Entrevista – Raquel Rolnik

Naturalmente agudo, o tom de voz da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik eleva-se ainda mais quando ela procura enfatizar suas ideias e convicções. Algumas de suas mais recentes reflexões estão reunidas no livro Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças, lançado no final do ano passado pela editora Boitempo. A publicação teve como ponto de partida o período de 2008 a 2014, em que ela atuou como relatora do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Moradia Adequada. Os documentos que produziu nesses seis anos levaram Raquel a concluir que, em praticamente todos os países, a habitação deixou de ser um direito, transformou-se um ativo financeiro - é a financeirização da moradia, ela conceitua. Essas questões se tornaram tema da tese de livre docência apresentada no primeiro semestre de 2015, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), e posteriormente transformada em livro.

Foi na sua atual trincheira – o Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (Labcidade) da FAU/USP, do qual é uma das coordenadoras – que Raquel Rolnik falou sobre sua mais recente publicação, o livro Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. A crise hipotecária que em 2008 se abateu sobre os Estados Unidos e repercutiu em todo o mundo está registrada na obra, a partir do ponto de vista da profissional que, naquele momento, ocupava a relatoria do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Moradia Adequada.
No livro, ela também trata da repercussão que os megaeventos e os desastres naturais costumam apresentar sobre o direito à moradia e questiona o principal (e quase único) programa habitacional atualmente em execução no país. Para ela, o Minha Casa, Minha Vida é um completo equívoco e representa a negação de um sistema nacional de habitação de interesse social que ela procurou implementar quando esteve no governo federal. “O Minha Casa, Minha Vida não tem arquitetura não é porque houve epidemia de falta de criatividade. É porque o modelo de financiamento requer um tipo de arquitetura em massa, que não tem a menor relação com o lugar onde está inserida”, avalia.

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