Entrevista – Nivaldo Andrade, Antonio Arantes e Leonardo Castriota, sobre o primeiro ano de existência do Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro

Há um ano, em 10 de outubro de 2019, foi criado o Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro. O momento era o da realização do 21º Congresso Brasileiro de Arquitetos, em Porto Alegre, e o contexto era o de repúdio às investidas do Governo Federal contra o IPHAN, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sobretudo a partir de 2016 e na forma da exoneração de técnicos experientes e da substituição de muitos dos seus 27 Superintendentes por pessoas desqualificadas na área. Fato que culminou com a nomeação de Larissa Peixoto, graduada em Turismo e Hotelaria, para a presidência do instituto em maio de 2020, precedida pela exoneração em dezembro de 2019 da presidente Kátia Bogéa, que por 30 anos havia sido Superintendente do IPHAN no Maranhão. Com a extinção do Ministério da Cultura, em janeiro de 2019, o IPHAN passou a ser vinculado ao Ministério do Turismo.

Inicialmente composto por 16 entidades profissionais de diversas áreas ligadas à preservação do patrimônio cultural, atualmente o Fórum conta com a participação de 19 entidades e continuará por mais um ano sob a coordenação de Nivaldo Andrade, ex-presidente da Direção Nacional do IAB, cujo capítulo dedicado ao Fórum no relatório de seu mandato no instituto no triênio 2017-2020 , lista entre outros, as ações do IAB pela defesa da arquitetura moderna brasileira que antecederam a criação do Fórum: a carta aberta “Pela preservação do Teatro Oficina e de seu entorno” (novembro de 2017); a carta aberta “A irreparável perda do Museu Nacional”, destruído por um incêndio em setembro de 2018; a “Carta pela preservação da obra de João Filgueiras Lima – Lelé” (outubro de 2018); a “Nota de repúdio às intervenções propostas para o Palácio do Planalto, Palácio da Alvorada e Palácio do Jaburu, em Brasília” (agosto de 2020), e o conjunto de “abraços” a bens culturais de relevância porém abandonados ou em processo de arruinamento, entre 13 e 18 de agosto de 2018, como forma de comemoração ao Dia Nacional do Patrimônio Histórico – 17 de agosto. A ação imediatamente anterior à criação do Fórum foi a “Manifestação contra os ataques ao IPHAN e seus servidores”, onde as entidade da Arquitetura e do Urbanismo estreitaram laços com outras entidades profissionais relacionadas ao tema da preservação do patrimônio.

Dalí em diante a rede de contatos se expandiu, culminando com a criação do Fórum, e para comemorar o seu primeiro ano de existência e discutir os seus feitos e planos futuros, convidamos Andrade para uma entrevista, o qual, por sua vez, trouxe para a conversa dois outros membros do Fórum: Antonio Arantes – antropólogo, professor da Unicamp, ex-presidente do IPHAN e representante da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) no Fórum – e Leonardo Castriota – presidente do ICOMOS Brasil e professor da UFMG.

Os temas principais abordados foram o impacto negativo para o IPHAN do excepcional momento político brasileiro – além do desmonte do quadro técnico e das trocas de lideranças da instituição, o seu Conselho Consultivo não se reuniu desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, fato que não ocorreu sequer durante a ditadura militar -, a disparidade da participação da sociedade civil nos processos de preservação dos patrimônios material e imaterial brasileiros e, principalmente o futuro do Fórum. Em síntese, a intenção é passar do papel reativo para o propositivo, de políticas públicas do setor. Para tanto, a estratégia é investir na capilaridade do Fórum através da criação de fóruns estaduais – 24 entre os 27 dos quais já tinham coordenadores indicados em 8 de outubro, quando ocorreu a presente conversa – e posteriormente, de Fóruns Municipais. Porque como menciona Arantes a seguir, “O patrimônio existe no território, em sua relação com as pessoas que vivem na cidade, no campo, na floresta”.

 

Sessão de criação do Fórum

 

Que ações antecederam a criação do Fórum e como costumavam interagir as diversas entidades profissionais que o compõem?

Nivaldo Andrade Vínhamos nos manifestando sobre diversas nomeações para cargos de Superintendente do IPHAN realizadas de forma inadequada nos últimos anos. Principalmente a partir de 2016 no governo Dilma, em reação ao pedido de impeachment e como forma de conseguir apoio de partidos do centrão, continuando a ocorrer no governo Temer e se agravando de forma inimaginável no governo Bolsonaro. A coisa assumiu um nível absurdo e uma intensidade muito grande e o ápice foi a nomeação de pessoas realmente sem qualquer qualificação ou formação na área. Por exemplo em Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal, estados que concentram parte significativa do patrimônio tutelado pelo IPHAN e inclusive sítios do patrimônio mundial, da Unesco. Em outubro [de 2019], depois de várias notas de repúdio que fizemos, aproveitamos o Congresso Brasileiro de Arquitetos em Porto Alegre para articular uma reunião com presidentes e representantes de várias entidades de categorias profissionais ligadas ao patrimônio, realizada na sede do IAB do Rio Grande do Sul. A pauta era a criação do Fórum. Depois fizemos uma sessão pública de lançamento na Praça da Alfândega, que era o ponto focal do congresso e por onde passavam milhares de pessoas por dia. Pouco depois [em 11 de dezembro de 2019] ocorreu a exoneração da Kátia Bogéa da Presidência do IPHAN, evoluindo para a indicação, em abril, de uma turismóloga para o cargo. Desde 2016 vínhamos conversando sobre a necessidade de criar essa rede e de fortalecer as ações de cada entidade através da articulação coletiva, mas eram ainda ações pontuais. Algo mais abrangente, articulando todas as profissões e instituições ligadas ao patrimônio, só passou a ocorrer no contexto das ameaças diárias contra o IPHAN.

 

As várias entidades do Fórum já costumavam se reunir antes da sua constituição?

N.A. As entidades de arquitetos já estavam muito articuladas em várias frentes, inclusive na do patrimônio, desde antes da criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil: IAB, FNA, ABEA, ABAP e FeNEA – a AsBEA também, mas ela não faz parte do Fórum. Temos também uma relação muito próxima com o ICOMOS [Conselho Internacional de Monumentos e Sítios] e com o Docomomo; eu e Leo [Leonardo Castriota, presidente do ICOMOS Brasil desde 2015] já tínhamos contato com a SAB [Sociedade de Arqueologia Brasileira], com a ABA [Associação Brasileira de Antropologia] e com o ICOM [Conselho Internacional de Museus] a partir do Conselho Consultivo do IPHAN, no qual eu represento o IAB, mas era sempre algo interno ao IPHAN. Essa articulação maior aconteceu quando uma das notas de repúdio, ainda antes da constituição do Fórum, foi assinada pela SAB [Sociedade de Arqueologia Brasileira], pela ABA [Associação Brasileira de Antropologia] e pelo ICOM junto com as entidades de arquitetos e o Docomomo. Aproveitamos as semanas precedentes ao Congresso dos Arquitetos [em outubro de 2019] para fazermos contatos com a ANPEGE [Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia], a ANPOCS [Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais], a ANPUR [Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional], que se juntaram ao Fórum. Outras nos procuraram depois, como a Antecipa [Associação Nacional de Pesquisa em Tecnologia e Ciência do Patrimônio], interessadas em participar.

Leonardo Castriota Gostaria de complementar que o ICOMOS é uma organização interdisciplinar que envolve os especialistas em patrimônio de diversas áreas, mas institucionalmente essa condição surgiu com o Fórum.

Antonio Arantes A colaboração interdisciplinar é uma questão muito delicada e central, um desafio que temos pela frente. Atualmente existe uma pré-disposição ao diálogo em todas essas áreas, a exemplo do que ocorre no ICOMOS, mas nas instituições de preservação propriamente ditas, aquelas governamentais, essa colaboração é problemática. Enquanto presidente do IPHAN [2003-2006] vivi as dificuldades relativas à implantação da área do patrimônio imaterial. Embora houvesse uma discussão bastante amadurecida entre os técnicos a respeito disso – arquitetos, arqueólogos, advogados, historiadores, etc – não havia um entendimento suficiente do sentido desse patrimônio que, aliás, além de conceitualmente novo, estava em implantação. Tampouco havia experiência acumulada na instituição para o diálogo com os mais diversos grupos da sociedade, inclusive indígenas e quilombolas. Esse conhecimento foi sendo construído aos poucos e não sem conflitos internos. Através de concurso aberto a diversas categorias de profissionais, onze carreiras, foi possível admitir uma centena de profissionais das várias áreas. A interlocução da instituição com os novos técnicos foi outra dificuldade, aliás de parte a parte. Por esse motivo criamos um curso de aperfeiçoamento em patrimônio aberto à todas as áreas profissionais – hoje, este curso é de mestrado profissional -, que tem colaborado muito na construção dessa interface. Tenho certeza de que o Fórum dá um passo decisivo nessa direção.

 

Antonio Arantes

A colaboração interdisciplinar é uma questão muito delicada e central, um desafio que temos pela frente. Atualmente existe uma pré-disposição ao diálogo em todas essas áreas, a exemplo do que ocorre no ICOMOS, mas nas instituições de preservação propriamente ditas, aquelas governamentais, essa colaboração é problemática.” Antonio Arantes

 

N.A. Concordo plenamente que se compararmos o quanto o processo participativo se ampliou no campo do planejamento urbano desde a Constituição de 1988 e desde o Estatuto das Cidades, no sentido da realização de audiências públicas e da presença de representantes da sociedade civil nos conselhos, o Conselho do IPHAN tem ainda um caráter oficial, chapa branca. Não possui representantes das associações de moradores ou de outras que se manifestam sobre o patrimônio material, é um conselho exclusivamente de técnicos, de especialistas. O que é importante, mas que precisa ser revisto para incorporar as demandas sociais. Na minha leitura, o IPHAN no campo do patrimônio imaterial tem uma política muito participativa. Não se pode registrar um bem sem que as pessoas envolvidas diretamente no seu fazer estejam engajadas, enquanto que no patrimônio material os tombamentos continuam a serem feitos exclusivamente de forma muito técnica, por especialistas muitas vezes sem contato com a comunidade local. Muitas vezes, os arquitetos do IPHAN não conseguem entender a importância de conversar com a comunidade, com os moradores, com os comerciantes, com os usuários, com a prefeita, com os vereadores, por exemplo, quando se decide por tombar um sítio histórico. Não é algo que se possa fazer de cima para baixo como se fazia nos primeiros 30 ou 40 anos da instituição. Mas é claro que nesse momento de retrocessos nós nem temos a pretensão de avançar nesse sentido, o que não conseguimos fazer a contento em outro momento político, mais favorável.

 

Como funciona o Conselho Consultivo do IPHAN?

N.A. O Conselho existe desde a criação do IPHAN e a sua ocupação mudou muito ao longo do tempo. Tenho a impressão de que no início os conselheiros eram especialistas escolhidos exclusivamente pelo ministro mas nos últimos anos a composição passou a ser de 1/3 de representantes do Estado – indicados por ministérios e autarquias mais relacionados ao tema, como o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Defesa, o IBRAM [Instituto Brasileiro de Museus], o Ministério das Cidades quando existia -, 1/3 de representantes de entidades convidadas, como a SAB, o ICOMOS, o ICOM, o IAB, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro [IHGB], entre outras, e 1/3 de especialistas renomados, mantendo a lógica inicial do Conselho. Ele é presidido pela presidente do IPHAN, tem caráter consultivo e cabe ao presidente do IPHAN e ao Ministro da Cultura, quando existia esse ministério, ratificarem as suas recomendações. Historicamente, contudo, as recomendações dos Conselheiros sempre tiveram peso importante.

L.C. A própria existência do Conselho como ele é, técnico, tem caráter de patrimônio nacional. O Conselho vem se mantendo desde os anos 30 e inclusive nos períodos mais sombrios como o da ditadura militar. Desde 2015 quando assumi o ICOMOS, tenho acompanhado com muita apreensão o enfraquecimento das instâncias institucionais do Brasil, principalmente desde o golpe de 2016. Elas vem sendo esvaziadas de representatividade ou muitas vezes mantidas, como no governo Temer, quase como um favor pessoal. Perde-se o caráter institucional. No atual governo não houve ainda reunião do Conselho [Consultivo do IPHAN], uma situação anômala, gravíssima. De fato não se trata de um Conselho de representatividade popular, nem sei se deveria ser porque é um conselho nacional, não local, onde a representatividade tem que ser pensada de forma mais qualificada, mas de qualquer forma nele foram travadas discussões importantíssimas sobre o patrimônio brasileiro. De fato muitas das novidades positivas de gestão vêm da área do patrimônio imaterial, que está na vanguarda, mas esse avanço não se repetiu na questão do patrimônio material. Quando se tentou regulamentá-lo, na gestão da Kátia Bogéa inclusive, o resultado foi desastroso. O documento é regressivo em relação ao próprio tombamento dos anos 30 porque é muito defensivo e não corresponde minimamente ao que se discute hoje em dia. A dicotomia que o Nivaldo aponta me parece bastante séria.

A.A. A dinâmica do Conselho do IPHAN mostra um processo de transformação significativo, desse ponto de vista. Inicialmente era composto por pessoas de grande destaque em algumas áreas do conhecimento e prática profissional. Acompanhando as transformações da área, ele se abriu para diversas profissões e quando eu deixei o IPHAN já estava se consolidando uma tendência consistente de representação por instituições, em particular sociedades científicas e profissionais. O momento que vivemos é crítico. Não adianta o Conselho ser multidisciplinar, deve existir a interlocução da sociedade civil e com as universidades. O meio acadêmico, aliás, vem perdendo muito peso nesse e em outros Conselhos que foram criados com o objetivo de fortalecer o diálogo entre órgãos de Estado e a sociedade nas mais diversas áreas. É esse o espírito da Constituição de 1988. Entretanto, no atual governo eles têm sido diminuídos quanto ao número de participantes, quanto à áreas de competência acadêmica e em sua representatividade em relação à sociedade civil. Não somente na área do patrimônio, os conselhos associados à gestão pública têm sido enfraquecidos, tanto do ponto de vista político quanto técnico. Os técnicos que formavam a chamada ‘Academia IPHAN’ estão se aposentando ou sendo destituídos de funções de liderança e responsabilidade. Do ponto de vista da participação de organizações da sociedade na gestão pública, é preciso lembrar que este é um dos direitos fundamentais assegurados pela Constituição de 1988, inclusive em seu Artigo 216, que norteia as políticas de patrimônio cultural.

 

O meio acadêmico, aliás, vem perdendo muito peso nesse e em outros Conselhos que foram criados com o objetivo de fortalecer o diálogo entre órgãos de Estado e a sociedade nas mais diversas áreas. É esse o espírito da Constituição de 1988. Entretanto, no atual governo eles têm sido diminuídos quanto ao número de participantes, quanto à áreas de competência acadêmica e em sua representatividade em relação à sociedade civil.” Antonio Arantes

 

Qual o objetivo e a possibilidades de ação do Fórum?

N.A. O Fórum tem feito uma série de manifestações e talvez a mais relevante tenha sido aquela de maio passado, quando a Larissa Peixoto foi eleita presidente do IPHAN, acompanhada por nomeações de superintendentes. Foi uma manifestação assinada pelas entidades participantes do Fórum e por quase todos os ex-presidentes do IPHAN, por membros do Conselho Consultivo do órgão e que teve o apoio do ICOMOS de outros países, de colégios de arquitetos de outros países e de personalidades brasileiras, como o compositor Chico Buarque. O documento foi encaminhado para o ICOMOS internacional, que se manifestou a respeito. Mas estamos agora em um momento diferente. Entendemos que a manifestação de repúdio é importante porque denuncia o que está acontecendo e mobiliza a sociedade, mas ela não surte grandes efeitos nesta gestão. O governo não se sensibiliza. Temos que fazer ações propositivas e é nesse sentido, do aumento da capilaridade do Fórum, que estão sendo implantados fóruns estaduais.

L.C. O enfraquecimento do caráter técnico do IPHAN nos parece danoso e por isso é que encaminhamos a carta de maio para a Unesco e para o ICOMOS internacional. Ele normalmente não se pronuncia sobre assuntos dos países, mas o argumento era tão forte que a instituição pediu à Unesco para acompanhar o caso e se manifestou também ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário brasileiros de forma bastante peremptória. Mas a necessidade de superarmos aquilo que chamamos de agenda negativa, reativa, é porque acreditamos ser a hora de passarmos para uma agenda que nós, enquanto organização da sociedade civil, podemos colocar em andamento independente das políticas governamentais.

 

Nivaldo Andrade

Entendemos que a manifestação de repúdio é importante porque denuncia o que está acontecendo e mobiliza a sociedade, mas ela não surte grandes efeitos nesta gestão. O governo não se sensibiliza. Temos que fazer ações propositivas e é nesse sentido, do aumento da capilaridade do Fórum, que estão sendo implantados fóruns estaduais.” Nivaldo Andrade

 

A.A. Se assumirmos que depende de nós, sociedade civil, a defesa do patrimônio brasileiro, e tendo esse olhar para a localidade, teremos bons caminhos pela frente. O patrimônio existe no território, em sua relação com as pessoas que vivem na cidade, no campo, na floresta”. Essa é uma orientação estratégica que deve ser valorizada. É uma possibilidade de colocar o grande plano do Fórum em andamento que, junto com os fóruns estaduais, pode fazer girar a roda.

N.A. Entendemos que desde a sua criação o IPHAN tem papel fundamental de estruturação das políticas públicas de preservação do patrimônio no país, mas é preciso promover o debate na escala local. Aproveitamos a existência dentro do Fórum de instituições com capilaridade, como as associações nacionais de pesquisa de pós-graduação, o IAB com seus departamentos estaduais, o ICOMOS e suas diretorias regionais e seus núcleos em quase todos os Estados, o Docomomo idem, para colocar em ação os fóruns estaduais – 24 já tem coordenadores indicados.

 

O Fórum dispõe de recursos financeiros para funcionar?

N.A. O Fórum é formado por dirigentes ou representantes de cada entidade, não tem recursos, não tem CNPJ e não há interesse que tenha nada disso nesse momento. É um espaço de debate, de articulação das entidades, estas sim, com seus recursos, suas assessorias jurídicas, de comunicação, etc. A ideia do Fórum não é se constituir como entidade porque as entidades já existem. A ideia é que seja um espaço para o fortalecimento da agenda do patrimônio. O que Fórum precisa ter, porém, é uma plataforma de divulgação e articulação das suas ações. Por enquanto existe a página do Facebook e de forma muito embrionária; agora estamos estruturando uma plataforma junto com os fóruns estaduais para que eles publiquem as suas ações, manifestações, propostas. Estamos chamando de Observatório do Patrimônio Cultural esta plataforma.

 

Leonardo Castriota

Mas a necessidade de superarmos aquilo que chamamos de agenda negativa, reativa, é porque acreditamos ser a hora de passarmos para uma agenda que nós, enquanto organização da sociedade civil, podemos colocar em andamento independente das políticas governamentais.” Leonardo Castriota

 

O Fórum é um meio digital de articulação de ideias. A sua facilidade – de acolher um número infinito de entidades e de informação – não seria também a sua dificuldade, no sentido de perda ou indefinição de rumo? É preciso haver algum tipo de curadoria?

N.A. Acolhemos o patrimônio no sentido mais amplo possível, como definido pela Constituição brasileira: patrimônio enquanto referência cultural nos diversos segmentos da sociedade brasileira. Pode ser aquilo que já é considerado patrimônio da humanidade como pode ser algo sem qualquer nível de proteção mas que é reconhecido pela comunidade. A visão dos profissionais das Ciências Sociais, por exemplo, é diferente da dos arquitetos, uma complementaridade que é salutar. Cada entidade indicou seus representantes para o Fórum conforme a sua perspectiva profissional e não há qualquer tipo de censura entre nós. Um assunto pode ser colocado em pauta e ser conduzido por determinadas áreas e outros por outras. O Fórum é muito político, no sentido positivo de ser um espaço de embate, de demanda por políticas públicas e por ações que entendemos, enquanto especialistas, que são importantes. Temos uma diversidade de pensamentos muito grande.

A.A. Têm também as questões conjunturais que o Fórum deve reverberar. As cartas ou pronunciamentos a respeito de questões pontuais e especiais são isso. Elas alimentam os movimentos de defesa do patrimônio.

 

Acolhemos o patrimônio no sentido mais amplo possível, como definido pela Constituição brasileira: patrimônio enquanto referência cultural nos diversos segmentos da sociedade brasileira. Pode ser aquilo que já é considerado patrimônio da humanidade como pode ser algo sem qualquer nível de proteção mas que é reconhecido pela comunidade.” Nivaldo Andrade

 

Vocês mencionaram a criação dos fóruns estaduais e do Observatório do Patrimônio Cultural. Quais outras ações estão sendo previstas para o Fórum?

L.C. Temos um documento denominado ‘Agenda pelo Patrimônio’ que reúne as contribuições das várias entidades. Os pontos são:

  1. Preparar um projeto de fusão do mecanismo do ICMS cultural e disseminá-lo pelos Estados. O modelo é a bem sucedida experiência de Minas Gerais com uma lei de repasse do ICMS criada há mais de 20 anos e que estimulou os municípios a formarem as suas organizações de preservação. Hoje, dos 850 municípios mineiros mais de 700 têm alguma forma de proteção patrimonial. Acreditamos que o nível local, com a participação da sociedade, é muito importante no momento em que outras instâncias não atuam satisfatoriamente
  2. Tal proposta é acompanhada daquela de fortalecimento dos conselhos de política cultural e patrimônio dos Estados e municípios. Podemos propor melhores práticas.
  3. Uma proposta trazida pelo IAB que achamos muito importante é a da reutilização de edificações históricas ociosas. Elas existem nos centros históricos de todo o Brasil. O IAB vai coordenar essa discussão
  4. O ICOMOS deu a ideia de criar o Fórum das Universidades. Já fizemos o mapeamento de quem são, dos seus temas, dos tipos de cursos existentes e estamos propondo agora a criação de uma plataforma flexível de colaboração entre as universidades e as demais entidades da sociedade civil e o Fórum
  5. Como já falado pelo Nivaldo antes, queremos criar o Observatório do Patrimônio, a ser executado pelos fóruns estaduais. Trouxemos como modelo o Observatório do Patrimônio do ICOMOS da Espanha, que é uma plataforma digital muito simples, em que a partir dos Estados você identifica as melhores práticas, o patrimônio em perigo, troca-se informação, etc
  6. Elaborar o que chamamos de ‘Carta do Patrimônio Local’, a ser capitaneada pelo ICOMOS mas em conjunto com as entidades do Fórum e objetivando chamar a atenção para a importância do nível local para a proteção do patrimônio

 

Muito importante essa iniciativa sobre a ocupação do patrimônio ocioso nos centros das cidades.

N.A. A política habitacional brasileira recente se caracterizou por levar a população pobre para a periferia. Há um mapeamento do centro antigo de Salvador, por exemplo, feito pelo Governo do Estado da Bahia, que aponta a existência de 1.500 imóveis sem uso no local, muitos deles pertencentes ao poder público, o que, numa conta muito rasteira significa a oportunidade de criação de 8 mil unidades habitacionais para 25 a 30 mil pessoas que, no entanto, estão morando mal na periferia ou em novos conjuntos habitacionais construídos com má qualidade e com problemas no acesso aos serviços e à infraestrutura urbana. E neste raciocínio podem entrar também imóveis sem valor histórico localizados em áreas tombadas. Claro que não somos autorizados a implantar políticas públicas mas temos a capacidade de formulá-las e de convocar os governos municipais e estaduais a implementá-las. Gostaria de dizer também que é fundamental a carta mencionada pelo Leo [Carta do Patrimônio Local]. O IAB juntamente com o CAU e outras entidades da arquitetura tem feito cartas aos candidatos, como aquelas de 2018 direcionadas aos candidatos à presidência, onde propusemos diretrizes, princípios urbanos, de meio ambiente, de mobilidade e também de patrimônio. Essa é uma das metas do Fórum para as próximas eleições; nessa não foi possível* porque os fóruns estaduais estão sendo constituídos.

A.A. Seria uma forma de alimentar localmente os debates sobre patrimônio, sobre cultura.

 


* Em 9 de outubro, o dia seguinte à realização da presente conversa, os fóruns estaduais da Bahia, Goiás e Paraíba informaram – durante reunião virtual de que participaram dirigentes e representantes das entidades nacionais que compõem o Fórum e, pela primeira vez, os coordenadores ou representantes dos fóruns estaduais recentemente instalados em 24 Estados – que estão elaborando cartas aos candidatos das eleições municipais deste ano, complementa Nivaldo Andrade.

 

 

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