As casas dos arquitetos – Sedes do IAB nacional e regionais | Por Cêça Guimaraens

Sede do IAB PE, fachada posterior, arquitetos Luís Nunes e Fernando Saturnino de Brito, 1937 © Divulgação, 2021 / Acervo do IAB

 

Trata este artigo de estruturas arquitetônicas representativas de morfologias históricas, cujo significado cultural pode ser duplamente considerado, na medida em que são lugares de reunião de arquitetos, ou seja, são construções onde se localizam as sedes dos departamentos do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB. O reconhecimento desses lugares de encontros e debates para a difusão da Arquitetura e para a luta política traduz a importância da ação cultural dessa instituição centenária. Além disso, considerando que essa valorização inclui edificações do patrimônio monumental e modesto, a preservação de tais ambiências simbólicas e cotidianas das principais regiões e cidades brasileiras é uma das maneiras com as quais o IAB promove as próprias “visões” das linguagens arquitetônicas1.

O IAB resultou da fusão e decorrente extinção do Instituto Brasileiro de Arquitetos – IBA com a Sociedade Central de Arquitetos – SCA. A reunião que criou o IBA aconteceu no dia 26 de janeiro de 1921 na sala de Teoria e História da antiga Escola Nacional de Belas Artes – ENBA, hoje Museu Nacional de Belas Artes. Em 1924, a fusão das instituições originárias transformou-as no então denominado Instituto Central de Arquitetos – ICA. A reunião que criou o ICA, presidida por José Mariano Filho2, foi realizada na sede da Sociedade Brasileira de Belas Artes. Dez anos depois, em 1934, o ICA foi nomeado Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB, expressando o objetivo de consolidar a abrangência nacional da representatividade da categoria. No entanto, 1921 é considerado o ano de criação do IAB, o que torna esta a instituição mais antiga existente no Brasil no sentido da representação dos arquitetos e urbanistas3. Importante registrar que o Distrito Federal era a sede oficial do ICA; contudo, se verifica na composição dos conselhos diretores que, integrando as diferentes categorias de associados, havia sócios em outros estados, especialmente, em São Paulo4.

A criação da Escola de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais na década de 1930, do curso de Arquitetura na Universidade do Recife e o aumento de estudantes e de instituições de ensino fizeram com que as atividades então levadas a efeito abrangessem ações e manifestações que fortaleceram a categoria em diferentes regiões do país. A descentralização das atividades do IAB acentua-se a partir da década de 1940 e, nesse alargamento geográfico-administrativo, a direção central inicia apropriada rede federativa em 1943 com a criação dos departamentos de São Paulo e de Minas Gerais5.

Componente de diversas instituições internacionais, é também notável a articulação política e cultural do IAB com a Federação Panamericana de Arquitetos – FPAA. Em 1950, o IAB tornou-se membro da União Internacional de Arquitetos – UIA, órgão consultor da Unesco. Hoje, o IAB soma departamentos localizados em 26 estados do país, incluindo o Distrito Federal e inúmeros núcleos circunstanciais. Essa composição federativa atua no sentido de promover a profissão junto à sociedade, fortalecer o engajamento social e político da categoria, e ampliar a significância da cultura arquitetônica e a diversidade geracional, de gêneros e de raças entre seus associados.

Em defesa do patrimônio

Conjunto arquitetônico da Praça Floriano (Cinelândia) no início do século 20. Teatro Municipal (à esquerda), trecho final da avenida Central e Escola Nacional de Belas Artes (ao centro), e parte da fachada principal da Biblioteca Nacional (à direita) © Divulgação / Arquivo do NPD/UFRJ-FAU

 

Produto da livre associação dos arquitetos e urbanistas brasileiros, o IAB valoriza e amplia a sua função junto à sociedade, considerando que o espaço público, instituído com edifícios, lugares e paisagens vivenciadas, é a verdadeira essência da vida cotidiana dos cidadãos. Para o IAB, todas as cidades brasileiras agregam as paisagens não urbanas, constituindo patrimônio sociocultural rico em diversidade e significância; para o IAB, tal patrimônio deve ser valorizado por meio de um planejamento urbanístico integrado com uma Arquitetura cuja qualidade seja, em arte e técnica, apropriada às necessidades da população; para o IAB, a participação diversa na difusão do pensamento sobre o uso e a restauração das edificações e sítios históricos resultou da ação sobre a realidade urbana, a qual sempre se apresentou em constante transformação; assim, para o IAB, a requalificação patrimonial faz parte das ações que devolvem os princípios de urbanidade e historicidade aos habitantes dos lugares.

Após empreender a luta pela regulamentação e reconhecimento profissional nas duas primeiras décadas de atuação, o IAB empenha-se, na década de 1940, na difusão da arquitetura do Movimento Moderno. As mudanças aceleradas revelaram que a nossa tradição se constituía da mistura de culturas exógenas com as formas supostamente vernáculas. Confirmava-se, portanto, que, no quadro em que se mesclavam conceitos e diretrizes operacionais, o principal papel das instituições de cultura seria “acirrar” a relação entre história e cidadania para revelar, idealmente, a condição da cidade transformada em espaço cultural de excelência.

Entretanto, edifícios e cidades eram descaminhos ainda projetados à maneira do Renascimento, isto é, espaços que fugiam do aqui e agora, buscando, além das muralhas, a ilha do Lugar Nenhum. Assim, não mais basta articular monumentos em malhas de ruas ortogonais e simétricas. Estabelecido o cristalizado paradoxo que consolida a desconstrução teórica, onde buscar parâmetros para enquadrar as permanências e simultaneamente realizar o ainda humano desejo de reinventar o território ideal? Buscar o referente no horizonte moderno? Mas, onde o referente do que se dizia ‘o novo’? Um olhar múltiplo e híbrido poderia ser um lugar para ver o novo na contemporaneidade? Uma visão multifacetada seria instrumento para evitar ou abdicar da possível debilidade de interpretação do presente que se diz cristalizado?

O modernismo arquitetônico e urbanístico – sem dúvida um território polêmico – foi o eixo de muitos vícios, visões e conflitos, quando as teorias da Conservação entraram no foco. A velocidade e a desigualdade das transformações físico-sociais do espaço urbano acompanharam a revolução modernista junto com o crescimento populacional. Contradições e incongruências da arte de organizar o espaço de vida humana tornaram-se incontáveis. Importaria, nesse contexto, comentar sobre aspectos consagrados para indicar outras possibilidades.

Aquela era a época em que a história foi o momento presente. A memória, efêmera e fugaz. A identidade, fugidia e frágil. A casa, máquina. O futuro, cosmo e infinito. Então, o tempo do contemporâneo configurou a visão mais abrangente da modernidade. Cada tempo vivia o próprio instante. Os tempos vividos não importavam ao novo. Mas, o novo, sim, era o moderno, o verdadeira e radicalmente modernista. Com o novo sempre a se fazer, o moderno dentro do modernismo foi indefinição e indeterminação simultâneas. Na visão utópica do rigor modernista, digressões, divagações, elucubrações e contemplações não foram toleradas. Porém, perguntava-se: as oposições permitem convivências? Toleram diálogos? Quais seriam o elo ou a transição, o entendimento e o encontro entre vícios e visões virtuosas do modernismo?

As consequências mais ‘duras’ das certezas modernistas foram polarizações formais instituídas em detrimento de outros fatos e feitos arquitetônicos possíveis. Embora igualmente legítimos, sentidos e repertórios diversos foram confinados e restringidos de maneira inconcebível. Agora, o que importa é redefinir e promover as ações exitosas realizadas a partir de meados do século vinte. Necessário lembrar, portanto, que as derivações e diferentes tendências do Movimento Moderno, quando este destacou o objetivo de manter as características ‘originais’ das estruturas do passado, foram produzidas por simpatizantes da causa ‘preservacionista’ junto com os arquitetos moderno-modernistas que se agruparam em instituições de classe, escolas e museus6.

Assim, a função cultural das casas históricas foi reforçada em fins da década de 1970 e consolidou-se na década de 1980 com a proliferação de centros destinados aos eventos culturais e artísticos. Exposições, recitais de música, seminários, projeções de filmes, encenações teatrais, venda de produtos culturais, além de mostras sobre o edifício e as descobertas arqueológicas, motivaram restaurações memoráveis tanto no sentido positivo quanto negativo7.

Àquela década, a essência renovadora do processo cultural e a “disponibilidade de quadros […] amplos […] atuando no campo da cultura”8 no Rio, em São Paulo e em outras capitais de importância regional, levou Nestor Goulart Reis Filho a destacar que

“falta uma rede de centros de cultura a partir dos quais seriam coordenadas, em todas as áreas, as atividades culturais. Esses centros podem ser instalados em edifícios restaurados ou conservados, obras arquitetônicas representativas de cada fase, que seriam desse modo, postas em contato permanente com o público, confirmando e reforçando sua destinação cultural”9.

As sedes do Instituto de Arquitetos do Brasil

O IAB estabeleceu e dinamizou as próprias representações estaduais nas principais cidades brasileiras, construindo singular rede com os edifícios-sedes dos seus departamentos. Instaladas em construções cuja particularidade é a linguagem característica do passado local, as sedes do IAB preservam os valores históricos e artísticos de nosso patrimônio modesto e excepcional. Ao promover os valores preservacionistas, incluindo o uso cultural de edificações históricas, nas quais instala as próprias sedes institucionais, o IAB garante a duração de ambiências simbólicas e cotidianas.

 

Casa Marc Ferrez à rua da Quitanda, 21, primeira sede do Instituto Brasileiro de Arquitetos – IBA © Cêça Guimaraens, 2020

 

Segundo registros jornalísticos, na década de 1920, o antigo IBA estava instalado de “modo precário” no 2opavimento do sobrado de número 21, situado à rua da Quitanda, centro do Rio de Janeiro, endereço onde também se localizava a firma de Marc Ferrez, fotógrafo e proprietário de cinemas. Em meio aos eventos aí realizados, a sede da rua da Quitanda também serviu de posto para a convocação de arquitetos não associados, cujos nomes seriam enviados para as “autoridades competentes no sentido de aproveitar as suas especialidades no esforço de guerra, conforme vem acontecendo em todos os países que lutam pela Liberdade”10.

 

Anúncio da Firma Marc Ferrez Filhos, 1921 © Divulgação / Revista A Scena Muda, ano 6, no 262, p. 3, 1926

 

Eventos de teor artístico e político foram realizados pelas instituições precursoras (IBA e SCA) na Sociedade de Belas Artes, na Galeria Rembrandt e no Salão Nobre da ENBA. O auditório da Associação Brasileira de Imprensa – ABI também foi utilizado para as palestras organizadas pelo IAB. A ENBA foi palco das cerimônias de posse dos Conselhos diretores do ICA, e, na comemoração dos 20 anos em parceria com o recém-criado Museu Nacional de Belas Artes, o IAB ali realizou a mostra sobre a evolução da arquitetura no Brasil11.

 

Edifício do cinema Odeon © Cêça Guimaraens, 2020

 

Em 1943, o IAB se instalou na praça Floriano, 7, edifício Odeon, 1oandar. Ainda em acordo com os registros consultados, no dia 15 de janeiro de 1944, em “nova sede”, inaugurou programa de exposições de arte com desenhos do artista plástico Athos Bulcão. Outros artistas recém-chegados da Europa, como Osvaldo Goeldi, Maria Martins e Emeric Marcier, e o arquiteto Ernani Mendes Vasconcelos realizaram ali exposições de arte moderna. Também os escritores Cecilia Meireles e Vinicius de Moraes foram palestrantes naquele salão. No segundo semestre de 1944, a exposição do plano urbanístico para a recuperação de Londres com a presença dos autores urbanistas ingleses e, na sequência do discurso da abertura, a palestra sobre o assunto proferida por Carmen Portinho, então vice-presidente da Associação de Engenheiras e Arquitetas Brasileiras, foram acontecimentos de grande significado político e profissional para os associados do IAB.

Em paralelo às inúmeras exposições de artistas modernos e palestras de associados e convidados, o IAB promoveu eventos políticos de grande importância, destacando-se a leitura e divulgação do manifesto de Luiz Carlos Prestes. Portanto, marcante foi o uso da sede na praça Floriano para reuniões dos comitês Pró-anistia e das Mulheres Pró-democracia entre 1945 e 1947. Apesar da oposição forte entre os grupos progressistas que estavam na direção do IAB Central e os antigos socios-fundadores, que procuravam justificar atitudes pouco usuais, verifica-se que tanto em termos concretos quanto metafóricos o IAB manteve a polêmica em meio aos componentes de seus quadros associados.

Em 10 de outubro de 1950 há notícia sobre a aprovação, na Câmara Municipal, para cessão de terreno ao IAB pela prefeitura12; e, em 1951, a perspectiva de construir novas instalações para o Senado Federal, com a reforma ou demolição do Palácio Monroe, promove discussões sobre a mudança da capital para o interior do país em comissão da qual Jorge Machado Moreira faz parte na condição de representante da instituição13.

Em 1956, o IAB realiza, na sede então situada à rua da Quitanda, 3, 13opavimento, assembleia dos sócios titulares do órgão central e de todos os departamentos estaduais para eleição do conselho diretor, o que indicava a mudança da sede anterior localizada na praça Floriano14. Entre as ocorrências notadas em diferentes registros, é possível reconhecer que, em 1961, “o IAB nacional deixou de ocupar os espaços do IAB/GB, passando a utilizar provisoriamente o escritório de Bina Fonyat e, posteriormente, ocupando um imóvel próprio na avenida Rio Branco, 185”15.

As sedes dos departamentos

No que diz respeito aos usos, hoje, em larga perspectiva, os departamentos do IAB atuam no âmbito nacional com o propósito de utilização “em rede”. Por outro lado, em razão das peculiares características morfológicas e dos diferentes usos em suas origens, essas Casas expressam as diversas linguagens que identificam a variada história cultural do nosso país. A diversidade das linguagens arquitetônicas das construções e as diferentes situações urbanísticas dos bairros onde estão localizadas demonstram que a permanência dessas Casas, além de garantir a manutenção da estrutura sócio-institucional, asseguraria o acesso físico aos acervos bibliográficos e arquivísticos que são, reconhecidamente, bens culturais.

A arquitetura moderna brasileira se encontra representada nas sedes dos departamentos de São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, as quais representam diferentes momentos do Movimento Moderno e confirmam a importância internacionalmente reconhecida da arquitetura produzida em nosso país entre 1930 e 1950.

 

Sede IAB SP © Rafael Schimidt / Fotoarquitetura

 

A sede do Departamento de São Paulo resultou da reunião e desenvolvimento das propostas apresentadas em concurso realizado em 1946 pelas equipes de Rino Levi, Miguel Forte e Abelardo de Souza. Em 2015, na ocasião do tombamento pelo Iphan, escrevi que o edifício, “na forma exterior, assume horizontalidade marcante, expõe de modo claro os elementos estruturais e de composição arquitetônica; e define complexa modulação regular, representando e afirmando a raiz de uma Escola Paulista deveras original. A base do edifício, configurada em dois pavimentos de altura e materiais diferenciados; o corpo em pavimentos-tipo delineados à maneira moderna dos modernistas do período heroico e o coroamento, ousado em elementos ainda mais horizontais, se impõem no lugar e identificam a força histórica da instituição que abriga”16.

 

Sede do IAB BA, projeto e construção de grupo de arquitetos, 1962 © Divulgação / Acervo do IAB

 

Ao agregar esquadrias de alumínio e estrutura modulada em concreto aparente, a sede do Departamento de Minas Gerais do IAB, à maneira da sede do IAB/SP, contém elementos típicos da arquitetura institucional produzida após 1960.

Situada no Centro Histórico de Salvador na vizinhança imediata da Casa dos Sete Candeeiros, a sede do IAB/BA foi construída em 1962. Inaugurada em 1966, a sede baiana é um marco do modernismo em virtude do programa e da implantação, sendo ainda exemplo da arquitetura brasileira modernista mesclada com traços contemporâneos. Também resultante de concurso público, no qual houve a fusão das melhores equipes participantes, a construção apresenta conjunto de lojas no térreo e terraço com espaço expositivo.

 

Sede do IAB PE, fachada posterior, arquitetos Luís Nunes e Fernando Saturnino de Brito, 1937 © Divulgação, 2021 / Acervo do IAB

 

O IAB/PE está instalado no antigo Pavilhão de Verificação de Óbitos, projetado por Luís Nunes e Fernando Saturnino de Brito junto com a equipe do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da cidade do Recife. O antigo pavilhão foi construído em 1937 e tombado pelo Iphan na condição de exemplar da melhor arquitetura modernista brasileira. Hoje em fase de recuperação, o edifício pertence à Universidade Federal de Pernambuco e é o mais recente espaço de uma série de locais onde o IAB/PE se instalou desde o ano de 1951, quando foi fundado17.

 

Sede do IAB/PB © Laercio Cirne, 2015

 

Sede IAB/RS © Divulgação / Acervo do IAB

 

A sede do IAB/PB, localizada no em João Pessoa no largo de São Frei Pedro Gonçalves, é, junto com o Solar do IAB/RS, uma das edificações mais antigas ocupadas pelas representações estaduais do IAB. A ambiência da praça de São Frei Pedro Gonçalves é configurada por casario e loteamento de origem colonial, em que se inserem de modo harmônico a fachada colorida, o frontão e as aberturas da construção que abriga as atividades do IAB/PB.  O Solar do IAB/RS situado em Porto Alegre, por sua vez, é tombado pelo patrimônio histórico municipal e data da primeira metade do século 19.

 

Edifício São Borja, avenida Rio Branco, 277, Centro, Rio de Janeiro. Em primeiro plano, praça onde se localizava o Palácio Monroe, antigo Senado Federal, demolido em 1976 © Cêça Guimaraens, 2021

 

Em 1957, Maurício Roberto tornou-se o primeiro presidente do departamento do Rio de Janeiro, cuja sede era, então, localizada na avenida Rio Branco, 277, 13 pavimento do edifício São Borja18. A sede do São Borja foi utilizada até a década de 1970 e também no início da década de 1980.  No entanto, em 1971, o IAB do Rio de Janeiro também realizava reuniões e eventos no bloco-escola do Museu de Arte Moderna. No final da década de 1970, o IAB/RJ se instalou, por meio de aluguel, em sobrado de estilo híbrido situado à rua Conde de Irajá, bairro de Botafogo.

 

Jardim interno e bloco-escola do Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, arquiteto Afonso Eduardo Reidy, 1958 © Diego Dias, 2019

 

A atual sede do IAB/RJ, localizada no beco do Pinheiro no tradicional bairro do Catete, foi ocupada pelo departamento do Rio de Janeiro na década de 1980. A denominação Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer, adotada para a antiga Casa de Macchinas19, deve-se à homenagem devida ao mais famoso associado. Tal tributo foi prestado no início da década de 2010, quando o Rio de Janeiro abrigou a direção nacional do IAB sob a presidência do arquiteto Sérgio Magalhães. Lugar de reuniões regulares e eventos excepcionais para a instituição, a Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer simbolizaria o trabalho político do IAB, na medida em que as permanentes bandeiras da luta institucional no país são, à maneira das outras Casas, aí desfraldadas.

 

Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer, sede do IAB/RJ © Cêça Guimaraens, 2015

 

A política de integração com os Conselhos de Arquitetos e Urbanistas – CAUs regionais motivou o compartilhamento de algumas das sedes dos departamentos dos IABs. Tal tendência, que de modo claro agrega e reafirma de modo simultâneo o valor da arquitetura contemporânea e a importância histórica das construções, pode ser verificada no Distrito Federal, Espírito Santo e Tocantins.

 

Antiga Assembleia do estado de Tocantins, futura sede do IAB/TO e CAU/TO © Divulgação / Acervo do IAB

 

A ocupação da antiga Assembleia do estado de Tocantins, que será compartilhada pelo CAU e IAB/TO, é o mais recente exemplar que indicaria tal tendência. No Espírito Santo, a casa-sede do IAB/ES, de uso comum com o CAU/ES, apresenta arquitetura típica das unidades residenciais construídas para a classe média em meados do século vinte.

 

Sede IAB/ES e CAU/ES © Divulgação / Acervo do IAB

 

Sede IAB/DF, arquiteto Oscar Niemeyer, 1973 © Divulgação / Acervo Correio Brasiliense

 

O projeto elaborado pelo arquiteto Oscar Niemeyer no ano de 1973 para o IAB/DF abrigaria também a representação nacional do Instituto. Previsto para ser concluído em meados de 1975, o edifício, com três pavimentos, 15 lojas e 15 salas, teria pilotis e terraço-jardim. Segundo o autor, a obra, seria simples e atualizada, com grandes vãos livres que exprimiriam o “caminho inovador da nova arquitetura”20. O projeto não foi construído, sucedendo-se, a partir daí dois concursos para a Casa do Arquiteto em Brasília. O último, destinado à sede compartilhada do IAB/DF e do CAU/BR, envolveu mais de três centenas de arquitetos inscritos, demonstrando o interesse da categoria por sua principal representação arquitetônica.

 

Projeto vencedor do concurso para a sede do IAB/DF, arquiteto Aleixo Furtado, 1979 © Divulgação / Acervo do IAB

 

A heterogênea implantação urbana que caracteriza esse conjunto de edifícios reafirma a historicidade dos espaços patrimoniais das cidades brasileiras. Ao expressar a importância da adequação dos usos e da conservação dessas construções, a rede de edifícios-sedes dos departamentos do IAB recupera e consolida a formação histórica diversa da imagem das “cidades-nacionais” brasileiras.

 

Projeto vencedor do concurso para a sede IAB/DF e CAU/BR, Brasília, arquiteta e urbanista Taís Cristina da Siva e equipe, 2016 © Divulgação / Acervo do IAB

 

Verifica-se, enfim, que em diferentes situações e medidas, esses lugares de reunião e respectivos entornos adquiriram a condição de espaços com significância cultural reconhecida. Símbolos da valorização da história social do patrimônio urbano e arquitetônico, as Casas dos Arquitetos ampliam as perspectivas de ‘pertencimento’ da categoria profissional junto à sociedade. Portanto, ao garantir a permanência, o uso e a fruição de bens patrimoniais que pertencem aos brasileiros, os arquitetos reforçam a centenária dimensão cultural e política.

 

Sede do IAB/MG © Divulgação / Acervo do IAB


Notas:

1 Ver: GUIMARAENS, Cêça. O patrimônio e as casas dos arquitetos. In: TAVARES, Alice; VELOSO, Ana; COSTA, Aníbal; COELHO, Antônio; MAGALHÃES, Ricardo; CORREIA MACHADO, Rosario (Org.). Património arquitectônico Portugal/Brasil. Aveiro, Universidade de Aveiro, 2017, p. 119-127.

2 José Mariano Filho (1881-1946), reconhecido por defender as expressões arquitetônicas do movimento neocolonial em oposição às linguagens “internacionalizantes” que se mostravam com vigor na década de 1930, era médico, escritor, crítico de arte e de arquitetura, e foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes entre 1926 e 1927.

3 A curta existência do Centro de Arquitetos e Construtores do Rio de Janeiro, fundado em 1903, e da Sociedade dos Arquitetos e Engenheiros de São Paulo, criada em 1911, marcou os antecedentes das tentativas autônomas de organização profissional no Brasil. Ressalta-se ainda que, em 1927, foi fundada a Associação Brasileira de Urbanismo; e, em 1930, foi criado o Instituto Paulista de Arquitetos, também de restrita atuação. Congressos do Comitê Permanente Internacional de Arquitetos, realizados na Europa desde 1864, poderiam ainda ser enquadrados na classificação de antecedentes originais dessas instituições.

4 Sócios titulares seriam os residentes no Distrito Federal; aspirantes seriam os alunos das escolas de arquitetura; os correspondentes seriam os sócios residentes em outros estados; e os honorários e beneméritos eram as personalidades públicas e os doadores.

5 As representações e delegacias estaduais (depois intituladas departamentos) de Minas Gerais e São Paulo foram criadas, em 2 outubro e 6 de novembro do ano de 1943, respectivamente.

6 Na impossibilidade de relacionar as ações levadas a efeito e nomear os estudiosos e defensores do patrimônio brasileiro componentes dos quadros centrais e estaduais do IAB, registra-se que tanto a presidência nacional quanto as lideranças locais foram coerentemente exercidas por profissionais arquitetos atuantes na ação conservacionista.

7 O Iphan constituiu o Programa das Casas Históricas em pequenas e médias cidades na década de 1980, promovendo o reuso e a restauração de construções, as quais, além da função cultural, foram também denominadas Escritórios Técnicos e destinadas às atividades de representação institucional e administrativa. Nessa época, a recuperação e mudança de uso do Paço Imperial no Rio de Janeiro, visto até bem pouco tempo como um dos principais centros culturais do país, foram motivos de inúmeros debates.

8 REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1970, p. 203.

9 Idem, ibidem.

10 A colaboração dos arquitetos no esforço de guerra. A Manhã. 27 de outubro de 1942, p. 9.

11 Comemorações dos 20 anos do IAB. Jornal do Brasil, 25 jan. 1941, p. 9.

12 A lei sancionada autorizava o então governador Negrão de Lima a fazer a cessão do terreno número 78 na rua do Passeio, Lapa, para o Departamento da Guanabara. No local seria construída a sede do IAB GB, o programa abrangia salão de exposições e auditório com capacidade para 500 lugares. O auditório seria de caráter público e o IAB GB se obrigava a “manter atividades culturais e de ensino, compatíveis com os Estatutos da entidade profissional de nível superior, sem objetivos políticos ou partidários”. Jornal do Commercio, 12 jan. 1966, p. 7.

13 Machado Moreira afirmou, então, que não havia “tradição a respeitar” no que dizia respeito à arquitetura do palácio “porque o prédio havia sido construído com objetivos bem modestos”, ou seja, “servir de pavilhão para exposição, sendo utilizado por outras instituições sem que tenha atingido as expectativas de nenhuma delas”. A Manhã, 14 nov. 1951.

14 Jornal do Commercio, 8 jul. 1956, p. 7.

15 Esse endereço da sede do IAB no Edifício Marquês do Herval, projetado pelos irmãos MMM Roberto, é referido por Paula Gorenstein Dedecca na página 180 de sua tese de doutoramento intitulada “Arquitetura e engajamento. O IAB, o debate profissional e suas arenas transnacionais (1920-1970)”. Defendida na FAU USP em 2018 e orientada pelo professor José Tavares Correia de Lira é uma tese deveras completa que possui muito interesse para a categoria, na medida em que dispõe novas referências bibliográficas. No caso desse endereço, o mesmo deveria ser verificado em conjunto com os registros da localização da sede do IAB do Departamento da Guanabara no edifício São Borja, situado na avenida Rio Branco, 277, grupo 1301, conforme já comentado.

16 GUIMARAENS, Cêça. Iphan, Processo n. 1732-T-15, Parecer de Tombamento, 2015.

17 Ver: LAPROVITERA, Enio (pesquisa); NASLAVSKY, Guilah (comentários). Sedes 1951-2001 – aspectos arquitetônicos das sedes. Recife, IAB PE, 2001.

18 As denominações que consolidam o âmbito nacional das instituições fundadoras e decorrentes, ou seja, Instituto Brasileiro de Arquitetos – IBA, Sociedade Central de Arquitetos – SCA, Instituto Central de Arquitetos – ICA e Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB (condição esta que destaco em grifo), não devem ser confundidas com as diferentes e específicas nominatas da representação do IAB do Rio de Janeiro assim registradas a partir da década de 1950: Departamento do Estado do Rio de Janeiro; IAB DF;  IAB GB; e Departamento do Rio de Janeiro.

19 Construída em 1904 e tutelada patrimônio municipal pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac, a edificação eclética abrigou originalmente a antiga Sala das Macchinas da Companhia Ferro Carris Jardim Botânico.

20 Ver: Niemeyer projeta sede própria do IAB DF. Correio Braziliense, 1dez. 1973, p. 9.

 

© Fernando Alvim

Cêça Guimaraens é arquiteta, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora do CNPq e conselheira do Instituto de Arquitetos do Brasil.

 

 

* Reprodução de artigo publicado originalmente pelo portal Vitruvius, em 21 de março de 2021.