Os dados alarmam, mas os feitos inspiram: é preciso olhar para as mulheres na arquitetura e urbanismo

Estávamos trabalhando na produção desta edição especial e, de repente, morre Paulo Mendes da Rocha, em 23 de maio. O abalo foi geral e os relatos, muito comovidos, compartilhavam a sensação de que o mestre não morreria, jamais! Respiramos fundo e fomos nos conscientizando de que, calma, o legado fica. E, então, logo depois, a morte de Jaime Lerner em 27 de maio veio chacoalhar novamente as nossas bases.

Começo evocando dois homens arquitetos e urbanistas que, heróis da profissão, encarnariam, a princípio e muito superficialmente, o que se quer repelir sob a perspectiva feminista. E, de fato, como assinalamos nos textos a seguir, é um problema que a história da arquitetura seja a de muitos alguns e de poucas algumas. O momento é de revisão crítica e de relativização das afirmações consagradas, de modo a encorajar novos horizontes, valorizar o coletivo, os processos de projeto e a invenção dos programas de trabalho: para quem se endereçam os projetos?

Isso bastaria se fossem igualitárias as condições de trabalho para homens e mulheres, brancos e negros, indivíduos de todas as classes sociais e etnias. Mas não é essa a realidade e, por isso, iluminar as injustiças é o mínimo que se pode fazer nesse momento da humanidade, também no campo da arquitetura e urbanismo, de que tratamos.

Procuramos nesta edição especial da PROJETO pulverizar os enfoques sobre o assunto e os tipos de abordagens ao longo das seções, de modo a oferecer ao leitor um horizonte o mais amplo possível, sem renunciar, contudo, aos projetos. Na primeira parte, chamo a atenção para os dados apresentados pelo CAU/BR, no texto de Ana Laterza, arquiteta e urbanista da assessoria especial da Presidência, responsável pelo desenvolvimento do 1º Diagnóstico Gênero na Arquitetura e Urbanismo da autarquia. A disponibilidade de Ana para colaborar com a edição é atitude generosa, que encontrei em todas as mulheres que consultei ou de quem resgatei depoimentos utilizados na edição – vão aqui os meus agradecimentos a Maria Elisa Baptista, Nadia Somekh, Anna Juni, Maria Teresa Diniz, Sabrina Fontenelle, Ana Paula Santoro, Ana Gabriela Godinho, Ruth Verde Zein, Ester Carro, Luciana Lana, Simone Gatti, Inés Moisset, Elizabeth de Portzamparc e Maria Helena Salomon.

Seguindo para as matérias de obra e projeto, compartilho com leitoras e leitores o critério para a escolha dos projetos: nosso pressuposto é que também escritórios mistos são representativos da produção feminina na arquitetura e urbanismo, desde que – este foi o nosso juízo – falássemos sobre projetos liderados por mulheres.

Somadas, as várias inserções nesta revista criam um retrato tocante. Bianca Antunes se disse emocionada ao entrevistar Gabriela de Matos, e Bianca não é novata no assunto – é coordenadora do Fundo FICA (Fundo Imobiliário Comunitário para Aluguel), cursou Cooperação Internacional em Desenvolvimento Urbano e em Arquitetura Sustentável Emergente na Alemanha e Espanha e, além disso, está desenvolvendo na Pistache Editorial um jogo de cartas cujas protagonistas são arquitetas e urbanistas mulheres, que “trará informações e ilustrações sobre as profissionais, incentivando o conhecimento sobre suas vidas e carreiras, e inspirando crianças e adultos”.

Para finalizar, volto a mencionar Paulo Mendes da Rocha, de quem ouvi certa vez que ao jornalista cabe a tarefa de nos trazer notícias. Ele se referia, na ocasião, a novidades extraordinárias, mas gosto de pensar que que a notícia não é apenas relativa ao presente que olha o futuro, mas também ao presente que olha o passado para, assim, contribuir com o futuro. Não é isso o que todos os interessados na abordagem feminista da arquitetura e urbanismo estão fazendo, afinal? (Por Evelise Grunow)

 


Veja algumas das matérias
publicadas neste especial:

 

 

Mulheres na arquitetura: perspectivas

 

O CAU Brasil na promoção da equidade de gênero

 

A formação de uma arquiteta: caminhos percorridos| Por Elisabete França (Introdução de Maria Teresa Diniz)

 

Entrevista – Gabriela de Matos

 

Studio MK27: Patina Hotel Maldives, Fari Islands, Maldivas

 

Una Arquitetos: Edifício Bandeira, São Paulo

 

AR Arquitetos: Edifício Rosa, São Paulo

 

Arquitetura Nacional: Unicred do Brasil, Porto Alegre

 

Carla Juaçaba: Casa Santa Teresa, Rio de Janeiro

 

Muna Hauache: Casa da Floresta, Manaus

 

 

De Julietas a Tainás | Por Maria Elisa Baptista e Observatório Amar.é.linha

 

O futuro da arquitetura é feminino | Por Nadia Somekh

 

 

 

 

Publicada originalmente na revista PROJETO edição 453 (Mulheres na Arquitetura) – 2021

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