Maria Elisa Baptista (Foto: Julia Piancastelli)

Entrevista – Maria Elisa Baptista e Nivaldo Andrade, sobre a nova presidência da Diretoria Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil

Convidamos para um bate-papo a nova presidente eleita da Diretoria Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-DN, triênio 2020-2023), Maria Elisa Baptista, de Minas Gerais, e o seu antecessor no cargo, o arquiteto Nivaldo Andrade, da Bahia. Frente ao delicado momento que atravessa o Brasil, de fragilização sócio-econômica, política, ambiental, produtiva, e da iminência da realização de eventos de suma importância para os arquitetos e urbanistas e para o seu diálogo com a sociedade no geral – no próximo ano será realizado o 27º Congresso Mundial de Arquitetos UIA2021RIO e o IAB completará cem anos de existência -, o sentimento é de continuidade entre as gestões.

Equidade de gênero, articulação do IAB com a sociedade civil e o desempenho do instituto como um núcleo de resistência foram temas que perpassaram a conversa. Embora as adversidades ou, talvez, por causa delas, o cenário é animador: têm-se aqui os relatos sobre um IAB vibrante, com a participação de uma nova geração de arquitetos e maior presença feminina, assim como com a reativação de departamentos do Norte e Centro Oeste, que muito têm a colaborar para o entendimento das diversidades regionais brasileiras. E para a luta contra a devastação do meio-ambiente.

 

Para iniciarmos a conversa, gostaria que você fizesse um balanço do seu período na presidência do IAB-DN.

Nivaldo Andrade  Talvez a meta mais desafiadora foi a realização do Congresso da UIA. Trabalhamos arduamente na organização do evento, que foi adiado [para 18 a 22 de julho de 2021] faltando apenas 3 meses para a sua abertura. Também a nomeação do Rio de Janeiro como a primeira Capital Mundial da Arquitetura foi uma grande conquista. Éramos tidos como carta fora do baralho, todos achavam que não teríamos tempo para preparar a nossa candidatura. Mas nós insistimos e vencemos! A candidatura foi apresentada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, assessorada, porém, pelo IAB junto com a Secretaria de Urbanismo – a [Verena] Andreatta era a secretária na época – na formatação da proposta. Foi uma alegria enorme ver a assinatura da nomeação [na sede da UNESCO em Paris, em janeiro de 2019] da cidade. Outra ação muito importante foi relativa ao Centenário do IAB, que será comemorado em janeiro de 2021. Montamos uma comissão em 2019 e um evento embrionário foi realizado em janeiro do ano passado. A próxima, será uma exposição mais robusta e que irá rodar por várias cidades. Houve também a realização de duas Bienais de Arquitetura, evento organizado pelo IAB-SP: a de 2017, iniciada pela gestão passada, do Sergio Magalhães, e a de 2019, além da nossa participação nos preparativos iniciais para a próxima bienal, de 2022. O [21º] Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em Porto Alegre pelo IAB-RS no ano passado [24 de setembro a 24 de novembro] foi um dos mais bonitos do IAB. Envolveu todo o centro da cidade e homenageou a arquiteta e urbanista Briane Bicca. Destaco também a criação da Comissão de Equidade de Gênero, uma iniciativa das arquitetas que foi prontamente acolhida pela direção nacional do IAB. Já na gestão do Sergio [Magalhães] tinha sido aprovado o primeiro Colar de Ouro do IAB para uma mulher, a arquiteta e urbanista Rosa Kliass, e na nossa gestão o título foi concedido à Dora Alcântara [em abril de 2020]. Também nos dedicamos a indicar o maior número possível de mulheres para concorrer aos prêmios da FPAA [Federação Panamericana de Associações de Arquitetos], que é tradicionalmente uma premiação muito machista. Já o cancelamento da reunião do COSU [Conselho Superior do IAB] em abril deste ano, em Brasília, por causa da pandemia do Covid, e a sua substituição por uma reunião online teve o mérito de atrair o dobro do número de participantes. Um feito que abriu novos caminhos, iniciando-se uma dinâmica que nós desconhecíamos. As comissões estatuárias, por exemplo, que tinham muita dificuldade para se reunir, foram rearticuladas e atraíram uma nova geração de participantes; elas estão a pleno vapor. Outro ponto importante é que nos empenhamos na reativação de departamentos [regionais] do IAB. Oito no total estavam inativos e já estão sendo reativados. No último COSU antes das eleições, em agosto, tivemos a presença de todos os 27 departamentos do IAB. Foi um momento histórico. Sem dúvida, por fim, um desafio que se delineava mas que não era esperado por nós na intensidade que teve, foi o da ameaça à democracia brasileira desde 2016. O IAB se viu obrigado a assumir posições políticas em parceria com movimentos da sociedade civil, como com a Campanha Brasil pela Democracia. Em 16 de março, junto com a FNA [Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas] e o IBDU [Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico], fizemos um apelo público a favor da interrupção de despejos e reintegrações de posse. Já em março o nosso documento passou a ser usado por Defensorias Públicas. E principalmente o desmonte do IPHAN, primeiro com nomeações de profissionais sem a devida qualificação para as Superintendências e depois até para a Presidência, nos motivou a liderar um movimento que reúne vinte entidades de todas as áreas. O Forum [de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro] congrega hoje mais de 200 especialistas e possui Fóruns Regionais em quase todo o país. Estamos instalando o Forum de Santa Catarina e o de Alagoas. Temos 24 dos 27 Estados e DF. É um trabalho em rede, que começou fazendo denúncias e depois partiu para a proposição de políticas públicas. O IAB é o coordenador do movimento [Nivaldo Andrade permanecerá por mais um ano à frente do Forum]. A crise na área do patrimônio serviu para entendermos que se nos articularmos, ganhamos força para fazermos frente à essa série de absurdos pelos quais o Brasil está passando. É preciso estarmos alertas e unidos porque os problemas não param de aparecer.

 

Nivaldo Andrade

 

A crise na área do patrimônio serviu para entendermos que se nos articularmos, ganhamos força para fazermos frente à essa série de absurdos pelos quais o Brasil está passando.” Nivaldo Andrade

 

Qual foi a sua motivação em concorrer à Presidência da Direção Nacional do IAB?

Maria Elisa Baptista  Essa é a minha quarta candidatura, desde os anos 90 até 2008, quando concorri pela terceira vez. Em alguns momentos éramos oposição, em outros havia diferenças pontuais entre as plataformas. Nivaldo citou o ambiente machista da FPAA mas também no IAB havia poucas mulheres, éramos minoria nas reuniões do COSU, por exemplo. Embora sempre tenha atuado como conselheira, estava há tempos afastada da questão nacional, e o congresso do ano passado, em Porto Alegre, foi um evento importante para todos nós, e, para mim, um momento especial. Em Porto Alegre, o departamento do Rio Grande do Sul do IAB propôs a parceria com o de Minas Gerais, em um quadro institucional já bastante diferente, pois no IAB houve o aumento da presença das mulheres e de uma juventude animada. Me convidaram para concorrer à presidência compondo uma chapa muito diversa, comprometida com as questões que foram sendo construídas na gestão do Nivaldo, como o trabalho compartilhado com outras entidades e setores da sociedade civil.

 

Quais são as pautas que estão na ordem do dia neste seu início de gestão?

MEB  Muitas das pautas da gestão anterior, como os preparativos para a realização do Congresso da UIA no Rio de Janeiro. Neste momento, estamos discutindo o redimensionamento do UIA 2021, principalmente o formato que ele terá. Nivaldo continua representando o IAB no comitê de organização, e estamos todos envolvidos nos trabalhos para um excelente congresso. Também estamos concentrados no Centenário do IAB no próximo ano, desenhando uma exposição linda: uma linha do tempo contextualizada cultural e politicamente. A ideia é irmos recheando essa linha conforme formos digitalizando o rico acervo dos IABs. Será um instrumento de trabalho e convergência, e, também, uma fonte de pesquisa. Nela vamos contar o papel do IAB nas lutas brasileiras, a luta feminista, a luta por cidades justas, por liberdade e democracia.  Em relação ao patrimônio, além do empenho em continuarmos a expandir as articulações com os setores da sociedade civil comprometidos com a defesa da memória, achamos importante que o Fórum também dê ênfase à pauta ambiental, aos problemas de ocupação do território. Os arquitetos sempre estiveram preocupados com as cidades, mas os desastres ambientais que estão ocorrendo e a ameaça à integridade dos povos originários e daqueles que cuidam e vivem da terra são sem precedentes. Há que atuar firmemente a favor da ocupação justa e ambientalmente correta e, nesse sentido, é importante dizer que a reativação dos departamentos que o Nivaldo citou diz respeito principalmente a Estados que estão no centro dessa pauta, como o Pará, o Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Piauí. É uma região que o IAB está se preocupando em trazer para o debate. Estes são, em resumo, temas relacionados à pauta política, do IAB enquanto resistência. Outra ênfase é no tema da assistência técnica, importantíssimo, para que os arquitetos colaborem para melhorar significativamente as condições de vida dos mais pobres. Já há muitas iniciativas nesse campo, como cursos de residência técnica na Bahia, no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais, e editais do CAU que destinam verbas a essas iniciativas. Como tudo, ainda há muito a fazer. No que diz respeito à questão da equidade, um dos nossos focos é discutir cidades generosas, saudáveis e acolhedoras, e o papel dos arquitetos e das arquitetas nessa construção.

 

Os arquitetos sempre estiveram preocupados com as cidades, mas os desastres ambientais que estão ocorrendo e a ameaça à integridade dos povos originários e daqueles que cuidam e vivem da terra são sem precedentes.” Maria Elisa Baptista

 

O que está sendo rediscutido em relação ao UIA2021RIO?

NA  Desde que o evento foi adiado, em abril, estamos tentando entender, e prever, de certa forma, o quadro mundial e brasileiro no contexto da crise econômica e sanitária em que estamos mergulhados. A programação dos palestrantes e debatedores está confirmada, assim como a Assembleia Geral da UIA. A grande questão agora é sobre o público. Quantas pessoas poderemos reunir? Não sabemos ainda. Estamos trabalhando, então, com a possibilidade de fortalecer, paralelamente, a participação online, desenhando um formato híbrido, que tem se mostrado possível e interessante.

 

Curioso como os eixos temáticos do congresso não perderam relevância nesse cenário de pandemia.

MEB Os temas se tornaram ainda mais pertinentes, o Congresso continua atualíssimo. O seu formato está em discussão, mas não o congresso em si.

 

O que esperar em relação ao tema da Educação à Distância na sua gestão?

MEB  O IAB sempre se posicionou contrário aos cursos totalmente virtuais porque a formação do arquiteto prevê um conhecimento da realidade e uma interlocução criativa impossíveis de serem construídos apenas virtualmente. A Comissão de Educação do IAB tem trabalhado para entender como a pandemia impactou os cursos e como tudo isso está acontecendo nacionalmente. Há aspectos preocupantes, como as demissões em massa de professores e o acúmulo de alunos em salas virtuais. Algumas escolas continuam trabalhando em modo sincrônico – professor e alunos interagindo – e com a mesma quantidade de alunos, mas outras optaram por dar um salto no escuro e reunir 400 alunos na mesma aula. As federais, que estão voltando agora, enfrentam os problemas dos ateliês, dos laboratórios, da extensão. Estamos fazendo e acompanhando as pesquisas que investigam esse quadro, em parceria com as nossas entidades e com a FeNEA, especialmente preocupada com as condições enfrentadas pelos estudantes na recepção das metodologias de ensino remoto. Vivemos uma desigualdade digital muito preocupante e é preciso entender e levar isso em conta. (Por Evelise Grunow)

 

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