Mesa redonda: Daniela Sarmento, Luiza Coelho, Ana Laterza e Ines Moisset

Em agosto de 2020 o CAU/BR instituiu o 31 de julho como o Dia Nacional da Mulher Arquiteta e Urbanista, celebrado pela primeira vez, portanto, agora em 2021. A data tem dupla motivação: comemorativa e de defesa da igualdade de gênero na - e através da - profissão. Nós, da revista PROJETO, lançamos recentemente uma edição especial sobre o tema e a nossa intenção é acompanhar ativamente a pauta, abrindo espaço para as mais diversas manifestações correlatas. Para isso, promovemos em 15 de julho passado um encontro virtual de Daniela Sarmento com Luiza Coelho, Ana Laterza e Ines Moisset, da Argentina, abordando passado, presente e futuro do tema, bem como suas ramificações temáticas.

O quarteto é representativo de diferentes frentes, tipos de abordagens e lugares de ação sobre o tema mas, embora as suas trajetórias e campos diversos de atuação, a preocupação unânime desse time de arquitetas e urbanistas é consolidar o espaço alcançado nos últimos cinco anos, institucional e midiático, e lançar as bases efetivas de programas a favor do desenvolvimento igualitário da profissão e seus beneficiários.

Daniela Sarmento é a atual vice-presidente do CAU/BR para o triênio 2021-2023. Antes, foi a presidente do CAU/SC no triênio 2018-2020 e autora do livro Lugares das Mulheres: Participação da mulher na construção da sociedade contemporânea, sobre a sua tese de mestrado em Desenvolvimento Regional defendida em 2017 na FURB (Universidade Regional de Blumenau), é a curadora da Plataforma do Morar Contemporâneo, atualmente em processo de estruturação. Ela é sócia proprietária do escritório Terra Arquitetura e Planejamento Ltda. Atua na área de projetos de arquitetura e desenho urbano.

Luiza Coelho é co-criadora, em 2013, do Coletivo Mulheres Invisíveis. Graduada em 2017 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, possui experiência em arquitetura social e arquitetura e urbanismo sob a perspectiva de gênero. Seu mestrado, em curso na UnB tem foco na catalogação da produção feminina que construiu e constrói Brasilia. Atualmente é Vice-presidente de Ações Afirmativas da Direção Nacional do IAB.

Ana Laterza, formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília e especializada em Restauro e Conservação pela Facoltà di Architettura do Politecnico di Torino, na Itália, é assessoria especial da Presidência do CAU/BR, responsável pelo desenvolvimento do 1º Diagnóstico Gênero na Arquitetura e Urbanismo do CAU Brasil.

Inés Moisset, graduada arquiteta e urbanista pela Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, doutora pela Università Iuav di Venezia, na Itália, ex-editora da revista 30-60 Cuaderno Latinoamericano de Arquitectura, investigadora do Conicet – Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas da Argentina – e co-fundadora e coordenadora do Coletivo Un día | una arquitecta.

 

O que despertou em vocês a preocupação com a equidade de gênero na arquitetura e urbanismo? Como tudo começou para vocês?

Daniela Sarmento Inicialmente através do meu mestrado, sobre desenvolvimento regional, na FURB. Estava interessada na questão do eco-desenvolvimento da cidade e no meio do processo percebi que a mulher é um agente estratégico de transformação. Decidi, então, aprofundar a minha pesquisa, entendendo o papel das mulheres na evolução das cidades. Também no plano pessoal, foi a primeira vez que parei para pensar na minha condição de mulher arquiteta. Em seguida, veio o convite para que eu participasse de uma chapa só de mulheres nas eleições para Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Santa Catarina. Em 15 dias organizamos o grupo todo, com 35 mulheres querendo participar do conselho. Me elegi presidente e passamos de 2 para 7 conselheiras eleitas, ou seja, 50% de mulheres no conselho. Em 2018 o CAU começou a participar da plataforma ONU Mulheres e, assim, a provocar, na escala do Conselho, o entendimento do papel das mulheres na arquitetura. Acontece, então, todo um movimento coletivo dentro do CAU, em vários Estados, que nos deu a chance de fazer o Diagnóstico de Gênero e a instituir os ciclos de debates. Lançamos a problemática do gênero na arquitetura também com a informação importante de que somos maioria mulheres na profissão. Foi um processo sincrônico e muito intenso, assim como a minha trajetória tanto pessoal, quanto acadêmica e de representação política.

Inés Moisset Comecei a ouvir falar sobre tema na Universidade Nacional de Córdoba, aonde me formei em 1992. Havia a presença marcante de Ana Falú, por exemplo, que depois da ditadura voltou do seu exílio e formação na Holanda e distintos países latino-americanos, falando sobre habitação social e direito universal e, portanto, sobre o tema da mulher. Em 2010 comecei uma investigação, como membro do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina, sobre distintas formas de ensino nas escolas de arquitetura. Estudando a Bauhaus e outros exemplos típicos, era evidente o quanto se deixou de mencionar a maioria de mulheres que colaborava nas aulas, nas publicações, nas exposições. Em paralelo, eu já vinha sendo convidada para congressos, conferências etc, e me dei conta de que era sempre a única mulher presente. Tudo isso começou a me fazer um pouco de ruído porque, trabalhando na revista 30-60, eu sabia que havia mulheres arquitetas muito competentes. Junto com um grupo de colegas então, como a Zaida Muxi, pensei em criar uma ação, de publicar nas redes sociais uma biografia de arquiteta por dia, durante um ano. Era um modo de ter alcance maior do que o de um livro ou de paper de investigadora, capaz de fazer desabrochar um ativismo. Deveria durar um ano, mas o grupo cresceu, alcançou a marca de 90 redatoras e redatores com um site que teve mais de 2,5 milhões de visitas. Estamos prestes a começar o 5º ciclo. Importante mencionar também o contexto do movimento Ni una a menos, da Argentina, contra o feminicídio, que ganhou força em 2017.

 

Inés Moisset

 

Estudando a Bauhaus e outros exemplos típicos, era evidente o quanto se deixou de mencionar a maioria de mulheres que colaborava nas aulas, nas publicações, nas exposições.” (Inés Moisset )

 

Luiza Coelho Comecei a me envolver com o tema junto com o movimento estudantil da UnB, na qual me formei. O primeiro censo do CAU deixou claro que as mulheres são a maioria na profissão, uma realidade que vivenciávamos também na escola. Com a bienal de arquitetura de 2011 a Folha de São Paulo havia lançado uma coleção sobre arquitetos e dos 18 volumes apenas a Zaha Hadid era mulher. Começamos a nos perguntar sobre outras arquitetas reconhecidas e não passávamos de 3 exemplos, nem os professores conseguiam aumentar a lista. Criamos, então, uma página no Facebook com a pretensão de publicarmos uma arquiteta a cada mês ou quinzena, que veio a se chamar Arquitetas Invisíveis. Tem uma fala da Beatriz Colomina sobre as mulheres serem fantasmas na arquitetura moderna – extremamente necessárias mas invisíveis. Em 2014 fizemos uma exposição na própria faculdade, mostrando o trabalho de 27 arquitetas. Durou uma semana, acompanhada por ações sobre gênero na profissão. A ideia era fazer um catálogo e seguir a vida, mas vimos que não dava para parar. No final da mostra eram 10 mil as curtidas na nossa página do Facebook e muito maior o universo de alunos interessados na questão. Isso nos mudou profundamente, inclusive o objeto do meu trabalho teórico para a graduação. Fui investigar um panorama geral da mulher na arquitetura, desde a primeira a receber um diploma, em 1880, até 2014. Foi grande a dificuldade em encontrar trabalhos referenciais em português, enquanto nós, por outro lado, que tínhamos trabalhado tanto para pesquisarmos as mulheres da mostra, não tínhamos para onde mandar o material que produzimos porque não existia essa linha temática em congressos, nas revistas etc. Tivemos a ideia megalomaníaca, então, de 5 alunas fazerem uma revista. A primeira revista feminista em arquitetura e urbanismo nacional: a Arquitetas Invisíveis, que teve duas edições financiadas coletivamente. Montamos também um site com os perfis das profissionais, algo muito mais simples do que Un día | una arquitecta, que é um banco de dados maravilhoso. A nossa presença online começou a ficar mais interessante com a criação de um diálogo e me deu um clique quando recebemos a notícia da chapa 100% feminina para o CAU de Santa Catarina, de que era importante nos envolvermos politicamente além de sermos abertamente feministas. Só assim pode haver mudanças. Eu me formei, entrei no IAB/DF, onde conseguimos criar uma comissão de equidade de gênero e raça e no último Congresso de Arquitetos Brasileiros, que foi em Porto Alegre, mobilizamos um grupo de mulheres de dentro e de fora do instituto para criarmos um grupo de equidade de gênero na Direção Nacional – a Comissão Rosa Kliass. É importante pluralizarmos o que é a boa arquitetura porque as premiações reconhecem sempre o mesmo perfil de profissional, que no Brasil é uma minoria, e em vários lugares do mundo também. Discutir feminismo na arquitetura é também discutir habitação de interesse social – as mulheres são maioria de arrimo de família nas classes C e D.

 

Luiza Coelho

 

A nossa presença online começou a ficar mais interessante com a criação de um diálogo e me deu um clique quando recebemos a notícia da chapa 100% feminina para o CAU de Santa Catarina, de que era importante nos envolvermos politicamente além de sermos abertamente feministas.” (Luiza Coelho)

 

Ana Laterza Estou no início ainda e a minha experiência é vinculada ao meu trabalho no CAU. O marco, para mim, foi em 2018 quando a nossa assessoria de comunicação fez uma arte para o 8 de março, com um quadro do Degas – tinha as bailarinas e uma letra rosa. Pedimos para barrar e fizemos uma mini plenária com as mulheres funcionárias para entendermos como poderíamos nos posicionar. Homenagear a luta das mulheres no dia 8 de março não tem nada a ver com mandar flores. Naquela época eu assessorava a Comissão de Relações Internacionais e encontrei na plataforma da ONU os princípios de empoderamento feminino, aos quais as empresas e instituições poderiam aderir se comprometendo a promover a equidade. A comissão aprovou a proposta de adesão. Me lembro também de 14 de março, quando eu estava em uma reunião no Palácio do Itamarati e no Congresso havia uma sessão solene pela morte da Mariele [Franco]. Chegando lá, vi uma rede de mulheres muito emocionadas e aquela energia me contaminou. Eu tenho duas filhas pequenas. Para mim, individualmente, era mais tranquilo pensar que devo cavar meu espaço no mundo, mas comecei a ver o quanto rapidamente a sociedade desconstruía o que eu construo com elas em relação aos esteriótipos de gênero. Isso me fez ter mais vontade de mudar o que está posto e uma coisa levou a outra. Conheci a Daniela [Sarmento], pela chapa de Santa Catarina, montamos a primeira comissão de gênero e, de um dia para o outro o questionário do diagnóstico. Na hora de fazer a tabulação das respostas me questionei como até hoje não havíamos abordado a questão sobre raça na profissão, sendo que o CAU fez o primeiro censo em 2012 com a participação de 99% dos arquitetos. Não tinha informação sobre deficiência, raça. Das mais de 50 perguntas, uma apenas era sobre gênero. Homens e mulheres pareciam grupos universais. Mulheres e homens têm já discrepância grande na profissão, mas é muito maior, um abismo mesmo, quando se compara mulheres negras com homens brancos. Em 2018 tentamos traçar a trajetória da representatividade, levantamos dados desde a graduação, até a prática profissional, da emissão de RT, da quantidade de mulheres premiadas em concursos, quantas são conselheiras federais do CAU. Vimos que vai afunilando cada vez mais e quando chega nos níveis mais altos de reconhecimento, quase não há mulheres.

 

Ana Laterza

 

Mulheres e homens têm já discrepância grande na profissão, mas é muito maior, um abismo mesmo, quando se compara mulheres negras com homens brancos.” (Ana Laterza)

 

Qual a importância da comunicação em massa para o fortalecimento da pauta feminista na arquitetura?

LC Posso começar a resposta contando uma história pessoal. Meu mestrado [em andamento] é um mapeamento de obras construídas no Plano Piloto de Brasília, de autoria feminina. Na etapa de entrevista para a aprovação do tema fui questionada sobre a inexistência de trabalhos teóricos que me servissem de base e eu argumentei que esse não seria um problema porque, desde a graduação, venho correndo por fora quando há falta de matéria referencial. Pensando depois, me perguntei se o problema era o assunto – é o segundo da história recente da FAU/UnB sobre esse tema, agora tem o terceiro que é o da Ana [Laterza]. É muito difícil aprovar o tema se não se pretende falar de uma arquiteta especificamente, o que volta para a visão individualista da profissão. Mas retomando a sua questão, o boom da pauta feminista na arquitetura só foi possível por conta da rede. Em 2014 era muito solitário falar sobre o tema, principalmente com os agravamentos políticos no pais. Nós não falávamos abertamente, nas redes, que éramos feministas e nos comunicávamos com uma linguagem visual agradável, não agressiva. Com o passar do tempo, contudo, vimos que era preciso levantar as bandeiras importantes e virarmos ativistas online. A rede pavimentou e permitiu juntar mulheres, inserir comissões de gênero nos congressos. Já teve evento que foi todo reformulado por conta disso. Não fosse a facilidade de difusão do conhecimento e a generosidade das mulheres não conseguiríamos estar aonde estamos hoje. Mas acabamos percebendo que não bastava adicionar nomes de mulheres incríveis e passamos a nos dedicar a outras questões, como o urbanismo tático, o LGBTQIA+.

IM Nosso trabalho é baseado no voluntariado, vamos nos somando, nos revezando na redação das biografias das arquitetas em um grupo flutuante. Precisamos de financiamentos, mas não é fácil porque no campo da investigação os financiamentos se restringem a certos aspectos. Outra preocupação é sobre a manutenção da informação. E se desaparecer o WordPress? Todo o nosso trabalho será perdido.

 

Daniela, gostaria de que você contextualizasse a sua resposta no aspecto da simultaneidade de frentes distintas de atuação.

DS Percebo que o desafio é conectar as diferentes iniciativas e sedimentar os conhecimentos gerados. Foi importante estabelecermos o ciclo de debates no CAU, o dia 31 de julho para as mulheres arquitetas e urbanistas, a obrigatoriedade de cada gestão atualizar o diagnóstico de gênero, criarmos um site focado nos resultados de todo esse trabalho, termos um eixo temático no Congresso Brasileiro de Arquitetos sobre o tema. É importante termos a revista PROJETO hoje atenta a este enfoque, enfim, conseguimos despertar o interesse e o conteúdo disponível é muito maior agora do que em 2017. São pontos para uma agenda política permanente. Mas começa uma fase de organicidade, de nos perguntarmos que rede é essa que formamos? Aonde estão as mulheres participantes do debate? Quais os meios que temos para nos encontrar? Além disso, temos que decidir o que fazer a partir do nosso encontro. Precisamos criar as ações e constituir parcerias para que as transformações aconteçam de forma mais estruturada. Politicamente, temos que ter clareza do momento de cada ação porque corremos o risco constante da desarticulação. Vejo a experiência do próprio CAU/SC. Temos hoje 64% mulheres conselheiras, é uma continuação sem dúvida, mas politicamente tivemos alguns retrocessos e a nossa influência é menor. Isso nos serve de aviso. Já ocupamos o nosso espaço e temos condições de transpor o recorte de gênero. O próximo desafio é entender o que faz a rede de arquitetas na política do CAU, é aprofundarmos as ações possíveis a partir das diretrizes que construímos coletivamente na gestão passada. A política de equidade está parcialmente formada, temos agora que olhar para o trabalho das comissões, para o exercício profissional, para a ética, para a formação. Foi um processo intenso até aqui, agora temos que cuidar da nossa influência. O que faz essa rede que criamos? Gosto de quando a Luiza menciona que o que foi pavimentado até aqui nos fortalece, nos estrutura, mas e daqui para a frente? O que faremos com isso? No campo da prática profissional acho que o desafio é com as próprias mulheres em relação à autoria, à sua presença no grupo do escritório, na obra. A sua condição de mulher no exercício profissional. Temos ainda muitas provocações para fazer.

 

Daniela Sarmento

 

Precisamos criar as ações e constituir parcerias para que as transformações aconteçam de forma mais estruturada. Politicamente, temos que ter clareza do momento de cada ação porque corremos o risco constante da desarticulação.” (Daniela Sarmento)

 

Você conviveu com a marina Waisman, Inés. Qual a importância que ela teve para a sua trajetória de pesquisadora e ativista?

IM Ter acompanhado o trabalho de uma crítica de arquitetura, com todas as suas ferramentas intelectuais, é, em si, um privilégio. Ela falava sobre o patrimônio modesto, ou seja, não concebido por grandes autores que, enfim, é também uma valorização do tema do gênero, das mulheres que constroem esse patrimônio modesto. No século 19 se ensinava a construir grandes palácios, instituições etc, mas a moradia, por exemplo, não era um campo de ação dos arquitetos. Embora sejam dados difíceis de se encontrar, pesquisando podemos dizer que foram as mulheres que desencadearam o tema da moradia até princípios do século 20, quando a arquitetura moderna, então, se deu conta de que este poderia ser um espaço de atuação profissional. Creio que a valorização do patrimônio através do olhar para outras maneiras de atuar é já algo muito interessante. Por outro lado, foi importante o aporte de Marina com a história de arquitetura situada, na América Latina, percebendo o erro de se adotar o ponto de vista eurocêntrico e defendendo a produção de histórias locais. É impressionante o tema do colonialismo. Penso, enfim, que Marina com a sua historiografia para a América Latina nos deu ferramentas para pensarmos a história da arquitetura de uma maneira diferente, útil também para refletirmos sobre a perspectiva do gênero.

 

Quais são os próximos passos dos seus trabalhos?

LC Tenho focado no mapeamento dos diversos níveis de agressões e barreiras que sofremos nas instituições, desde as interrupções constantes das falas das mulheres até obstáculos maiores que só se colocam para nós. Agora que são várias as presidentes mulheres em entidades nacionais, é preciso criarmos processos de governança para termos as condições de fazer o nosso melhor nos cargos que ocupamos.

DS O erro de uma mulher é reverberado infinitamente e também é exagerada a expectativa de acerto que projetam no nosso trabalho. Mas eu destacaria três questões que me parecem importantes daqui para frente. A da articulação, no sentido de se estabelecer, proteger e desenvolver constantemente a agenda que está colocada, transpondo a questão de gênero para uma pauta plural e aderente a todos. Destaco aqui a importância do CAU/SP ter tido a chapa só de mulheres e, assim, termos pela primeira vez uma mulher presidente do Conselho e sermos hoje 51% das conselheiras do CAU como um todo. Outra questão é a necessidade de termos os registros do processo, dos encontros e das ações, para que se crie a cultura do desenvolvimento para todos. Que a pauta da equidade não seja algo extraordinário mas, sim,  integrada no Conselho, de modo que venha a ser cuidada ao longo do tempo. Temos que nutrir todas as comissões com esse debate e termos as comissões especiais de equidade de gênero também nos outros Estados. Por fim, estou na segunda gestão do CAU mas não abandono o caminho da pesquisa. Recentemente lancei o livro da minha dissertação de mestrado, que está disponível online de forma gratuita, e estou agora passando para a construção de um coletivo.

IM No próximo mês iremos retomar o Un día | una arquitecta e, no nível institucional, é o momento de criar o nexo entre o Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina – de que sou a única representante da área de habitat e desenho – com as demandas da sociedade, das organizações e Ministérios, representando as investigadoras e os investigadores que estão trabalhando na nossa área com esses temas. Por outro lado, estamos consolidando algo que já existia informalmente com os blogs, que é uma rede de investigadores de distintas universidades da Argentina, e no campo da formação realizamos no ano passado, por exemplo, um curso de investigação feminista do qual participaram 750 estudantes. Além disso, estamos fazendo um levantamento sobre arquitetas argentinas que será apresentado em outubro ou novembro, estamos armando publicações …

AL Já está acontecendo nesta gestão feminina do CAU/BR a institucionalização da pauta de gênero, mas o tempo todo enfrentamos obstáculos institucionais. A própria adesão do Conselho ao ONU Mulheres, embora tenha sido aprovada por unanimidade em plenário, foi inicialmente barrada pela nossa assessoria jurídica porque a ONU pedia uma contribuição voluntária de 50 dólares – um valor simbólico. A justificativa era que se o Conselho fosse investir em uma minoria teria que investir em todas. Um coletivo de amigas advogadas, feministas, nos ajudou a rebater o argumento e conseguirmos passar a adesão. Acho que o passo agora é criarmos a comissão permanente, que é uma das diretrizes da política de gênero, e ampliarmos o debate no sentido das múltiplas interseccionalidades do tema. Precisamos ter uma comissão de gênero, raça e diversidade. Além disso, certamente importa a governabilidade. Temos uma mulher presidente, mas ela tem que ter condição de trabalhar e isso depende da nossa rede de apoio. É um caminho homeopático mesmo. (Por Evelise Grunow)

 

 

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