Foto Hugo Segawa

Brasília da apologia à crítica | Por Paulo Bicca

São muitos, e têm raízes profundas, os mitos que envolvem Brasília, protegendo-a contra qualquer tipo de crítica que resulte no seu questionamento total ou parcial, a começar pelo mito da comunhão que teria existido, ao menos durante o período inicial da construção. E, se tal evento, na sua dimensão arquitetônica stricto sensu, aparecia a partir do momento em que, pelo trabalho, os homens deixavam a sua marca em “terra virgem”, nem por isso o significado da obra aí se esgotava: para alguns, o objetivo e o conteúdo desta arquitetura gigantesca deveriam ser encontrados também numa suposta comunidade de esforços e intenções que concorriam para a sua realização. Brasileiros das mais variadas regiões e das mais distintas condições sociais para cá vieram, e mesmo que as motivações para tanto fossem as mais díspares e contraditórias, e mesmo que os vários trabalhos diferentes, objetivados durante a construção, fossem, conflitantes entre si, nem por isso Brasília teria, hipoteticamente, deixado de ser o símbolo da “unidade nacional”. Imaginário adequado portanto a uma cidade-capital e coerente com a representação que o Estado necessariamente faz de si próprio. E os arquitetos em muito participaram desta ilusão que ajudaram a criar: “Não se tratava apenas de uma oportunidade profissional, embora da maior importância”, afirmava Niemeyer, “mas de um movimento coletivo, de um empreendimento extraordinário que suscitava e exigia devoção e entusiasmo, unindo os que dele participaram numa verdadeira cruzada para superar obstáculos, oposições, incompreensões e contratempos os mais duros e inesperados. Tínhamos, na verdade, uma tarefa a cumprir e desejávamos fazê-lo no prazo estabelecido. E isso, precisamente, criou um espírito de luta, uma determinação que antes desconhecíamos, estabelecendo entre chefes e subordinados, operários e engenheiros um denominador comum que a todos nivelava, uma afinidade natural que as diferenças de classe, ainda existentes entre nós, tornam quase impossível de estabelecer-se”.Não são fortuitas, portanto, as semelhanças entre o discurso de Niemeyer e a lenda da mítica Torre de Babel; e o parentesco entre esta e Brasília não se limita ao fato de a cidade ser pensada “como se fosse um único edifício”.

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