Entrevista: Marcelo Fontes e Bruno Campos criaram as bases para a arquitetura da Olimpíada 2016

Sócios do escritório mineiro BCMF, Bruno Campos e Marcelo Fontes são os responsáveis pela arquitetura dos edifícios que compõem o dossiê que deu a vitória ao Rio de Janeiro na disputa para sediar a Olimpíada de 2016. Contudo, Campos deixa claro que o trabalho do estúdio se encerrou com o término do dossiê: “Não temos contrato para desenvolver os projetos”.

Sócios do escritório mineiro BCMF, Bruno Campos e Marcelo Fontes são os responsáveis pela arquitetura dos edifícios que compõem o dossiê que deu a vitória ao Rio de Janeiro na disputa para sediar a Olimpíada de 2016. Contudo, Campos deixa claro que o trabalho do estúdio se encerrou com o término do dossiê: “Não temos contrato para desenvolver os projetos”.
Quando o escritório BCMF começou a se envolver com arquitetura esportiva?
Marcelo Fontes – Nosso primeiro projeto significativo na área foi o Mocão, que é o estádio olímpico de Montes Claros [cidade localizada no norte de Minas Gerais]. Ele começou a ser implantado, mas parou na terraplenagem. Houve uma eleição e a obra foi interrompida.
Bruno Campos – Foi revisto o tamanho do estádio e o governo mudou de ideia. O projeto, que é um dos nossos preferidos, aproveitava o aterro existente e, através da compensação do volume da terra, fizemos uma espécie de topografia artificial, um pouco assimétrica, que recebia as arquibancadas. Com isso, minimizamos brutalmente o custo de área estruturada. A imagem final era um cone de base elíptica, secionado na transversal. Por fora, ele teria um tratamento único, pareceria uma espécie de vulcãozinho, não resultando no volume tradicional de um estádio. Com isso se diminuiria o impacto visual no entorno, uma área residencial. O estádio teria capacidade para 25 mil pessoas, mas com uma presença bem sutil.
O projeto é de que ano?
Campos – Isso foi em 2002. Mas antes disso, em 2000, eu trabalhei como colaborador no escritório Weiss/Manfredi, em Nova York. Nessa época, por coincidência, eles estavam desenvolvendo alguns projetos para a candidatura de Nova York para a Olimpíada de 2012. Eles estavam se dedicando às instalações para canoagem e polo aquático. Eu não trabalhei na concepção do projeto, só na apresentação, maquetes e desenhos. Esse foi meu primeiro contato com esse tipo de programa. Foi ali que eu ouvi falar pela primeira vez em alguns princípios básicos, como o “front of the house”, que é o acesso de público, e o “back of the house”, que é o acesso dos credenciados, cada um de um lado. Isso é um pouco complexo, pois são vários os credenciados, divididos na verdade em sete níveis, como atletas, delegados, segurança, imprensa etc.
E depois disso?
Campos – Fizemos o projeto de reforma do ginásio poliesportivo de Betim [cidade industrial a 30 quilômetros de Belo Horizonte], uma estrutura que já existia em um projeto bem dimensionado. Implantamos o novo programa, com vestiários, lanchonetes, segurança etc. Depois ainda fizemos, a pedido do governo do estado, um projeto que se chamava Minas Olímpica.
Como era esse projeto?
Fontes – Era uma espécie de centro olímpico e vila olímpica piloto que poderiam ser construídos nas cidades de Minas Gerais. Havia uma lista de equipamentos separados, que, dependendo da demanda do município, seriam implantados ou não.
Campos – Fizemos só o estudo preliminar. Existiam vários kits. Em primeiro lugar, havia uma vila olímpica ideal, completa. Mas às vezes a cidade já tinha uma pista de atletismo, um ginásio ou um campo de futebol. Então, fizemos uma espécie de cardápio, como em um restaurante. E cada item já tinha seu preço, com um kit de projeto contendo as especificações básicas. Era uma ideia para tentar dimensionar as necessidades e as quantidades do que poderia ser implantado em cada lugar. A encomenda foi feita pela Secretaria dos Esportes, mas o programa não foi para a frente. Para nós, foi bom ter participado desse processo, pois fizemos uma pesquisa intensa em relação a todas as modalidades esportivas.
Nenhum deles foi implantado?
Fontes – Recebemos a notícia de que talvez dois deles comecem a ser implantados agora. Mas é tudo um pouco moroso, pois envolve as prefeituras e o estado. Há uma preocupação com a gestão. Construir os centros não era difícil, mais difícil era o aspecto operacional: quem vai tomar conta e administrar os espaços?
Gostaria que vocês falassem um pouco sobre o processo de escolha do projeto para o Complexo Esportivo da Vila Militar de Deodoro, utilizado nos Jogos Pan-Americanos e com uso previsto para a Olimpíada de 2016.
Campos – Achamos que já tínhamos um currículo e entramos em uma licitação junto com uma construtora. Era uma licitação de arquitetura e engenharia, um pacote de projetos. Mas, em nossa avaliação, para nos sentirmos seguros, precisávamos de uma consultoria especializada.
Vocês chegaram a contratar alguma consultoria para isso?
Campos – O escritório Castro Mello nos auxiliou, foi nosso grande consultor no Pan. Eduardo de Castro Mello foi muito prestativo ao longo do processo. Ele não chegou a desenvolver o projeto em conjunto, mas esteve presente. Em qualquer caso de dúvida, recorríamos a ele, que chegou até a participar de algumas reuniões no Rio, depois que nós vencemos a licitação. Ele foi fundamental para o processo.
Fontes – Vencemos a licitação, com um pacote de 22 disciplinas diferentes, 11 de infraestrutura urbana e 11 de edificações, tudo isso para o projeto básico.
O que estava previsto no projeto?
Campos – O termo de referência definia um complexo esportivo com mais de 20 modalidades. E ainda havia a reforma de instalações da vila militar. Depois, durante o processo, algumas coisas mudaram. A ideia dos clusters, de concentrar várias modalidades, é para o público passar o dia tomando contato com vários esportes. Tudo é programado para visitas que podem demorar até um dia. Deodoro foi escolhido por estar dentro de uma área militar, uma vez que foi gasto dinheiro público. Na época, houve um questionamento da federação de hipismo, mas o governo foi firme na intenção de investir em uma área pública, e não em hípicas particulares, por exemplo.
Não necessariamente todo programa dos Jogos Olímpicos vai ficar como legado. O evento gera uma demanda específica, temporária, que depois desaparece. Em alguns casos os prédios podem mudar de função e em outros deixar de existir.
Essa opção foi correta?
O centro de hipismo do Exército funcionou muito bem, principalmente em relação ao cross country, que precisa usar áreas naturais e lá encontrou espaço suficiente.
E, pelo que sei, Deodoro está sendo bastante utilizado. A experiência do Pan foi crucial, pois adquirimos o
know-how necessário, já que todas as instalações tinham padrão olímpico. Já era pública a ideia do Rio de se candidatar para a Olimpíada. Essa pretensão foi expressa diversas vezes no termo de referência. No caso do Pan, o termo de referência já tinha um master plan feito pelo COB [Comitê Olímpico Brasileiro], com a participação de uma assessoria internacional. Sem nenhuma referência de arquitetura, esse master plan era operacional, um programa de necessidades detalhado e com todos os pré-requisitos ambientais, de catering, de mídia, de segurança, logística.
O processo de seleção, no caso do Pan, envolvia só projetos ou também estava ligado a uma licitação de construção?
Campos – Foi uma licitação só de projetos, de projetos básicos. Em relação à lei 8.666, nosso projeto básico é quase um executivo. Posteriormente, fizemos ainda os projetos executivos e as construtoras foram licitadas quase um ano depois.
Sílvio Todeschi – Nosso projeto básico já é feito em paralelo com todos os projetos complementares. Assim, nessa fase já está tudo compatibilizado.
E em relação aos Jogos Olímpicos?
Campos – Entramos na parte final da disputa, quando a cidade foi aceita. Nossa contratação decorreu de um processo público, uma concorrência, aberta a quem quisesse participar.
Fontes – Estava publicada no site do Comitê Olímpico Brasileiro.
Um dos principais desafios de um projeto desse tipo é fazer com que um prédio que ao longo de sua vida útil vai ter um funcionamento simples consiga organizar, durante o evento, uma grande complexidade de fluxos que não podem se cruzar.
Vocês sabem quantos concorrentes tiveram?
Fontes – Não.
E vocês começaram a trabalhar de imediato?
Campos – Praticamente. Paramos de aceitar novos encargos, administramos o que já estávamos fazendo e ficamos trabalhando em função desse projeto.
Qual era o escopo?
Fontes – Fomos contratados para fazer o estudo preliminar. Basicamente, nosso escopo era composto por três coisas, todas relacionadas ao dossiê de candidatura. Primeiro, fizemos uma coordenação geral de todos os projetos. Ou seja, criamos uma metodologia de trabalho e procedimentos. Estabelecemos, por exemplo, uma normatização de arquivos, revisões. Elaboramos um manual e realizamos o treinamento das demais equipes. Isso facilitou o processo, pois o prazo era muito apertado. Foi um processo longo, que resultou na entrega de quase 800 arquivos. Havia a nossa equipe, com cerca de 20 arquitetos, e a equipe do COB, com dezenas de pessoas. O segundo item eram os estudos preliminares de arquitetura. Na verdade, são dois projetos simultâneos: o operacional, que é de responsabilidade do comitê; e o de arquitetura, que tem de atender às demandas do projeto operacional. Nosso papel era interpretar essa informação, a fim de gerar um objeto final harmônico. A última parte do escopo eram os desenhos de apresentação.
Na equipe do COB há arquitetos?
Campos – Sim, arquitetos e consultores. O COB deve ser
formado por cerca de 400 pessoas, e concentrados na candidatura havia mais de cem. Tudo centralizado no Rio de Janeiro, primeiro no centro e agora na Barra da Tijuca. Há consultorias internacionais de vários países, como, por exemplo, Grécia, Inglaterra, Austrália etc. E cada consultoria é de uma área específica: transporte, arquitetura, segurança, acomodação, imprensa, logística etc.
Como foi tratado o tema do legado?
Campos – Não necessariamente todo programa da Olimpíada vai ficar como legado. O evento gera uma demanda específica, temporária, que depois desaparece. Em alguns casos os prédios podem mudar de função e em outros, simplesmente deixar de existir. Nós tentamos, ao longo do processo do Pan, evitar duplicidades de função para maximizar o uso. Assim, procurávamos mapear ao máximo o que seria ideal para o legado e ao mesmo tempo funcionaria bem para o evento de curta duração. Essa preocupação era para não superdimensionar uma estrutura que depois eventualmente se tornasse um elefante branco. Esse trabalho foi realizado junto com a equipe do projeto operacional.
Esse foi um dos maiores desafios?
Fontes – Um dos principais desafios de um projeto desse tipo é fazer com que um prédio que ao longo de sua vida útil vai ter um funcionamento simples consiga organizar, durante o evento, uma grande complexidade de fluxos que não podem se cruzar: imprensa, atletas, público, setores vips, segurança, operações etc. Faz parte da nossa proposta dividir os fluxos em níveis diferentes.
Campos – Por outro lado, é preciso espaço para montar estruturas temporárias, o que chamam de compounds. O processo de candidatura possui várias etapas, e em cada uma delas o projeto evolui. Dentro de cada categoria de esporte, os projetos da candidatura foram discutidos com as federações internacionais, que dão o aval para aquela proposta. Então, o dossiê final tinha a chancela de todas as federações.
Esse trabalho começou quando?
Fontes – Começou por volta de abril ou maio de 2008 e durou praticamente um ano. Fizemos algumas entregas intermediárias. A principal delas coincidiu com a Olimpíada de Pequim, pois era uma oportunidade em que estavam todas as federações. Cada uma fez suas observações e realizamos uma série de ajustes.
Campos – A estratégia do comitê sempre foi a de apresentar mais do que era pedido, e isso foi positivo não só para efeito de persuasão dos envolvidos, mas também para nós, que estávamos constantemente adiantados.
Foi tudo realizado em Belo Horizonte?
Campos – Nossa parte sim. Nós dois alternávamos idas semanais ao Rio de Janeiro, permanecendo dois ou três dias.
O contrato de vocês era para fazer a candidatura até o final?
Campos – Sim. Houve ainda outra contratação no início de 2009, referente às áreas do Maracanã, do [Estádio Olímpico] João Havelange e do porto, mas optamos por não entrar. Em nossa avaliação, consideramos melhor manter o foco no que já estávamos fazendo.
No trabalho de vocês já estavam definidas as localizações de todas as arenas esportivas?
Fontes – Sim, isso era um pré-requisito.
As principais críticas que existem em relação aos projetos para a Olimpíada são relacionadas justamente com a localização dos clusters, principalmente a respeito da concentração na Barra da Tijuca. Para alguns especialistas, como Sérgio Magalhães, os Jogos Olímpicos seriam uma oportunidade de revitalizar a zona portuária. O que vocês acham disso?
Campos – Essas decisões estratégicas são tomadas em outro nível, na esfera de governo. Nossa atuação foi bem específica, dentro dos âmbitos determinados. Assim, nossa função foi gerar uma arquitetura que tivesse impacto para a candidatura e ao mesmo tempo atendesse aos projetos operacionais. Para o comitê, a prioridade é o perfeito desempenho dos Jogos. Eu entendo perfeitamente os argumentos de Sérgio Magalhães. E me lembro de que o uso do porto foi discutido internamente pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Somos totalmente a favor da revitalização da área portuária.
Fontes – Na época, o prazo era curto e creio que não havia disponibilidade da área portuária. Isto só aconteceu quando estava tudo muito adiantado. Há muitos anos tenta-se a revitalização do porto e essa seria uma oportunidade única.
Já começou uma pressão para que seja modificada a localização dos clusters. Qual é a expectativa de vocês em relação aos projetos que desenvolveram: acham que vai ser tudo implantado ou muita coisa ainda vai mudar?
Campos – O dossiê foi muito bem-feito, com várias consultorias, como a da Fundação Getúlio Vargas. Creio que há margem para ajuste. Mas, pelo que eu sei, o COI é muito rigoroso na aprovação.
Fontes – O dossiê que ganhou é como um contrato que o vencedor assina e tem de cumprir. Toda mudança precisa ser negociada e aprovada pelo COI. E os projetos estão na etapa de estudo, há muita coisa a ser detalhada.
Tirando da discussão os eventos que não deixaram legado, existem, grosso modo, dois modelos adotados por cidades que sediaram os Jogos Olímpicos: há aquele que mira na cidade e traz benefícios para a comunidade, do qual o paradigma é Barcelona; e aquele que aposta no ícone arquitetônico pontual, como é o caso de Pequim. Qual desses modelos vocês acham mais parecido com o que está programado no dossiê brasileiro?
Campos – Nossa estratégia foi evitar fazer estruturas excessivamente icônicas. Adotamos como foco a ideia de valorizar a paisagem do Rio. Nossa preocupação, em termos de imagens arquitetônicas, de certa forma era usar bastante o paisagismo e a arquitetura carioca dos anos 1950. Contudo, em alguns casos, a expressão arquitetônica com mais força fazia parte do briefing. Para o ITC, por exemplo, tínhamos que fazer uma estrutura mais exuberante.
Com o término do dossiê vocês passam a ter outro contrato ou algum compromisso firmado com o COB?
Campos – Não, nosso contrato com o COB se encerrou.
Vocês não estão trabalhando no projeto?
Campos – Não.
Qual é a opinião de vocês em relação à agência que o governo pretende montar, denominada APO, cuja função seria gerir todo o processo olímpico, desde os projetos e a construção até o legado?
Campos – Não estamos acompanhando esse desdobramento.
O que se fala é que a agência terá verba de 20 bilhões a 40 bilhões de reais.
Campos – Na etapa do dossiê, falava-se em 15 bilhões de dólares para a implantação de tudo.
O governo pretende criar algo como a Anatel [reguladora do setor de telecomunicações], com gestão independente do governo. Orlando Silva, atual ministro do Esporte, é quem estaria à frente da empreitada. A ideia seria fazer marcos arquitetônicos fortes.
Fontes – Estou desinformado quanto a isso, mas creio que é um projeto gigantesco e o governo terá que fazer licitações ou concursos desses projetos.
Nossa atuação foi bem específica, com a função de gerar uma arquitetura que tivesse impacto para a candidatura e atendesse aos projetos operacionais. Para o comitê, a prioridade é o perfeito desempenho dos Jogos.
No contrato que vocês assinaram havia a indicação de que seriam contratados para fazer os executivos?
Fontes – Não.
Campos – Fomos contratados para fazer um dossiê que conseguisse superar as candidaturas de Tóquio, Madri e Chicago. As pessoas estão imaginando que fomos contratados para fazer todos os projetos, mas isso não é verdade.
E agora, qual a expectativa de vocês?
Campos – Nós nos consideramos preparados e pretendemos participar de todos os processos públicos de escolha para detalhar os prédios.
Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 359 Janeiro de 2010

Conteúdo exclusivo para assinantes

Por apenas R$ 2,99 mensais, você tem acesso ao conteúdo completo do acervo da revista PROJETO, com mais de 8.000 obras, projetos, entrevistas e artigos

Assine por R$ 2,99 mensaisJá sou assinante