. “No início do projeto básico, em dezembro de 2014, São Paulo vivia o auge da crise hídrica [de abastecimento dos reservatórios de água da cidade]. Agora tem a pandemia [do Covid-19, a interpor-se às aglomerações públicas]. Quando terminar, o vale estará lá, reformulado e pronto para receber os usos para que foi projetado”.

 

 

Para fazer funcionar

Quando assumiu em 2018 o comando da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano – em 6 de abril daquele ano, o prefeito João Dória (PSDB) passou o cargo para o vice-prefeito, Bruno Covas (PSDB), a fim de concorrer às eleições estaduais daquele ano – o arquiteto Fernando Chucre, vindo da chefia da Secretaria da Habitação, deparou-se com o Consórcio Central (vencedor de concorrência pública aberta após a finalização do projeto básico) já contratado para a elaboração do projeto executivo e a execução da obra de requalificação e reurbanização do Vale do Anhangabaú. A assinatura do contrato ocorrera em 24 de novembro de 2017, no valor de R$ 79.934.920,45, mas Chucre assinala que não havia qualquer determinação pela implantação do projeto. “[Fernando] Haddad havia deixado o processo pronto para a execução da obra, mas não existia a decisão por fazê-la. Apresentamos o projeto ao [Bruno] Covas e salientamos a sua importância no conjunto de ações para a requalificação do Centro da cidade. Tínhamos a disponibilidade de recursos no Fundurb [o Fundo Municipal para Desenvolvimento Urbano], que teve arrecadação excepcional em 2018 e [depois] em 2019 também. A resolução, então, foi pela execução da obra”, depõe o secretário.

A obra de Requalificação e Reurbanização do Vale do Anhangabaú, assim, foi iniciada em junho de 2018 e inicialmente prevista para terminar em 26 de agosto passado. Mas conforme o mais recente dos aditamentos do contrato da prefeitura com o Consórcio Central, o término é esperado para 20 de setembro.

 

A água é elemento central do projeto, alusiva tanto às origens do Vale do Anhangabaú – um espaço alagável que foi transposto para ampliar a cidade para além da colina histórica – quanto ao tipo de recreação que se tornou importante em São Paulo desde a inauguração do Sesc 24 de Maio, de autoria de Paulo Mendes da Rocha e MMBB Arquitetos

 

Ampliar o horário de permanência das pessoas no vale é uma das apostas do projeto

 

Mello Franco credita à retomada do mercado imobiliário paulistano em 2017 o salto de arrecadação do Fundurb nos dois anos sucessivos, situação econômica inexistente no período da sua permanência na prefeitura. Chucre, por sua vez, relembra que a verba destinada à obra do Vale do Anhangabaú é parte dos 40% de uso variado do Fundurb, sendo os 60% restantes igualmente destinados à moradia e mobilidade. Cita também a perspectiva do início de vigência do PIU Central, que deverá substituir, ampliando o raio de abrangência com a inclusão do Brás e do Bom Retiro, entre outros, a Operação Urbana Centro, de 1997, por sua vez substituta da Operação Urbana Vale do Anhangabaú, a primeira da cidade de São Paulo, criada pela então prefeita Luiza Erundina (PT) em dezembro de 1991, nas vésperas da inauguração da obra de reurbanização do vale conforme o projeto de Kliass, Wilheim e equipe.

O sucesso do novo projeto não poderá ser medido imediatamente após a inauguração da obra e isso não apenas em função das restrições de aglomeração por causa da pandemia do Covid-19 nem do tempo necessário para que cresçam as árvores transplantadas no local, com a altura média de 1,50 metros. Depende também da vitalidade dos espaços a que se conecta o vale – a conclusão do projeto da Praça das Artes, por exemplo, é um bom sinal no âmbito local, tendo sido finalizada a execução da chamada frente para o Anhangabaú pouco antes do início da obra em 2018, assim como é favorável a perspectiva de efetivação do projeto global de requalificação e ampliação dos calçadões da zona central da cidade -, e da capacidade de se ocupar o vale com a variedade, qualidade e quantidade das atividades previstas no projeto de gestão do espaço. Houve mudanças em relação ao modelo elaborado no período de Haddad, assinala Mello Franco, sobretudo no que diz respeito, na sua visão, à maior liberdade de curadoria dada ao futuro concessionário – a abertura dos envelopes da concorrência foi reprogramada para 16 de setembro – e também à destinação de equipamentos estratégicos como a Galeria Prestes Maia. Ao que Chucre responde que, mesmo na pequena escala, ou seja, a escolha dos operadores dos quiosques, o uso deverá ser aprovado pela prefeitura. Antes do final do ano, assim, e na melhor das hipóteses, não devem estar em funcionamento os quiosques.

Para Brettas, a requalificação do Vale do Anhangabaú é o início de um processo maior de requalificação do Centro de São Paulo. Para Chucre o cenário é favorável, pensando-se no conjunto de projetos em desenvolvimento e na perspectiva de se aumentar o número de moradias na zona. Para Mello Franco o impacto positivo das ações de pequena escala, os Projetos-Pilotos do Centro de São Paulo, deixou a pergunta sobre a maior eficácia de se ter investido prioritamente naquele tipo de ação. Para Biselli, o mérito da gestão de Haddad foi ter mudado a relação das pessoas com os espaços públicos de São Paulo. Uma qualidade que será vital para o sucesso do novo projeto.

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