(Foto: AMATA)

Arquitetura do futuro: conectar saberes para responder aos desafios contemporâneos | Por Ana Belizário

Este ano, o Mês Mundial do Meio Ambiente ganha outro contexto diante da pandemia do coronavírus. O momento é de rever e reavaliar ações e posicionamentos em vista do recado que o mundo parece querer nos dar. Nesse cenário, o papel do arquiteto ganha ainda mais relevância, uma vez que é dele a função de ressignificar os espaços. O trânsito da sociedade nesse “novo normal” vai depender de como os ambientes serão redesenhados. Para atuar com protagonismo neste processo, será preciso recrutar competências que vão além do desenho do projeto e passam de forma intrínseca pela experiência dos usuários.

As agendas ambiental e ética parecem ganhar importância à luz do cenário em que vivemos. Não podemos mais dissociar o papel da arquitetura de sua função social. Projetamos para melhorar o ambiente construído, melhor regular a nossa relação com o meio ambiente, para combater os desafios urgentes da humanidade, como habitação, saneamento básico, mobilidade, entre outros.

Assim, a retomada de um posicionamento sócio-político mais claro é uma das principais urgências da arquitetura contemporânea. Nas últimas décadas, com a escalada do desenvolvimento tecnológico dos meios de representação 2D e 3D, a atuação do arquiteto quase se confunde com a própria representação gráfica. É importante retomar a ideia da atuação do arquiteto com um grande articulador de saberes, figura essencial na liderança e desenvolvimento de projetos complexos. Para muito além do trabalho como simples “cadista”, para usar um termo comum em nosso meio, o arquiteto deve voltar a ser o ponto comum entre as disciplinas técnicas, o cliente e o usuário, a partir de uma abordagem holística sobre a edificação, levando em conta os seus aspectos construtivos e pragmáticos, além da construção do sentido e do significado, atribuições fundamentais da nossa profissão.

Vale ressaltar que o arquiteto hoje atua em um ambiente cada vez mais normalizado, onde as responsabilidades jurídicas que incidem na construção de um edifício são cada vez mais claras e endereçadas a cada agente envolvido. É possível afirmar que uma parte importante da atuação do arquiteto passa a ser uma compreensão crítica e técnica dos materiais e como se comportam os sistemas em situação de uso – ou seja, sua performance técnica. Fica claro que o campo da tecnologia dos materiais passa a ser ferramenta fundamental para o desenvolvimento dos projetos do futuro.

É também fundamental a compreensão de que, apesar da decisão final ser do cliente (seja ele público, privado, pessoa ou empresa), a autonomia da proposta é nossa. Nossas escolhas podem e devem refletir o nosso compromisso ético com o ambiente com o qual nos relacionamos. Nesse sentido, acredito que a retomada da madeira como material construtivo, através da madeira engenheirada, seja o que há de mais eficiente no campo propositivo da arquitetura e da tecnologia dos materiais atualmente, trazendo para o edifício um potencial de mitigação de gases de efeito estufa que nenhuma outra estratégia pode alcançar. Não se trata mais de questão de escolha, mas de responsabilidade.

O futuro da arquitetura pode estar em retomar o arquiteto do passado, cuja figura de liderança articulava os saberes técnicos e as ciências humanas, construindo cultura através das edificações onde nossa existência se desenrola. Muito além do domínio de tecnologias, as competências agregadas começarão a fazer cada vez mais sentido. A capacidade de gerir pessoas, conectar e reconhecer novos saberes, bem como materializá-los tendo como ponto focal a experiência dos usuários dentro do contexto da ética e do respeito ambiental, será cada vez mais esperada dos arquitetos.

Lembrando Alberti nos idos do Renascimento, arquitetura é “cosa mentale”. A grande ferramenta da nossa profissão são as ideias que nos conectam com clientes, com usuários e com o meio ambiente. O avanço da arquitetura contemporânea passa pela saber interdisciplinaridade, já que a arquitetura não é um conhecimento fechado e autossuficiente, e sim um conjunto de saberes à serviço da sociedade. O sentido dela depende de sua relação com outras áreas e da sua capacidade de interpretar a realidade e de influir na sociedade, através de projetos que atendam as necessidades e as aspirações do nosso tempo.

 

*Ana Belizário – Gerente de Projetos e Novos Negócios da Amata, é arquiteta formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 2006. Atuou por 10 anos no mercado imobiliário, especializando-se em incorporação. Desde 2016, é Gestora de Projetos, liderando o novo negócio da Amata com foco em construção civil.

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